﻿{"id":2930,"date":"2008-08-22T00:00:15","date_gmt":"2008-08-22T18:45:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldugaio.com\/index.php\/lirismo-e-truculencia-no-amor\/"},"modified":"2014-12-28T13:23:05","modified_gmt":"2014-12-28T13:23:05","slug":"lirismo-e-truculencia-no-amor","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/lirismo-e-truculencia-no-amor\/","title":{"rendered":"LIRISMO E TRUCUL\u00caNCIA NO AMOR"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><h3 align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial;\"><strong>APRESENTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">A pe\u00e7a <i>Lirismo e Trucul\u00eancia no Amor<\/i> foi extra\u00edda do livro <i>Lirismo e Trucul\u00eancia<\/i>, produto de cartas que enviei aos colegas de trabalho, quando cursava bolsa de estudos em Paris, na d\u00e9cada de 80. Cartas sem inten\u00e7\u00e3o de compor um livro, em estilo psicogr\u00e1fico, o que equivale dizer sem o tac\u00e3o da censura interna. Foi transformada num di\u00e1logo que um homem trava consigo mesmo, no qual analisa, na maturidade de seus 50 anos, quest\u00f5es levantadas e vivenciadas na impetuosidade dos 35 anos, quando esses acontecimentos se desenrolaram. Ele os relembra com empolga\u00e7\u00e3o, enquanto o seu Eu amadurecido, com uma cara de amuado, demonstra n\u00e3o estar gostando nada do que poder\u00e1 vir a ser no futuro. N\u00e3o se trata apenas de n\u00e3o querer envelhecer, se trata de&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<h2 align=\"center\"><i><span style=\"font-family: Arial;\"><strong>LIRISMO E TRUCUL\u00caNCIA NO AMOR<\/strong><\/span><\/i><\/h2>\n<h4 align=\"center\">\u00a0de Antonio Carlos Gaio<\/h4>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Suando em bicas e irritado porque a sunga de minha prefer\u00eancia n\u00e3o quer mais entrar no meu corpo, mal consigo ler o telegrama que anunciava minha sele\u00e7\u00e3o para um curso em Paris, quando j\u00e1 havia perdido as esperan\u00e7as. O telegrama chegou com um ano de atraso. Irei beijar o solo franc\u00eas em vinte dias. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">No auge da empolga\u00e7\u00e3o, p\u00edncaro que torna as ilus\u00f5es dif\u00edceis de serem abandonadas com o avan\u00e7o da maturidade, telefonei para Paris e confirmei. Comecei a limpar o mofo dos agasalhos para enfrentar (Pausa) a frieza europ\u00e9ia. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Pouco me importava o frio pois n\u00e3o concebo a maturidade a querer ordenar as ilus\u00f5es, de forma que voc\u00ea n\u00e3o se frustre com os imprevistos da vida. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Isso me lembra a hist\u00f3ria de um afoito e insaci\u00e1vel jovem apaixonado por uma mulher mais experiente, assim o dobro de sua idade, que lhe impedia de ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com ela durante o dia, s\u00f3 porque os filhos pequenos estavam em casa. \u00c0 noite, somente ap\u00f3s as crian\u00e7as adormecerem, ela abria a roleta e liberava o acesso. Ele, afogado em desejo refreado, jamais conseguiria am\u00e1-la com a mesma lux\u00faria que exala ao nascer do sol. Positivamente, n\u00e3o \u00e9 o mesmo tes\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Ver, segurar e dobrar su\u00e9ter, cachecol, luvas, sobretudo e outros agasalhos, vestido de sunga para ir \u00e0 praia, me fez sentir como um peixe fora d&#8217;\u00e1gua. Lembrei-me de que devia participar aos amigos e compartilhar minha satisfa\u00e7\u00e3o. (\u00canfase) O \u00faltimo telefonema foi para ela. (Pausa) Por quem eu me apaixonei n\u00e3o havia nem um m\u00eas, justamente quando eu estava por viajar. Vinha de um longo per\u00edodo de solid\u00e3o no qual me acostumara a n\u00e3o sentir falta, (Enf\u00e1tico) de ningu\u00e9m. (Voz baixa) Fazia tempo que eu n\u00e3o amava algu\u00e9m, com tanta meiguice e do\u00e7ura. Ela estava me ensinando a ser menos ansioso e a n\u00e3o querer tudo para ontem. (Sinal de sil\u00eancio) A n\u00e3o mais mentir para mim mesmo. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Est\u00e3o vendo essas cartas em minhas m\u00e3os? \u00c9 dia sim, dia n\u00e3o, sem contar os in\u00fameros telefonemas e as juras de amor no escurinho do cinema. Se ambos estamos t\u00e3o enamorados, como propor a ela que espere um pouco, porque vou logo ali a Paris, num instante, e j\u00e1 volto? Afinal, era um sonho acalentado h\u00e1 anos viver em Paris e estender a viagem por pa\u00edses \u00e1rabes e comunistas. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">E o que fazer com a impossibilidade de dar seq\u00fc\u00eancia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o de amor? Como remediar a press\u00e3o que se abater\u00e1 sobre meu cora\u00e7\u00e3o? Tenho medo de ficar \u00e0 merc\u00ea de sentir (Aponta para a plat\u00e9ia) tua falta. J\u00e1 sei que combaterei minha ansiedade escrevendo cartas, cartas e mais cartas. (Seduzindo a plat\u00e9ia) O gosto de teus beijos, desde j\u00e1, considero uma grande perda. (Encarando a plat\u00e9ia) Sei que n\u00e3o somos iguais, por isso precisava de tempo e de te ver, e rever, de te ver, e rever, para que possamos ficar juntos. Ser\u00e1 que nosso amor est\u00e1 sendo colocado \u00e0 prova? Percebo que tremes quando me aproximo, a passos firmes, em sua dire\u00e7\u00e3o. Seu jeito de gazela acuada me inibe, n\u00e3o quero te fazer mal. Receio, ao me afastar, que voc\u00ea suspire de al\u00edvio. (Conclus\u00e3o) Talvez amar \u00e0 dist\u00e2ncia seja mais seguro.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Embarquei na quarta-feira de cinzas. Ao subir as escadas do avi\u00e3o, penso, despropositadamente, em saudade. N\u00e3o \u00e9 uma vaga saudade; nem mesmo aquele g\u00eanero de saudade imatura, de n\u00e3o saber se distanciar e viver fora do seu meio, a sentir falta da poltrona predileta, do arroz com feij\u00e3o, de seu canto; nem mesmo aquela saudade-nost\u00e1lgica, long\u00ednqua e gostosa lembran\u00e7a de algo que n\u00e3o vai voltar mais; nem mesmo aquele jeito manso de sentir saudade, quando embora se encontrando longe de quem ama, suporta bem a aus\u00eancia, por se sentir seguro. Ah! A saudade j\u00e1 passou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; (Circo) Senhoras e senhores, convido todos a embarcarem comigo no inquietante roteiro que mistura as del\u00edcias de Paris por entre os estreitos labirintos do islamismo e a indisfar\u00e7\u00e1vel crueza do comunismo. Por falar em misturar del\u00edcias por entre estreitos labirintos, o que ser\u00e1 melhor? Viajar sozinho ou acompanhado? <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Viajar sozinho \u00e9 bastante gratificante e enriquecedor, devido \u00e0 possibilidade de pintar experi\u00eancias e transa\u00e7\u00f5es novas, desde que se corra atr\u00e1s de imprevistos para que as dificuldades o alcancem. (Num crescendo) E acima de tudo que voc\u00ea n\u00e3o seja um sujeito estressado, n\u00e3o sinta falta da fam\u00edlia, nem haja pend\u00eancias amorosas, para que o pecado more ao seu lado. Claro que, sozinho, voc\u00ea tem mais tempo de se olhar no espelho e pensar coisas que n\u00e3o deve, como por exemplo, pedir colo para a mam\u00e3e. Porque, ao se acomodar, voc\u00ea pensa que n\u00e3o saiu de casa e que est\u00e1 a repetir a mesma rotina. Se recuar, talvez outra oportunidade igual a essa n\u00e3o aparecer\u00e1. \u00c9 um desafio fascinante saber que s\u00f3 pode contar consigo pr\u00f3prio, independente de um ou outro apoio, e vencer a parada. Voc\u00ea \u00e9 quem decide e determina o rumo, o ritmo e a entrega a que est\u00e1 se propondo.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Por outro lado, viajar acompanhado \u00e9 bom quando o casal conjuga o verbo no mesmo tempo e os problemas s\u00e3o enfrentados a dois, o que \u00e9 sempre melhor. Sem falar nos orgasmos m\u00faltiplos, <span style=\"text-decoration: underline;\">ih!, perd\u00e3o&#8230;<\/span> no prazer de poderem trocar id\u00e9ias sobre a viagem. Torna-se dif\u00edcil fazer novas amizades, j\u00e1 que o n\u00edvel de imprevisto diminui. Contudo, a rela\u00e7\u00e3o tem que estar afinada e com h\u00e1bitos e gostos por viagens tur\u00edsticas rigorosamente assemelhados. Sen\u00e3o, pode at\u00e9 acabar com a parceria.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Sozinho, voc\u00ea est\u00e1 a salvo de administrar um casamento em queda livre, todavia, corre o risco de incidentes inesperados, acidentes esperados ou at\u00e9 baratinar; n\u00e3o \u00e9 de todo absurdo dar pane na cuca. Pinta muita paran\u00f3ia. Refresquem suas mem\u00f3rias, atire a primeira pedra quem j\u00e1 n\u00e3o viveu esses impasses.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">(Pausa)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">(Tom solene) Gostaria de ouvir a opini\u00e3o de quem \u00e9 mais jovem, o jovem que ainda n\u00e3o viu que tem telhado de vidro, o jovem que se orgulha em n\u00e3o levar desaforo para casa, sua opini\u00e3o sobre liberdade de express\u00e3o. Ou seja, at\u00e9 onde eu posso dizer o que voc\u00ea ag\u00fcenta ouvir? <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; \u00c9, \u00e9 um assunto pol\u00eamico a liberdade de voc\u00ea poder passar adiante tudo que lhe \u00e9 transmitido por amigo, vizinho, conhecido ou qualquer outra pessoa, sem restri\u00e7\u00f5es, a seu c\u00edrculo mais \u00edntimo, roda de amigos, colegas de trabalho, at\u00e9 um ilustre desconhecido. (Dirigindo-se \u00e0 plat\u00e9ia) Eu e voc\u00eas temos todo o direito de abordar qualquer assunto, falar a respeito de outrem ou de alguma situa\u00e7\u00e3o relacionada a mim ou a quem quer que seja. A falar mal e lan\u00e7ar coment\u00e1rios maliciosos. Desde que n\u00e3o seja para difamar e desmoralizar, \u00e9 claro. Desde que a cr\u00edtica n\u00e3o seja vulgar nem maledicente. Essa \u00e9 a fronteira dif\u00edcil de demarcar. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">Por exemplo, se eu extrapolo e me desmancho em revela\u00e7\u00f5es, ao longo de uma conversa, (Aponta) com aquela morena ali, sem me dar conta de que andei falando demais, ao final, tenho o direito de implorar: \u201cPelo amor de Deus, n\u00e3o conte nada do que eu disse sen\u00e3o o Z\u00e9 me mata\u201d. Agora, se nada \u00e9 acordado, se n\u00e3o me pedem para silenciar, me sinto li-be-ra-do. Liberado para passar adiante o que quer que tenha sido mencionado na conversa, a meu bel-prazer, sem car\u00e1ter de fofoca, \u00e0 semelhan\u00e7a da imprensa, que n\u00e3o precisa fornecer a fonte da informa\u00e7\u00e3o quando d\u00e1 a manchete e a not\u00edcia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">Para crian\u00e7as sem papa na l\u00edngua se dizia antigamente, (Tom grave) respeito \u00e9 bom e eu gosto; ser\u00e1 que \u00e9 o caso de recordar como eu era feliz e n\u00e3o sabia ou a gente pode falar \u00e0 vontade, na frente dos outros? Esculhambar o governo porque n\u00e3o combate seca nem queimada. Lamentar onde eu estava com a cabe\u00e7a quando fui casar com aquela mulher. E a\u00ed, eu posso falar o que eu quiser? Abrir o jogo? E voc\u00eas tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Bem, com o tempo, aprendi e cultivei uma avers\u00e3o aos dogm\u00e1ticos. Me apercebi que dentro de n\u00f3s reside um esp\u00edrito que tem o h\u00e1bito de saber de tudo, mandar em todos, inclusive em n\u00f3s. Um ditador que imagina que a vida tem de ser conforme planejou. (Conclus\u00e3o) A for\u00e7a do pensamento franc\u00eas domou essa fera. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">A Fran\u00e7a \u00e9 um pa\u00eds realmente estimulante e que te obriga ao exerc\u00edcio do pensamento de uma forma peculiar. E ai de voc\u00ea se n\u00e3o entrar no papo convenientemente preparado e informado, principalmente sobre pol\u00edtica, a deles e a de seu pa\u00eds. Pode ouvir coisas desagrad\u00e1veis que n\u00e3o saber\u00e1 contestar e que acabar\u00e3o por irrit\u00e1-lo. Eles sofismam muito, partindo de premissas aparentemente l\u00f3gicas, dif\u00edceis de serem refutadas, com brilhante a\u00e7\u00e3o discursiva. Para eles, n\u00e3o \u00e9 muito importante chegar a conclus\u00f5es demolidoras, bastando salientar uns cinco ou seis pontos e desenvolver sua pr\u00f3pria cr\u00edtica, que j\u00e1 \u00e9 combust\u00edvel suficiente para ilustrar um bel\u00edssimo jantar. Prefiro debater assim do que com donos da verdade ou dogm\u00e1ticos, porque n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo com quem se vangloria do ineditismo de suas id\u00e9ias e imp\u00f5e aos outros sua maneira de pensar. O franc\u00eas, pelo menos, tenta reformular sua posi\u00e7\u00e3o e sempre te leva a refletir um pouco mais. Desta forma, se voc\u00ea deixar-se envolver pela sua abordagem, ser\u00e1 for\u00e7ado a se informar mais. Voc\u00ea \u00e9 impulsionado a ir em dire\u00e7\u00e3o a. O que nos remete obrigatoriamente a entrar em contato com o desconhecido. L\u00e1 se discute tudo. Essa \u00e9 a grande riqueza da Fran\u00e7a. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Nota-se, com facilidade, a exist\u00eancia de um ambiente prop\u00edcio ao livre debate, expresso numa orat\u00f3ria formal e educada, mas nem por isso linear, em que brota a for\u00e7a do pensamento franc\u00eas, tipicamente filos\u00f3fico, modulado pela sua experi\u00eancia de vida e temperado pelo vinho, componente fundamental para imergir num estado de tranq\u00fcila reflex\u00e3o, e, se for o caso, sabedoria.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Agora, devido ao car\u00e1ter solene, gostaria de levantar uma quest\u00e3o de ordem para os meus nobres colegas. Ou melhor, quest\u00e3o de \u00e9tica. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Ap\u00f3s assistir ao espet\u00e1culo de bal\u00e9 de Maurice B\u00e9jart, nada melhor do que o singelo card\u00e1pio do restaurante L\u2019Entrec\u00f4te: fil\u00e9 mignon, batata rostie e profiteroles. Menu simpl\u00e9simo que n\u00e3o afugentou a imensa fila, o que me obrigou a escapar do tempo lendo \u201cLe Savoir-Faire de L\u2019Amour\u201d &#8211; li\u00e7\u00f5es, confiss\u00f5es, testemunhos de como fazer amor, bem.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Por\u00e9m, nem tudo na Fran\u00e7a \u00e9 gentileza. L\u2019Entrec\u00f4te faz o g\u00eanero de restaurante que amontoa mesas. Me acomodaram numa mesa, cujo \u00fanico \u00e2ngulo de vis\u00e3o convergia para duas mulheres, tal como se eu estivesse em sua companhia. E estava: eram brasileiras a comentar sobre prefer\u00eancias sexuais. Assunto de meu inteiro dom\u00ednio, gra\u00e7as ao tempo dedicado \u00e0 leitura na fila. Come\u00e7ando a me sentir inserido naquela orgia, pensei em confessar ser patr\u00edcio. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">(\u00canfase) Por uma quest\u00e3o de \u00e9tica. No que hesitei al\u00e9m da conta, perdi a chance de p\u00f4r em fuga um falso pudor. (Constata\u00e7\u00e3o) Logo eu que condeno a hipocrisia.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Elas eram secret\u00e1rias e moravam em Paris. A loura segreda \u00e0 morena que o executivo de multinacional, o diretor de seu departamento, \u00e9 chegado \u00e0 passividade, necessitando ser estimulado \u00e0 custa de expedientes criativos. (Sarc\u00e1stico) A fim de que reaja. A morena babou de gosto. Eu suei frio &#8211; pren\u00fancio de diarr\u00e9ia &#8211; quando ouvi mencionar que ele \u00e9 o marido de algu\u00e9m por quem tenho muita admira\u00e7\u00e3o e carinho.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Minha amiga jamais poderia imaginar que o seu marido fosse capaz de ter uma amante em Paris, pois disfar\u00e7ava bem essa sua categoria de broxura, digamos assim. Sobretudo porque primava pela imagem de alto dirigente bem-sucedido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">O que devo fazer? Calar e ser conivente com a hipocrisia? E no caso de eu abrir o bico, digo que ele \u00e9 passivo e quem come s\u00e3o as mulheres, ou \u00e9 prefer\u00edvel me deter no lugar-comum do marido que trai a mulher? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">Quest\u00e3o de \u00e9tica. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Conivente com hipocrisia, hein&#8230; Toda vez que me deparo com um casal que vive, ainda, sob o \u00eaxtase do amor, cercado de filhos, sopram-me nos ouvidos um pren\u00fancio de insatisfa\u00e7\u00f5es. Por ora, deixemos de lado a minha inveja. Por que, ao casar e construir sua ninhada, a f\u00eamea investe-se no corpo e mente de m\u00e3e, fazendo desaparecer uma imagem de que nem parece que ultrapassou o abismo que a distanciou de suas av\u00f3s e bisav\u00f3s, ao vencer a passividade, a acomoda\u00e7\u00e3o e a subservi\u00eancia? Talvez porque a responsabilidade de ser m\u00e3e e ater-se a hor\u00e1rios e a novas regras de conduta atraiam o conservadorismo, al\u00e9m dos filhos alargarem a sua forma. Insinuar que a mulher s\u00f3 pensa em casar para ingressar nesse Mar da Tranq\u00fcilidade tamb\u00e9m me parece uma solerte provoca\u00e7\u00e3o, de car\u00e1ter machista. T\u00e1 bem, vamos nos acasalar, mas n\u00e3o precisa atarraxar aquela m\u00e1scara de mulher s\u00e9ria que finalmente acertou o seu passo.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Se bem que o homem tamb\u00e9m pode entrar numa de se enquadrar na rotina do amor, incomodado com os decib\u00e9is do vozerio nos bares, a exigir um sal\u00e3o exclusivo para dan\u00e7ar com sua amada, deixando escoar pelo ralo sua capacidade de inventar e surpreender.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">(Pausa) <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Pelo mesmo v\u00e3o por onde se esgueira a cumplicidade a dois, introduz-se o bocejo que anuncia o t\u00e9dio. Como se estivesse escrito h\u00e1 mil\u00eanios, por seus ancestrais, que o matrim\u00f4nio constitui a grande chance do homem redimir a imagem de cafajeste que lhe \u00e9 atribu\u00edda, por ter de comer uma infinidade de mulheres, para provar \u00e0 sua m\u00e3e e \u00e0 sociedade que (Enf\u00e1tico) sempre ser\u00e1 homem.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Ser\u00e1 que, para provar que estamos amando, devemos nos tornar enciumados, possessivos, fechados, at\u00e9 mesmo agressivos, refletindo uma mudan\u00e7a violenta de comportamento? (Caso do casal que namorava virando as costas para a festa). <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">(Conclus\u00e3o) Sinceramente, pensei que o amor fosse para nos deixar vibrando e tirar a cera do ouvido para compreender melhor (Pausadamente) \u201ctudo que meu amor quer dizer pra mim\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Voc\u00ea \u00e9 muito rom\u00e2ntico, do tempo de \u201cPaz e amor, bicho!\u201d. Que inoc\u00eancia besta querer revidar uma agress\u00e3o com uma flor. Ser\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 vendo que o homem e a mulher complicaram tudo?<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Pensativo) A \u201crotina do amor\u201d sempre foi um assunto que me causou ins\u00f4nia. Afinal de contas, \u00e9 imposs\u00edvel pregar o sono se voc\u00ea dorme ao lado de algu\u00e9m que n\u00e3o quer mais. Hum, como ser\u00e1 que os franceses se aproximam e se relacionam afetivamente aqui em Paris? \u201cQual\u00e9\u201d o dessa gente que l\u00ea muito, vive para comer sem engordar, torpedeada por perfumes e cosm\u00e9ticos que nos instigam a desvendar o seu mist\u00e9rio? Resolvi sair conversando com madames, mademoiselles, estudantes, pessoal de turismo, da embaixada, do curso, estagi\u00e1rios, tecnocratas, chofer de t\u00e1xi, recepcionistas de hotel&#8230; e at\u00e9 com brasileiros! <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">E sem essa de preservar intimidade e privacidade. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a pesquisa foi realizada sem qualquer experi\u00eancia de campo, absolutamente despida de sexo.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Para se aproximar (Diminui a velocidade) h\u00e1 que obedecer um ritual. Primeiramente, \u00e9 necess\u00e1rio jantar a fim de conversar sobre assuntos gerais; para o franc\u00eas, a negocia\u00e7\u00e3o tem passagem obrigat\u00f3ria pelos queijos e vinhos, cuidando-se para que o entendimento n\u00e3o capote na trivialidade e na superficialidade. No pr\u00f3ximo encontro, se ela assim desejar, convida-o para um drinque na casa (\u00canfase) <span style=\"text-decoration: underline;\">dela<\/span>, porque (\u00canfase) <span style=\"text-decoration: underline;\">a sua<\/span> n\u00e3o merece confian\u00e7a, (\u00canfase) <span style=\"text-decoration: underline;\">ainda<\/span>. Voc\u00ea est\u00e1 na sua mira de observa\u00e7\u00f5es (Diminui a velocidade) e o tempo passa, passa, passa&#8230; Ah, \u00e9 demorado demais! Muito chato&#8230; existir um ritual. Se bem que no Brasil tamb\u00e9m exista mulher especialista em deixar o pobre coitado mofando. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; De fato existe, mas se brincar muito acaba perdendo a vez para outra. No frigir dos ovos, \u00e9 besteira confundir com promiscuidade sexual. H\u00e1 quem indague, provocativamente, se no Brasil j\u00e1 est\u00e1 convencionado que \u00e9 para acontecer no mesmo dia da atra\u00e7\u00e3o fatal. Depende do momento, da vontade, de seus desejos \u00e0 flor da pele, (Sarcasmo) da cabe\u00e7a fresca&#8230; do que est\u00e1 pintando. Se os dois est\u00e3o no barato da colis\u00e3o, deixa rolar. Por acaso, o franc\u00eas l\u00e1 vai entender esse jogo de sedu\u00e7\u00e3o? Nem eu entendo! Eu sinto.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Reconhe\u00e7o que \u00e9 importante um jogo de cena delicado, gestos graciosos, uma certa eleg\u00e2ncia, at\u00e9 uns salamaleques. O interesse pressup\u00f5e o ritual. Ainda mais que s\u00e3o acess\u00edveis e f\u00e1ceis de se aproximar, sem sombra de d\u00favida. Adoram papear, momento em que demonstram, para todos os gostos, seu charme, eleg\u00e2ncia e classe, preservados pela timidez. Ah, como \u00e9 gostoso v\u00ea-las miando, fazendo biquinho, cheias de mimo! E quando jogam os cabelos para o alto e sorriem gostosamente?! S\u00e3o atraentes e envolventes, sem serem despudoradamente provocantes, mesmo se decidem nos encarar fundo. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Por\u00e9m, quando voc\u00ea t\u00e1 a fim, sem essa, \u00f4 cara! Isso \u00e9 coisa s\u00e9ria. O sangue come\u00e7a a subir e aquela veia que todos conhecem fica protuberante. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Que \u00e9 isso, n\u00e3o engrossa, elas interpretariam como ato de selvageria enquanto (M\u00e3o no peito) n\u00f3s achamos que elas n\u00e3o t\u00eam jogo de cintura. Se tentar cair nessa besteira, tudo piora, ela ir\u00e1 mant\u00ea-lo \u00e0 dist\u00e2ncia como se voc\u00ea tivesse sido mordido por um c\u00e3o raivoso. (Olhando firme para o 35 ANOS) Elas s\u00e3o ex\u00edmias em provocar paix\u00f5es, incitam o orgulho da conquista, s\u00e3o ca\u00e7adoras que se fingem de presas.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Eita! Fala baixo porque tem mulher ouvindo. Voc\u00ea viajou apaixonado, com pavor de ficar \u00e0 merc\u00ea de sentir a falta dela, prometendo escrever cartas e mais cartas. Que ir\u00e3o pensar de n\u00f3s homens, se ela lhe ensinou a n\u00e3o mais mentir para si mesmo? <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Indignado) O amor tem ritual, viu? Aqui na Fran\u00e7a, tem de seguir os canais competentes. Afinal de contas, como todo franc\u00eas, ela tamb\u00e9m \u00e9 burocr\u00e1tica. Para chegar no seu \u00e2mago, tem de dar muita volta, pois a francesa \u00e9 in-ten-ci-o-nalmente indecisa, (\u00canfase) no amor. O \u201cjeitinho\u201d n\u00e3o funciona com elas. S\u00e3o muito desconfiadas e t\u00eam medo. Embora amem transparecer seguran\u00e7a. Lutam bravamente para que o instinto sexual n\u00e3o afunde a raz\u00e3o. Um homem n\u00e3o penetra em sua intimidade sem que ela n\u00e3o tenha escolhido o lugar que lhe \u00e9 reservado. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; No Brasil j\u00e1 \u00e9 assim tamb\u00e9m, nunca sei qual \u00e9 o papel que devo protagonizar. Se o contumaz sedutor, o sol\u00edcito ou o misterioso. As brasileiras preferem o desafio, o perigo iminente e a sensa\u00e7\u00e3o do risco. O Terceiro Mundo n\u00e3o tem nada a perder, n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o? \u00c9 o nosso ritual. Parece que foi Balzac quem afirmou que mesmo as mulheres menos ardilosas t\u00eam armadilhas infinitas. Mulheres est\u00fapidas vencem pela pouca desconfian\u00e7a que despertam.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Triste) Acabo de receber uma carta que me pegou de surpresa. (Mais triste) Ela me deixou, entregue \u00e0 minha pr\u00f3pria sorte. Ser\u00e1 que ela n\u00e3o ag\u00fcentou ler minhas compulsivas cartas, ou melhor, n\u00e3o ag\u00fcentou me ouvir? Acho que toquei em assunto que n\u00e3o podia mexer. Mas se ao amar, a gente n\u00e3o puder falar demais, vai falar quando? Agora sim, sinto-me mais engajado nas desditas amorosas, simplesmente porque fui dispensado por carta, modalidade essa cujo sabor desconhecia. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Inconformado, decidi p\u00f4r as coisas em pratos limpos. Telefonei para o Brasil e uma voz masculina informou-me da aus\u00eancia dela nos pr\u00f3ximos vinte dias. Voz do filho adolescente, que virou homem em curto espa\u00e7o de tempo; preferiria que a filha fosse a porta-voz, pois, numa fra\u00e7\u00e3o de segundos como essa, (Anuncia em voz alta) som de macho perturba, irrita e d\u00e1 vontade de pedir asilo num pa\u00eds de ideologia machista. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; A dor da separa\u00e7\u00e3o foi curtida em meio \u00e0 massa que lotava o pitoresco mercado de Marrakech, esgueirando-me por entre os encantadores de serpente, ao longo de becos que mal davam para passar, obstru\u00eddos por burricos que apreciavam as mercadorias sem nada comprar, defecando e urinando despudoradamente. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Depois de me oferecerem tapetes, potes de lat\u00e3o e adere\u00e7os de couro, preferi abandonar o estranho traje de estrangeiro, assimilando o car\u00e1ter e a cultura \u00e1rabe ao comprar e vestir uma t\u00fanica de tuaregue. Imediatamente, todas as portas se abriram e passei a privar da intimidade do recinto do lar a qual normalmente n\u00e3o d\u00e3o acesso a estranhos, entrando em contato com suas esposas, filhos e agregados. Em suma, botei os p\u00e9s na cozinha, santu\u00e1rio de qualquer lar. Foi-me oferecido um reconfortante ch\u00e1 e as iguarias t\u00edpicas que tanto admiramos.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Solene) \u00c9 hora de guardar a bandeira preta, faz-se necess\u00e1rio deter a tristeza do luto que descompromissa o amor. Sem nada ter sido comentado ou perguntado, a profundidade do olhar \u00e1rabe detectou em mim a origem, o perfil (Gesticula) e o porte do sheik que vos fala, \u00e0 altura da ninfeta de 14 anos que queriam me ofertar. Em troca de um dote, evidentemente. Pronta para ser remetida ao Brasil, livre de impostos. No que alcei os olhos e deparei-me com Fatima, dissipei a dor de ter sido jogado fora. (Em tom conclusivo) A dor \u00e9 passageira, s\u00f3 permanece se voc\u00ea deixar. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Fatima estava sentada \u00e0 minha frente, atr\u00e1s de um v\u00e9u a cobrir o rosto, desnudando apenas o amarelo de olhos insinuantes e sequiosos de serem encantados por um feiticeiro de outras paragens. A tonalidade do v\u00e9u era id\u00eantica \u00e0 de suas vestes, de cor prateada com listas verdes em diagonal, purpurinadas. Traje de gala digno da relev\u00e2ncia da oferta. (M\u00e3o no peito) Confesso minha sedu\u00e7\u00e3o pela ninfeta, bem como pelo inusitado da proposta. Senti-me desafiado a quebrar a melancolia que ela herdou de outras gera\u00e7\u00f5es, cujas tradi\u00e7\u00f5es aprisionam o ser humano. Quem haveria de dizer, se consumado o acordo, que sairia de Marrakech j\u00e1 noivo? O que a minha fam\u00edlia e amigos iriam pensar de mim? <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; A censura interna impediu-me e cassou mais uma das in\u00fameras possibilidades de prazer e felicidade que riscam nossa vis\u00e3o (Pausa) morosa. Sem sequer ousar um derradeiro olhar para tr\u00e1s, saltei num tapete m\u00e1gico que me levou \u00e0 inesquec\u00edvel Casablanca de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Ao som de As time goes by.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; (Ar de surpresa) Eis que uma delgada m\u00e3o pousa no meu ombro. Tremo todo. Precisava daquela m\u00e3o. Gra\u00e7as \u00e0 car\u00eancia afetiva, come\u00e7amos a dividir problemas \u00edntimos, sabe-se l\u00e1 Deus por qu\u00ea. Ela abriu portas e gavetas de (\u00canfase) <span style=\"text-decoration: underline;\">seu<\/span> passado. Na maturidade de seus cinq\u00fcenta anos, ela sabia ouvir e se fazer ouvida &#8211; rara qualidade hoje em dia &#8211; absorvendo meu modo de pensar e encarar o desconhecido. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Conclus\u00e3o) As mulheres, no Brasil, costumam se queixar muito dos privil\u00e9gios que os homens ainda t\u00eam, sendo-lhes f\u00e1cil arrumar uma enfermeira para desentubar e remov\u00ea-lo do CTI do amor, sedando-o de forma a apagar os vest\u00edgios (Raiva) daquela miser\u00e1vel que desgra\u00e7ou sua vida.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Para se molhar os p\u00e9s nas praias de Casablanca, h\u00e1 que se percorrer uma vasta extens\u00e3o de areia, como se estiv\u00e9ssemos atravessando o deserto atr\u00e1s de uma miragem. Foi l\u00e1 que ela se aproximou de mim, (Gesto) fingindo que tirava areia de meu bra\u00e7o, penetrando-me fundo. Nos meus olhos. A me conquistar. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">O que provocou alarido de uma turba de quinze \u00e1rabes a reclamar das cenas de id\u00edlio, proibidas perante as leis do Alcor\u00e3o, por ser interditado \u00e0s mulheres demonstrar seus sentimentos ao ar livre. Orientei-a para sair de fininho em dire\u00e7\u00e3o ao hotel, enquanto eu enfrentava o bando de homens (Sarcasmo) indignados pela imoralidade que tomou conta do balne\u00e1rio. Em franc\u00eas, tentei explicar que era brasileiro, de cultura distinta, e que simplesmente me esqueci dos sagrados mandamentos. Tr\u00eamulo de caga\u00e7o, pedi mil perd\u00f5es por ter profanado o Alcor\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; O cintilar de um punhal afiado na m\u00e3o de um deles fez-me recuperar a coragem. Troquei de idioma e profanei a m\u00e3e deles em portugu\u00eas, iniciando um bailado no ritmo de capoeira (35 ANOS dan\u00e7a capoeira), como eu se fosse enfrent\u00e1-los. Ante seus rostos estupefatos, evolu\u00ed tal como faria o cangaceiro Corisco tomado pelo Diabo, dando rodopios como se tivesse uma peixeira nas m\u00e3os a furar o bucho dos soldados da For\u00e7a P\u00fablica (35 ANOS rodopia). <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Valha-me Deus! Nossa Senhora! No que abriu um clar\u00e3o, fugi correndo, sem acreditar que escapei com vida. Os efeitos especiais do espet\u00e1culo tanto impressionaram Al\u00e1, que Ele deteve a m\u00e3o de quem queria apunhalar. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Isso me fez lembrar o p\u00e2nico europeu em transbordar afeto e carinho quando me despedi da Tchecoslov\u00e1quia. No famoso Caf\u00e9 Europa, cujo cen\u00e1rio, fiel ao velho estilo decadente europeu, regurgitava de aut\u00eanticos protagonistas da vida noturna de Praga. No seu efervescente entra-e-sai, removiam o disfarce da crueza do comunismo e se livravam do torpor e acomoda\u00e7\u00e3o em que se encontravam. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Ao me despedir de meu anfitri\u00e3o, guia e amigo Stanislav, fiz men\u00e7\u00e3o de beij\u00e1-lo no rosto, como demonstra\u00e7\u00e3o de carinho e amizade por tudo que tinha feito por mim na Tchecoslov\u00e1quia. H\u00e1bito normal at\u00e9 entre os \u00e1rabes, que se beijam nas duas faces, ou mesmo entre os homens de origem eslava, que se cumprimentam com um toque suave dos l\u00e1bios, (Goza\u00e7\u00e3o) sem que a perigosa l\u00edngua interfira no assunto. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Stanislav sentiu vergonha de beijar-me, na frente de todos. Deve achar que um homem de verdade n\u00e3o pode se dar ao luxo de sucumbir diante de tais fraquezas &#8211; debilidade emocional t\u00edpica de latino. T\u00e3o achincalhado por ele, que nos avacalha, n\u00e3o entendendo porque necessitamos tanto de caudilhos na Am\u00e9rica Latina para dirigir nossos destinos. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">Stan deixou-me beijar sua face, com muitas reservas, o que me surpreendeu, pois fora ele que havia indicado o Caf\u00e9 Europa, point da vanguarda tcheca. Apesar do constrangimento, n\u00e3o cairia bem rejeitar meu beijo para n\u00e3o parecer antiquado. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; Para manter aquela compostura, eu diria postura &#8211; ou seria frieza europ\u00e9ia? &#8211; vivia neuroticamente, tenso e com medo do futuro. Comunista convicto, receava que a cortina protetora do socialismo desabasse. Ele estava se encaminhando para se isolar, bem protegido dentro do seu individualismo, levantando as paredes do mundo que estava construindo para se encarcerar, face ao temor de n\u00e3o querer sofrer outras decep\u00e7\u00f5es. Especialmente as amorosas, na condi\u00e7\u00e3o de passivo amante de uma mulher casada. Beco sem sa\u00edda. Desafogado por tiques nervosos e manifesta\u00e7\u00f5es, ora de afeto, quando me fez entrar e assistir \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o exclusiva da \u00f3pera La Boh\u00e9me no Teatro Nacional de Praga, ora de retraimento e dist\u00e2ncia, como durante o adeus no Caf\u00e9.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">\u00c9 at\u00e9 f\u00e1cil burlar a indisfar\u00e7\u00e1vel crueza do comunismo; dif\u00edcil \u00e9 quebrar a frieza europ\u00e9ia, que tenta dissimular um indisfar\u00e7\u00e1vel pavor de que afeto e carinho possam (\u00canfase) <span style=\"text-decoration: underline;\">transtornar<\/span> sua vida. (\u00canfase) E transform\u00e1-la.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Sabe como eu vislumbro o futuro de minha gera\u00e7\u00e3o? Ex\u00edmios jogadores de p\u00f4quer embaralhando nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico, garotos superdotados nos reprogramando, m\u00e9dicos preferindo a clonagem no lugar da incis\u00e3o. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 hora de pensar em substituir-nos por andr\u00f3ides? Talvez a mistura entre as ra\u00e7as seja a \u00faltima chance de o ser humano provar a si mesmo que n\u00e3o merece ter destino igual ao dos dinossauros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Impaciente) J\u00e1 estou farto de conviver com as multivariadas revolu\u00e7\u00f5es de costumes, em todas as vidas por que passei. (Indignado) Ora sendo queimado pelo tribunal inquisitorial. Ora a intoler\u00e2ncia religiosa obrigando-me a fugir para a Am\u00e9rica, a fim de construir (Deboche) aquela sociedade livre e justa. Ora indo para o calabou\u00e7o, no per\u00edodo vitoriano, por defender os direitos da ad\u00faltera e do homossexual.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; Tem que haver alguma l\u00f3gica na evolu\u00e7\u00e3o do homem, mas n\u00e3o consigo encontrar nexo em tantas transforma\u00e7\u00f5es nas estruturas das sociedades. Perdemos contato com o selvagem da natureza em que se podia gozar a liberdade do sexo e do prazer, sem se preocupar com atentado ao pudor. No reino dos fara\u00f3s, n\u00e3o havia tabus impedindo as rela\u00e7\u00f5es entre os consang\u00fc\u00edneos. Nas civiliza\u00e7\u00f5es greco-romanas, os jovens eram iniciados sexualmente pelos senadores e retribu\u00edam a li\u00e7\u00e3o saciando-lhes a fome, enquanto os escravos satisfaziam as fantasias sexuais das mulheres dos tribunos. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; (Indignado) J\u00e1 estou farto de estudar, rezar e praticar as in\u00fameras filosofias que sustentam as religi\u00f5es, baseadas na premissa de que (Batendo no peito) A verdade est\u00e1 \u00e9 comigo!. Ilustradas por profetas, ap\u00f3stolos, <\/span><a name=\"PVW\"><\/a><span style=\"font-family: Arial;\">dalai-lamas<\/span><span style=\"font-family: Arial;\"> e pastores que nos proporcionam a correta interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos que cercam o Divino. (An\u00fancio) <span style=\"text-decoration: underline;\">O Messias est\u00e1 por vir!.<\/span> Que absurdo! J\u00e1 foi crucificado!. At\u00e9 hoje Maom\u00e9 decide sobre como a mulher deve pensar e agir. E mesmo Buda tendo provado que sobreviveria apenas com o que a natureza lhe ofertava, n\u00e3o consigo me imaginar reencarnado em inseto, vegetal ou mineral.<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">35 ANOS &#8211; (Indignado) J\u00e1 estou farto de guerras, pestes e de testes nucleares em at\u00f3is no Pac\u00edfico. <\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS &#8211; A caminho da extin\u00e7\u00e3o ou em processo de acultura\u00e7\u00e3o a credos, etnias e formas de viver execrados no passado, o ser humano n\u00e3o pode correr o risco de se perder em seu pr\u00f3prio planeta. Ainda mais que o amor j\u00e1 cambaleia ao sabor desse impasse, por se recusar a ser um instrumento de domina\u00e7\u00e3o. O amor agita os bra\u00e7os nervosamente, que nem um rec\u00e9m-nascido, reclamando para que o vejam e o reconhe\u00e7am.(Pausa) Ele n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. (Pausa) Nem eu. (Olhando para a plat\u00e9ia) Nem n\u00f3s. O que nos ensinaram j\u00e1 n\u00e3o faz parte de nosso meio. (Contar 1, 2, 3)<\/span><\/p>\n<p class=\"Corpo\"><span style=\"font-family: Arial;\">50 ANOS E 35 ANOS &#8211; \u00c9 preciso ter coragem para achar esse amor dentro de n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial;\"><strong>FIM<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>APRESENTA\u00c7\u00c3O A pe\u00e7a Lirismo e Trucul\u00eancia no Amor foi extra\u00edda do livro Lirismo e Trucul\u00eancia, produto de cartas que enviei aos colegas de trabalho, quando cursava bolsa de estudos em Paris, na d\u00e9cada de 80. Cartas sem inten\u00e7\u00e3o de compor um livro, em estilo psicogr\u00e1fico, o que equivale dizer sem o tac\u00e3o da censura interna. 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