﻿{"id":109185,"date":"2024-01-08T18:03:22","date_gmt":"2024-01-08T21:03:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?page_id=109185"},"modified":"2024-01-26T18:12:15","modified_gmt":"2024-01-26T21:12:15","slug":"traidores-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/traidores-2\/","title":{"rendered":"CENA 1 &#8211; A GUERRA CIVIL QUE N\u00c3O HOUVE"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\">\n<p>O golpe no dia 1\u00ba de abril de 1964 n\u00e3o foi mentira conforme se costuma fazer tro\u00e7a nesta data. Nem tampouco um gracejo a aguardada guerra civil que acabou por n\u00e3o acontecer, de igual forma, na Batalha de Itarar\u00e9.<br>O dia amanheceu com uma chuva fina que apenas umedecia a Avenida Rio Branco. Das janelas do Clube Militar (na esquina da Avenida Rio Branco com Rua Santa Luzia), no quarto andar, se podia ver a multid\u00e3o que se concentrava na pra\u00e7a Cinel\u00e2ndia gritando palavras de ordem em apoio ao governo de Jo\u00e3o Goulart. A R\u00e1dio Mayrink Veiga, que apoiava Jango, transmitia ao vivo, atrav\u00e9s de um sistema de alto-falantes distribu\u00eddos pela Cinel\u00e2ndia, cada not\u00edcia de resist\u00eancia ao golpe. A multid\u00e3o, em del\u00edrio, queimava bandeiras americanas e agitava bandeiras vermelhas.<br>O Clube Militar era o centro propagador do golpe. Seu presidente, o Marechal Augusto Magessi, mandou distribuir na Cinel\u00e2ndia um panfleto editado em mime\u00f3grafo a \u00e1lcool, que pregava o apoio ao golpe nos seguintes termos:<br>\u201cPovo carioca \/ Toda Marinha de Guerra do Brasil, nossa gloriosa express\u00e3o em todos os tempos, est\u00e1 inteiramente atuante no sentido da moraliza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, ultrajadas pelo governo Jo\u00e3o Goulart \/ J\u00e1 sa\u00edram, com miss\u00f5es relevantes, quatro dos seus navios e um submarino. Toda a Esquadra pronta a levantar ferros \/ A valiosa For\u00e7a A\u00e9rea tamb\u00e9m est\u00e1 coesa tendo os seus avi\u00f5es prontos a decolar, a qualquer momento \/ O general comandante do IV Ex\u00e9rcito prendeu Arraes e mandou o vice-governador assumir o governo de Pernambuco \/ Entre 16 e 17h de hoje dever\u00e1 entrar na Guanabara a coluna Kruel \/ Viva o Brasil unido e forte!\u201d.<br>O panfleto caiu como uma bomba na pra\u00e7a tomada por estudantes e trabalhadores, al\u00e9m de estivadores do cais do Porto. A que se seguiu uma batalha campal que desmente a vers\u00e3o de que o golpe foi feito sem derramamento de sangue, sem um \u00fanico tiro. A velha t\u00f4nica da Hist\u00f3ria do Brasil em abafar o trucidamento do povo pelas autoridades. Para, no lugar, real\u00e7ar a capacidade ordeira, respeitadora e cordial do brasileiro. Mais uma farsa num pa\u00eds politicamente enfermo com as disparidades sociais, assim como n\u00e3o houve em 1964 uma revolu\u00e7\u00e3o tal como os militares insistiram em chamar o golpe. Fazem-se revolu\u00e7\u00f5es por ideais, em nome de uma doutrina. Mas foi apenas um movimento para derrubar Jo\u00e3o Goulart sob o pretexto do comunismo estar desembarcando. Um movimento contra e n\u00e3o em favor de alguma coisa. Destinado a corrigir, n\u00e3o a construir algo novo, e isso n\u00e3o \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o.<br>O povo, indignado, tentou invadir o Clube Militar em retalia\u00e7\u00e3o. A qualquer momento poderia chegar ao Estado da Guanabara a coluna do general Kruel. Com um rev\u00f3lver 45 na m\u00e3o, um coronel do Ex\u00e9rcito deu o primeiro tiro, que acertou na testa de um homem negro e corpulento. Ele caiu morto na hora. O que bastou para come\u00e7ar o tiroteio, com os populares tentando derrubar a porta de entrada e os militares atirando das janelas. O marechal mandou desligar o sistema el\u00e9trico e os elevadores deixaram de funcionar. A multid\u00e3o corria para todos os lados fugindo das balas que zuniam \u00e0 procura de um corpo para feri-lo de morte. Muitos reagiram fazendo uso de pedras para quebrar as janelas do clube. As ambul\u00e2ncias do Hospital Souza Aguiar iam e vinham levando os feridos. Num conflito dessa ordem, ou voc\u00ea se esconde para evitar morrer, ou enfrenta a situa\u00e7\u00e3o. Os militares atiravam at\u00e9 descarregar as armas. Recarregavam os tambores e tornavam a disparar, s\u00f3 parando quando gastassem todas as balas. A situa\u00e7\u00e3o piorou com a chegada dos tanques e com o refor\u00e7o do I Ex\u00e9rcito. O povo n\u00e3o desistia, gritava \u201cMorte aos gorilas!\u201d e atirava pedras arrancadas do cal\u00e7amento. A R\u00e1dio Mayrink Veiga tinha sido invadida e tirada do ar. Com um megafone, um tenente mandou que a multid\u00e3o se dispersasse, pois a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d j\u00e1 era vitoriosa e n\u00e3o adiantava resistir. Como o povo n\u00e3o obedeceu, a carnificina tomou conta da cena. Uma rajada de metralhadora fez tombar dezenas de uma s\u00f3 vez.<br>Lembrei-me de Domingo Sangrento, massacre que aconteceu em 9 de janeiro de 1905 em S\u00e3o Petersburgo, no crep\u00fasculo do imp\u00e9rio russo, quando milhares de esfaimados e desempregados marcharam com suas fam\u00edlias em dire\u00e7\u00e3o ao Pal\u00e1cio de Inverno, resid\u00eancia do Czar Nicolau II, para reivindicar melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sal\u00e1rio mais justo, sufocados pelas horas extras que os donos das f\u00e1bricas for\u00e7avam os trabalhadores a cumprir e clamando para reduzir a jornada de trabalho para oito horas. A proverbial aus\u00eancia do czar, retirado no dia anterior, liberou a Guarda Imperial, disposta ao redor do pal\u00e1cio, a conter a bala 3 mil que avan\u00e7aram, dentre 80 mil pessoas que protestavam. Dispararam diretamente contra a massa para dispers\u00e1-la. A matan\u00e7a foi generalizada e a neve ficou vermelha, com o sangue de homens, mulheres e crian\u00e7as. Os soldados haviam sido embriagados para perder o escr\u00fapulo.<br>Portu\u00e1rios e estudantes n\u00e3o desistiram, recuaram para depois voltar com suas bandeiras. Bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo come\u00e7aram a ser lan\u00e7adas, mas o povo n\u00e3o arredava o p\u00e9 da pra\u00e7a. Dois civis foram metralhados na porta do Clube Naval. Os tanques passaram a disparar para o alto, um barulho ensurdecedor, mas a batalha prosseguia.<br>Em Pernambuco, cerca de 200 estudantes gritando palavras de ordem e munidos apenas da coragem de lutar pelo que acreditavam, em favor do governador Miguel Arraes, que seria deposto e preso por sua defesa \u00e0 reforma agr\u00e1ria, marcharam em dire\u00e7\u00e3o a uma coluna de militares portando submetralhadoras e fuzis acoplados a trip\u00e9s, apontados amea\u00e7adoramente para eles. Os tiros desfechados os levaram a se embolar uns nos outros, em ato reflexo de defesa, por\u00e9m a morte foi instant\u00e2nea para dois deles.<br>Enquanto isso, a popula\u00e7\u00e3o de Copacabana sa\u00eda \u00e0s ruas em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Ex\u00e9rcito com chuva de papel picado caindo das janelas dos edif\u00edcios, dando vaz\u00e3o ao contentamento por temer o caos de uma guerra civil que estaria por vir. A caminho de observar as ondas do mar e tomar uma cervejinha, cidad\u00e3os apol\u00edticos comentavam que a ditadura seria um mal necess\u00e1rio levando em conta o que se avizinhava.<br>Rafael e T\u00falio l\u00e1 estavam atendendo a um pedido de socorro de seu amigo Alberto Camu para que o salvassem de sua fam\u00edlia de militares, que abriu as portas de seu apartamento defronte \u00e0 praia de Copacabana para comemorar com champanhe francesa a restaura\u00e7\u00e3o, segundo eles, da verdadeira democracia, livre da rep\u00fablica sindicalista e do nefasto populismo.<br>Rafael se identificava com o discurso de T\u00falio com embasamento marxista, menos como apologia ao comunismo e mais como um ataque impiedoso aos privil\u00e9gios dos mais abonados, colhendo as benesses de uma vida mais vantajosa e confort\u00e1vel, enriquecida por regalias, considerado um mecanismo compensat\u00f3rio a que faziam jus face \u00e0 pouca instru\u00e7\u00e3o reinante induzir os pobres a votarem em candidatos populistas, que explorariam sua boa-f\u00e9. Menos cultura, menos sabe votar; a avers\u00e3o aos nordestinos; a segrega\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7ais em favelas e na periferia das capitais, situa\u00e7\u00e3o que pouco evoluiu desde a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Mantidos assim pelo uso e costume dos que est\u00e3o no poder, a servi\u00e7o dos antigos bar\u00f5es de caf\u00e9, capit\u00e3es de ind\u00fastria e coron\u00e9is do sert\u00e3o.<br>Os ricos representados por uma s\u00edntese de todas as for\u00e7as d\u00edspares que apoiaram o golpe: liberais conservadores, conservadores arcaicos, liberais-internacionalistas, corporativistas-estatais, anticomunistas radicais. Rafael lembra que ficou faltando no list\u00e3o o bloco do Carlos Lacerda, ent\u00e3o governador do Estado da Guanabara, que participou do golpe para se sagrar ditador do Brasil.<br>Por uma fatalidade hist\u00f3rica, come\u00e7ou em 1964 no Brasil um per\u00edodo de supress\u00e3o das liberdades p\u00fablicas precisamente quando o mundo vivia um dos per\u00edodos de mente mais aberta da Hist\u00f3ria da Humanidade. Atestam a contesta\u00e7\u00e3o ao <em>establishment<\/em>, a extin\u00e7\u00e3o do colonialismo, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, o confronto entre o capitalismo e o comunismo, o advento da p\u00edlula anticoncepcional e a liberdade sexual, paz e amor, e a psican\u00e1lise.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O golpe no dia 1\u00ba de abril de 1964 n\u00e3o foi mentira conforme se costuma fazer tro\u00e7a nesta data. 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