﻿{"id":103098,"date":"2012-07-03T22:34:54","date_gmt":"2012-07-04T01:34:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?page_id=103098"},"modified":"2018-03-18T16:38:49","modified_gmt":"2018-03-18T19:38:49","slug":"como-se-constroi-uma-russia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/como-se-constroi-uma-russia\/","title":{"rendered":"COMO SE CONSTR\u00d3I UMA R\u00daSSIA"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de como se constr\u00f3i uma R\u00fassia. De com quantos paus se faz uma canoa. Atr\u00e1s de uma pali\u00e7ada se constr\u00f3i uma arena, atr\u00e1s de pesadas toras de cedro se erigiu a cidade de Moscou em 1147, cujas muralhas, de tanto os invasores tocarem fogo na madeira, acabaram por se transformar numa verdadeira muralha que resistiu ao brandir das espadas e das estocadas do fogo inimigo. Numa verdadeira fortaleza, o significado de Kremlin, que abriga no seu interior in\u00fameras catedrais, dentre as quais Dormi\u00e7\u00e3o, Anuncia\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Miguel Arcanjo e o Campan\u00e1rio de Ivan, o Grande. Al\u00e9m da C\u00e2mara Facetada (1491) e do sal\u00e3o de coroa\u00e7\u00e3o e banquete de n\u00fapcias, o Pal\u00e1cio do Kremlin (1849), sede de gala dos czares, e o Pal\u00e1cio do Patriarca, sede do chefe da Igreja Ortodoxa Russa.<br \/>\nAfora e \u00e0 frente do Kremlin, a Pra\u00e7a Vermelha, que no russo krasnaya significa tamb\u00e9m belo. Famosa pelo desfile de armamentos comemorativo do Dia do Trabalhador e da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, em que sobressa\u00edam os m\u00edsseis. N\u00e3o era \u00e0 toa que se associava o vermelho do sangue ao comunismo; e o esp\u00edrito do confronto, o sangue derramado e o sangue que corre nas veias, \u00e0 vitalidade.<br \/>\nA hist\u00f3ria da R\u00fassia se inicia nos b\u00e1rbaros. Nos selvagens, silv\u00edcolas, aut\u00f3ctones, nativos ou fetichistas &#8211; o que quer que sejam chamados -, na evolu\u00e7\u00e3o de uma personalidade independente e soberana, que n\u00e3o depende sen\u00e3o de si mesma. Na evolu\u00e7\u00e3o de uma lenda que se expressa por sua arquitetura, representada na \u00e1guia bic\u00e9fala, uma cabe\u00e7a para a Europa e outra para a \u00c1sia. S\u00edmbolo posteriormente reproduzido pelos figadais inimigos americanos para espelhar a agudeza de seu racioc\u00ednio e a vis\u00e3o de logo passar \u00e0 a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o gastar tempo com elucubra\u00e7\u00f5es.<br \/>\nUma hist\u00f3ria de opress\u00e3o, por soberanos provenientes de seu pr\u00f3prio e futuro povo, dos quais alguns se incluem entre os mais cru\u00e9is que o mundo j\u00e1 conheceu, o que explica por que o povo russo \u00e9 t\u00e3o arraigado \u00e0 sua terra, desconfiado dos estrangeiros e submissos a um poder autorit\u00e1rio. \u201cA resist\u00eancia da R\u00fassia se tornou not\u00f3ria\u201d, disse o poeta Evtouchenko, \u201cposteriormente ficou insuport\u00e1vel!\u201d.<br \/>\nO nome de russo foi sendo consolidado ao longo do tempo, associado \u00e0 imagem de seu animal-s\u00edmbolo: o urso. Correlacionado ao homem m\u00e1sculo, rude e cruel, quando a situa\u00e7\u00e3o exigia.<br \/>\nPrivada de fronteiras naturais, a R\u00fassia sofreu diversas invas\u00f5es, uma ap\u00f3s a outra. Atrav\u00e9s de seu leste, hunos e t\u00e1rtaros. A seu oeste, vikings, godos e teut\u00f4nicos. Os kaz\u00e3s, povo de mercadores estabelecidos na regi\u00e3o do Baixo Volga, comerciavam com os eslavos que viviam na regi\u00e3o das florestas onde hoje se localizam Kiev, Novgorod e Moscou, pr\u00f3ximos da rota comercial cujo acesso conduzia a mares naveg\u00e1veis na extremidade b\u00e1ltica. Aparentados aos eslavos da Europa Central, estes eslavos do leste sucederam aos outros invasores destitu\u00eddos do car\u00e1ter civilizat\u00f3rio, tornando os russos cada vez mais resistentes, como ficou de sua fama. E semear as origens hist\u00f3ricas do estado russo, que corresponderia \u00e0 extens\u00e3o de terra entre os mares B\u00e1ltico (golfo da Finl\u00e2ndia) e Negro, cortada pelos rios Volkov e Dnieper, por meio dos quais comerciantes escandinavos penetravam em terras eslavas para alcan\u00e7ar Biz\u00e2ncio (antigo imp\u00e9rio romano do Oriente, centrado na sua capital Constantinopla, hoje Istambul). Quando, ocasionalmente, combatiam o povo local, valendo-se dos guerreiros vikings. Ao longo de seu percurso, fundaram os burgos fortificados de Novgorod e Kiev. Com o primeiro, nasce o Estado russo em 862. Transferido depois para Kiev, em 882.<br \/>\nEm 980, Kiev \u00e9 governada por Vladimir, primeiro eslavo de uma longa s\u00e9rie de autocratas que predominaram na R\u00fassia. Nessa \u00e9poca, a maioria dos soberanos da Europa, Oriente Pr\u00f3ximo e \u00c1frica do Norte tinha abra\u00e7ado uma das grandes religi\u00f5es monote\u00edstas. A Europa e Biz\u00e2ncio eram governadas por pr\u00edncipes crist\u00e3os, o mundo \u00e1rabe por mul\u00e7umanos. Ao sul de Kiev ficava o Estado ent\u00e3o independente dos Kaz\u00e3s, no qual os chefes tinham adotado o juda\u00edsmo como religi\u00e3o oficial.<\/p>\n<p>Vladimir viu que poderia tirar partido com uma religi\u00e3o oficial como fator de unidade, integra\u00e7\u00e3o e controle de seu povo, decidindo impor a seus s\u00faditos uma religi\u00e3o para substituir suas cren\u00e7as. Vladimir enviou emiss\u00e1rios para se informar sobre o islamismo, o juda\u00edsmo e o cristianismo e efetuar sua escolha. De pronto, o islamismo foi rejeitado por condenar o \u00e1lcool &#8211; o grande prazer dos russos. No juda\u00edsmo n\u00e3o fizeram f\u00e9 pelo fato de os hebreus serem um povo disperso, espalhado por diversos territ\u00f3rios. S\u00f3 lhes restou o cristianismo sob duas formas: romana e oriental. Os agentes de Vladimir acharam que faltava brilho ao cristianismo romano. Ficaram ofuscados pela pompa da Igreja Ortodoxa, em plena fase de rompimento com o Papa, sob a influ\u00eancia dos bizantinos em Constantin\u00f3polis.<\/p>\n<p>Foi a primeira e \u00fanica vez que se teve not\u00edcia de um estado-na\u00e7\u00e3o realizar uma licita\u00e7\u00e3o para proceder \u00e0 escolha de uma religi\u00e3o oficial.<br \/>\nVladimir batizou-se segundo o rito ortodoxo e obrigou seus s\u00faditos a seguirem o exemplo. Esta escolha teve efeitos duradouros que acabaram por isolar o ent\u00e3o reino de Vladimir do resto da Europa. Suscitou uma desconfian\u00e7a tenaz \u00e0s ideias vindas do oeste, origem de uma tr\u00e1gica inimizade entre russos e seus vizinhos cat\u00f3licos, principalmente os poloneses. O golpe audacioso de Vladimir assegurou ao principado de Kiev uma certa unidade que, ap\u00f3s sua morte, chegou ao apogeu com Iaroslav, que protegeu as letras e as artes construindo catedrais e se aliando a numerosos soberanos estrangeiros. No entanto, a sua morte em 1054 anuncia o decl\u00ednio da R\u00fassia Kieviana que, devido \u00e0s infind\u00e1veis guerras internas e ao enfraquecimento do poder central, dividiu-se em v\u00e1rios principados.<br \/>\nNo s\u00e9culo XI, a arte moscovita come\u00e7a a dar o ar de sua gra\u00e7a atrav\u00e9s de \u00edcones &#8211; imagens religiosas pintadas em pain\u00e9is de madeira &#8211; produzidos por artistas an\u00f4nimos mantidos pela Igreja e que retratavam o reino de Cristo. Seu car\u00e1ter sacro espalhou-se por lares quando passou a se acreditar que contivessem poderes miraculosos de curar enfermos e repelir invasores. Sem a ilus\u00e3o de profundidade da pintura renascentista, tampouco tinham a pretens\u00e3o de serem originais. Veneradas rel\u00edquias que testemunharam a profunda f\u00e9 crist\u00e3 da Velha R\u00fassia.<br \/>\nSupersti\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, quando uma casa de madeira em Suzdal ficava pronta no s\u00e9culo XII, faziam entrar primeiro o gato, o decifrador da sorte por gozar de sete vidas. Se ele desdenhava e n\u00e3o ousava p\u00f4r as patinhas adentro, desmontavam a casa toda, pois que s\u00f3 os gatos farejam maus esp\u00edritos.<br \/>\nConstantemente invadida por n\u00f4mades, a R\u00fassia sucumbe aos t\u00e1rtaros &#8211; um dos bra\u00e7os dos mong\u00f3is &#8211; que, no s\u00e9culo XIII, conquistaram uma grande parte da Europa e da \u00c1sia. No principado de Vladimir, o reino inteiro se refugia no interior da Igreja de Assun\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora e \u00e9 queimado. Os russos entenderam o recado de Deus para abaixarem a cabe\u00e7a, fortalecerem o esp\u00edrito e aprenderem a costurar alian\u00e7as.<br \/>\nEm 1240, os t\u00e1rtaros se apoderam das terras eslavas do rio Neva ao Mar Negro, ao passo que Alexandre Nevsky, com 19 anos, salva a R\u00fassia de uma invas\u00e3o inimiga em larga escala, pelo norte. Bate os cruzados suecos e atrai os cavaleiros teut\u00f4nicos para uma batalha sobre a superf\u00edcie gelada do lago Chudskoye, esmagando seus lend\u00e1rios guerreiros montados que, protegidos por armaduras pesadas, n\u00e3o conseguiam manter-se de p\u00e9.<br \/>\nAlexandre Nevsky entrou para a Hist\u00f3ria como o maior defensor da R\u00fassia, por sua luta pela unifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio que emplacou a grande na\u00e7\u00e3o russa no mapa-m\u00fandi. Apesar de t\u00ea-la tornado vassala dos t\u00e1rtaros. A inten\u00e7\u00e3o de Alexandre era impedir que o enorme ex\u00e9rcito t\u00e1rtaro, como de h\u00e1bito, massacrasse e arruinasse, fizesse da R\u00fassia terra arrasada &#8211; sabia que n\u00e3o se importavam com a religi\u00e3o ou cultura russas. For\u00e7ou os cidad\u00e3os de Novgorod a pagar tributo e deteve uma ocupa\u00e7\u00e3o que usurparia mais territ\u00f3rio, com o apoio da Igreja Ortodoxa Russa. Gra\u00e7as \u00e0 amizade com o Grande Khan (l\u00edder do imp\u00e9rio mongol), Alexandre Nevsky foi institu\u00eddo como Gr\u00e3o-Pr\u00edncipe de Vladimir, o comandante em chefe russo &#8211; o que permitiu eximir seus compatriotas de marcharem ao lado dos mong\u00f3is em suas guerras de conquista.<br \/>\nDe 1328 a 1340, Ivan I, o Gr\u00e3o-Pr\u00edncipe de Moscou, amplia seu territ\u00f3rio e se torna o vassalo preferido dos t\u00e1rtaros, que governaram o jovem Estado russo por mais de dois s\u00e9culos, reduzido a alguns principados pagando tributo aos senhores t\u00e1rtaros.<br \/>\nKiev, no meio da Ucr\u00e2nia t\u00e1rtara, n\u00e3o encontrou nunca mais sua supremacia pol\u00edtica. Muitos ucranianos de hoje reivindicam a honra de terem sido os verdadeiros fundadores da R\u00fassia, embora n\u00e3o se considerem russos e desdenhem de seus vizinhos eslavos do norte, originalmente habitantes da Mosc\u00f3via, principado cuja capital Moscou era um burgo como qualquer outro. No entanto, os pr\u00edncipes moscovitas se aproveitaram habilmente da coleta de impostos para refor\u00e7ar sua posi\u00e7\u00e3o, desviando parte dessas somas para fortalecer sua soberania.<br \/>\nO poder espiritual e temporal de Mosc\u00f3via se solidifica quando, por um golpe de sorte, o patriarca da Igreja Russa morre durante uma visita a Moscou e os pr\u00edncipes moscovitas persuadem seu sucessor a transferir a sede da igreja para l\u00e1, suplantando Kiev como capital religiosa da R\u00fassia.<br \/>\nAssim, tornaram-se bastante fortes para confrontar os t\u00e1rtaros, ainda mais que a coes\u00e3o alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da convers\u00e3o ao cristianismo se consolidava e o alfabeto cir\u00edlico criado pelos irm\u00e3os mission\u00e1rios Cirilo e Met\u00f3dio no s\u00e9culo IX facilitava, ao ter adaptado a l\u00edngua russa \u00e0 escrita grega.<br \/>\nOs mong\u00f3is varreram e destru\u00edram mais territ\u00f3rios do que qualquer outro povo na face da Terra. Semelhante \u00e0s da Mong\u00f3lia, amavam as plan\u00edcies da R\u00fassia, onde havia tamb\u00e9m florestas e, atr\u00e1s de cada \u00e1rvore, um inimigo russo pronto para mat\u00e1-lo. Por isso, seu dom\u00ednio n\u00e3o se solidificou &#8211; n\u00e3o lhes aprazia viverem encerrados em fortalezas ou castelos. Gostoso era vencer os inimigos, persegui-los, tomar suas terras, ver suas fam\u00edlias em l\u00e1grimas, montar seus cavalos, possuir suas filhas e esposas. Seu dom\u00ednio era entendido pela matan\u00e7a, fogo e saque, em troca do tributo.<br \/>\nPor entre as labaredas da destrui\u00e7\u00e3o, surgiu Andrei Rublev, o maior icon\u00f3grafo russo de todos os tempos, que proporcionou mais cores e luzes aos \u00edcones, numa tonalidade brilhante que deu uma nova fei\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia bizantina. Jesus deixa de ser amea\u00e7ador e Nossa Senhora, angustiada. Andrei Tarkovski, famoso diretor do cinema russo, cuja tem\u00e1tica recorrente \u00e9 a espiritualidade, levantou a quest\u00e3o de o artista come\u00e7ar a interferir na realidade de seu tempo e n\u00e3o apenas retrat\u00e1-la, quando filmou Andrei Rublev.<br \/>\nPor entre as l\u00ednguas de fogo que vertiam cinzas e destro\u00e7os, divisou um temperamento impulsivo que come\u00e7ava a levantar as paredes de uma casa que iria abrigar uma nova na\u00e7\u00e3o. O clar\u00e3o das chamas preanunciava um Deus no C\u00e9u e outro aqui na Terra, disposto a n\u00e3o se subordinar ao sublime que o sagrado cora\u00e7\u00e3o exige, falecer o bizantino e florescer o russo, numa miss\u00e3o terr\u00edvel em somar peda\u00e7o a peda\u00e7o na busca pela identidade de um povo que n\u00e3o comportava recuos diante de enfrentamentos inevit\u00e1veis, quando a sorte est\u00e1 lan\u00e7ada.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de como se constr\u00f3i uma R\u00fassia. De com quantos paus se faz uma canoa. 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