ESTADO DE COISAS
3 de julho de 2000
Estão querendo coisificar a vida. Quando
não sabem o que dizer enfiam a coisa no lugar de outra coisa. Tratam de coisar
com quem não tem nada a ver. Ô coisinha tão bonitinha do pai, já cantava Beth
Carvalho. Coisas generalizam tanto que barateiam o que é vulgar.
Coisar comigo é uma forma bestificada de
se pedir para fazer amor. Pior quando se sabe apenas duas ou três coisas a
respeito dela. Mehram virou Maryam ao trocar de sexo, agora quer reverter a
operação por não suportar a vida de mulher no Irã. A ex-namorada de Luiz
Bragança, o aspone de Salvatore Cacciola, imitou Nicéa e denunciou-o por
agredi-la fisicamente em tempo de romance nos restaurantes caros de Paris, entre
outras coisas, obrigando-o a modificar seu horário de banhos de sol.
Danuza Leão celebrizou o “uma coisa!”
quando pôs as cartas na mesa e passou a pinçar as entrelinhas da dança das
cadeiras dos socialites, com a autoridade de um Rio que passou por sua vida. FHC
não concorda com a tiete dos olhos de Chico Buarque, achando que ele está
superado, ao não querer emprestar suas músicas para Hannover: “só aqui no Brasil
é que existe esse provincianismo de criticar o presidente da República pelo
excesso de viagens”. O Brasil ainda não passou por sua vida e ele não admite que
seu cargo seja coisificado.
Essa coisa não vai dar certo, porque não
se pode dar nome aos bois, algo de ilícito corre nas veias da coisa que é esse
país. Refletindo um ato falho calcado em seus antepassados, vereadores,
deputados e senadores transformam suas casas legislativas em câmaras maçônicas
ao decidirem pelo voto secreto. Esquecem-se que representam os interesses da
coletividade, e não a defesa da privacidade de seus pares submetidos à execração
pública decorrentes de impeachments e cassações. Acompanham a tese
decisões do Judiciário que referendam e avalizam a anulação do voto, se
declarado em alto e bom som.
Estado de coisas reflete o
desmoronamento de regimes de força quando se festeja a democracia que irá pôr um
fim a desmandos em nome de vocês têm que ver conforme eu vejo. Estado de coisas
é o que a democracia reflete nos grampos do telefone, nas fitas gravadas no
bolso do paletó, nos disquetes, e na importância dos celulares nos presídios
para que a polícia negocie com o comando dos seqüestros. O tempo passa e não se
consegue enxergar um pingo de poesia e beleza que sufoque o baixo astral de
candidatos a votos e eleitos, como César Maia - “a diferença entre a Câmara de
Vereadores do Rio e São Paulo é que a de lá foi pega em flagrante” - e Ernandes
Amorim - “não adianta investigar e cassar Estevão, o Senado teria que fechar
para balanço”.
Maluf se candidata de novo, pretendendo
se eleger de novo e, entre outras coisas, conseguir uma tribuna livre para se
defender de interpretações errôneas quanto às pérolas que jogou aos porcos.
Estupra, mas não mata. Não votem mais em mim se meu afilhado não se mostrar à
altura do povo de São Paulo. E, por último, prisão perpétua para os culpados de
crimes hediondos, única solução cabível para acabar com esse estado de coisas
que se perpetuam...
Principiando pelo câncer na próstata - o
que mais apavora o homem, por desestabilizar sua potência -, o brigadeiro João
Paulo Burnier durante longos 14 anos brigou contra o inimigo até vir a falecer.
Identificado com uma das linhas-duras mais encarniçadas já existentes na
história militar, cuja ordem-unida seria o de reunir no mesmo balaio comunistas,
socialistas e esquerdistas, bem embalados, e enviá-los para o país dos pés
juntos, sendo o avião a menor distância entre os dois pontos. Receava-se o
assédio da imprensa e eventuais manifestações de repúdio. Optou-se por não fazer
o velório e o corpo seguiu secretamente do hospital para o seu jazigo perpétuo.
Sua morte passou em branco.
O brasileiro finge que não é com ele que
está acontecendo, não é nada disso o que está vendo na frente dele, não é
possível esse estado de coisas, que transformam sua vida numa coisa que não vale
a pena ser vivida. Se exagerar nas coisas, no que somos - uma coisa! - e em
sendo o coiso o marido da coisa, acabaremos por dar tanta volta que chegaremos à
conclusão que Caramuru descobriu a pólvora para dizimar o Quilombo dos Palmares.
Fincando os pilares de um país de molambeiros.
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