O ESPIRITISMO NÃO BATE À PORTA PARA ENTRAR

Mais um filme, “Nino de sexta a segunda”, a comprovar a infiltração crescente da ação do espiritismo na concepção dos roteiros de modo a nos influenciar, sem sentirmos ou sequer notarmos sua presença, como na produção francesa dirigida por Pauline Loquès, ou mesmo pelo próprio público. Peço licença para revelar facetas do filme com o intuito de demonstrar como o espiritismo se introduz e transforma a vida de Nino – como poderia ser com qualquer um de nós.
O filme começa numa sexta-feira e logo por nos despertar, a raça humana, enquanto ainda no entorno da idade dos 30 anos. Através do diagnóstico do exame de sangue de Nino: câncer na garganta desencadeado por uma doença transmissível pelo sexo, a ser tratado imediatamente, a partir da 2ª feira seguinte, por meio de quimioterapia. A situação se apresenta sem maiores detalhes de como isso foi acontecer. E precisa? Sim, a depender de quem ainda se encontra desnorteado, leso ou mesmo dormindo na fila para se habilitar a alguma coisa que o realize na vida, não se alterando e mantendo-se inerte às estocadas em seu estado de espírito, cujo objetivo é de acordá-lo. O indivíduo finge que não é com ele, faz-se de desentendido e prefere navegar no mar da inconsciência, até se orgulhando de não acreditar no que não consegue ver. Porém, Nino agora não poderá negar a dor da doença, mesmo que ela ainda não tenha se pronunciado – isso ele irá sentir.
Mas Nino não consegue dividir a dor de sua existência com ninguém, em flagrante contraste de não querer morrer. Ou seria sobreviver? Procura, então, sua mãe, seu pai já havia morrido, mas não se anima, vendo-a mais preocupada em recompor sua vida conjugal – o que o leva a não compartilhar seu problema. Chega ao ponto de não encontrar a chave de seu apartamento e mostra-se incapaz de recuperá-la, a significar que perdeu o rumo. Recorre aos amigos numa festa, mas se sente um estranho no ninho. Um deles ensaiou minimizar o câncer, esclarecendo que atualmente pode ser tratado mas, melhor informado por Nino do quadro na íntegra, veio a murchar.
Até esbarrar num banheiro público com Zoé, sua colega de escola, que o convida a conhecer sua tenda num parque de Paris. Lá, o filho de Zoé, de 6 anos, tenta lhe vender um instrumento eletrônico para controlar se o bebê está dormindo ou se já acordou. Nino hesita, quase respondendo que não tinha filhos. Zoé parecia ler seus pensamentos e o convida para lanchar em sua moradia, o que o estimulou a contar toda a sua história para ela – a partir do exame de sangue. Eis que o filho de Zoé, antes de dormir, pediu para Nino contar uma história, desde que não fosse tirada de um livro. Quando Nino pôs-se a narrar, o garoto logo a identificou como inerente à vida de Nino: “É você, né?”.
Nino e Zoé também foram dormir. Juntos na mesma cama, mas de mãos dadas. E assim o domingo mergulhou no negrume da noite. Deus assinaria esse quadro. Magistralmente compunha a arrumação dos seres na criação da vida.
Nino acordou de madrugada para chegar à clínica, ainda sem a luz do dia, não para iniciar a quimioterapia àquela hora, e sim para entregar o frasco contendo o seu espermatozoide. Sua oncologista havia lhe recomendado a coleta e o subsequente congelamento do material, antes de iniciar a quimio, que poderia danificar o sêmen e causar infertilidade temporária ou permanente. Na 6ª feira, a recomendação não fazia o menor sentido.
A enfermeira na recepção o orientou a voltar mais tarde. Nino replicou diante da enfermeira, do segurança e dos que aguardavam sua vez, chocando-os: “E o que faço com isso aqui (apontando para o frasco)? Não quero perder a chance de ter filhos!”.
O filme termina com esse desafio, mas começa outro filme, quando me veio à mente Nino de mãos dadas com Zoé e seu filho. Que drama! Precisava toda essa situação ter se desenrolado assim tão rápido? Num fim de semana! Também pudera, para quem vinha marcando passo, diria o que costuma fazer pouco dos outros. Um brutal problema por Nino resolver, equacionar, conviver ou simplesmente aceitar? Como Zoé poderá pensar em formar uma família com alguém cuja vida corria sério risco, sem contar a infertilidade que agora o ameaçava de perto? Toda essa carga emocional despejada, de uma só vez, sobre suas cabeças.
Somente trabalhando, a cada dia, a possibilidade de continuar a vida. Como a lição de dividir o espaço de um lar com os filhos. Explorando a oportunidade que sempre nos é dada, ao longo da encarnação, para recomeçar a viver como se fosse em outra existência, uma nova vida, aqui mesmo na materialidade do plano. Com maior domínio de consciência, conhecimento e vivência para ir distinguindo dimensões nas quais a espiritualidade irá se pronunciar, soprando-lhe, por vezes, palavras sem sentido ou exibindo sonhos incompletos que terá de decifrar. Até abrir os olhos e passar a ver o mundo de outra maneira, quando chegado o tempo de compreender o verdadeiro sentido das parábolas em que a manifestação espírita alarga os horizontes unindo o que foi ao que é.
A vida sempre trabalha a nosso favor, Nino, mesmo quando não entendemos. O que hoje te parece difícil, amanhã fará sentido. Não desanimes diante das provações, elas não vêm para te destruir, mas para te lapidar – ah, se Nino pudesse ouvir Chico Xavier!
O Espiritismo não bate à porta para entrar.


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