﻿{"id":2932,"date":"2008-08-22T00:00:14","date_gmt":"2008-08-22T18:50:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldugaio.com\/index.php\/i-o-processo-de-criacao-literaria\/"},"modified":"2014-12-24T17:59:16","modified_gmt":"2014-12-24T17:59:16","slug":"i-o-processo-de-criacao-literaria","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/i-o-processo-de-criacao-literaria\/","title":{"rendered":"I-)O PROCESSO DE CRIA\u00c7\u00c3O LITER\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><h3 style=\"text-align: center;\"><b>(Palestra)<\/b><\/h3>\n<p>Mesa-redonda no Festival de Inverno de Santa Teresa\/RJ, em agosto de 1997, no Centro Cultural Laurinda Lobo<\/p>\n<p>Para o escritor, cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o despudor montado na incoer\u00eancia que delira em busca dos limites estreitos do formato do papel para ali pousar e depositar suas larvas, de onde brotar\u00e3o novas lib\u00e9lulas a seduzir outros colecionadores. Da\u00ed ver-me compelido a confessar o v\u00edcio que ulcera minha mente todo santo dia: o de curvar-me diante do papel, em postura de rever\u00eancia, como que reconhecendo a gra\u00e7a que me concede em espelhar os estranhos contornos da alma humana.<br \/>\nPara guiar minhas m\u00e3os na biopse da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria inspirei-me no livro A D\u00favida, do escritor e cineasta italiano Luciano de Crescenzo. Sabem por qu\u00ea? Porque ele resolveu me chamar a aten\u00e7\u00e3o do alto da prateleira de um sebo, justamente quando iniciava a pensar sobre a estonteante acelera\u00e7\u00e3o dos efeitos da universalidade sobre o indiv\u00edduo. O \u201cpsiu, psiu\u201d do Luciano confirmou-me que coincid\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o acidentais, na verdade se subordinam \u00e0 necessidade imperiosa de cruzarmos uns com os outros para nos ajudar a encontrar o que tanto buscamos ou, ao menos, um pouco de paz e abrigo face ao inclemente bombardeio existencial do dia-a-dia. Sempre \u00e0 espreita de n\u00f3s, pronto a morder nossos calcanhares, bastando despertar do sono e olhar no espelho para reconhecer que ele est\u00e1 ali presente. Da\u00ed os povos ind\u00edgenas terem ficado vidrados com o espelho ao se aperceberem do esp\u00edrito da sombra que se esgueira do virtual a invadir o convexo, enquanto o homem \u201ccivilizado\u201d ainda se debate na redoma de c\u00edrculos conc\u00eantricos que se formou no lago onde Narciso veio a morrer afogado quando se apaixonou pela sua pr\u00f3pria imagem refletida.<br \/>\nBem, em se tratando de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 natural que cometamos atos falhos. Mas qual deles? O poder da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ao inv\u00e9s de mencionar o processo da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 que poder nos remete a Deus, embora Deus tenha sido dado como morto em bomb\u00e1stica manchete na revista Times nos anos hippies de 1968. Contudo, quando sequer eu pensava em nascer quanto mais criar, j\u00e1 haviam cumprido sua miss\u00e3o na vida Reich, Ghandi, Freud, Chaplin, Dostoievski, Marx, Beethoven, o Quilombo dos Palmares, Cervantes, Shakespeare, As Mil e Uma Noites, S\u00f3crates e a civiliza\u00e7\u00e3o grega, a Mulher &#8211; rec\u00e9m-curada da afasia imposta pela tradi\u00e7\u00e3o milenar civilizat\u00f3ria -, a China de ontem, hoje e sempre, a Pr\u00e9-hist\u00f3ria, as eras paleontol\u00f3gicas, o big-bang e&#8230; e o que vem depois, hein? O que me vem \u00e0 mente \u00e9 \u201cDeus\u201d. \u00c9 irritantemente \u00f3bvio e relaxante esse tal \u00f3pio do povo, n\u00e3o? Contudo, acomoda\u00e7\u00e3o n\u00e3o combina com cria\u00e7\u00e3o. E o que Deus fazia antes de criar o C\u00e9u e o Inferno? \u00c9 esta a d\u00favida existencial que nos apunhala, martela nossa cabe\u00e7a e nos deixa insones, gerando o clima prop\u00edcio para&#8230; imaginar e ter id\u00e9ias.<br \/>\nLuciano de Crescenzo afirma em A D\u00favida que \u201co ponto de interroga\u00e7\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo do Bem, enquanto o de exclama\u00e7\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo do Mal\u201d. Avisa para tomarmos cuidado com a F\u00e9 porque se usada com muita freq\u00fc\u00eancia &#8211; como na religi\u00e3o, esporte e pol\u00edtica &#8211; pode se transformar em viol\u00eancia; a D\u00favida, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma divindade discreta que exp\u00f5e suas id\u00e9ias com calma e est\u00e1 pronta a mud\u00e1-las radicalmente assim que algu\u00e9m lhe demonstre que est\u00e1 errado. D\u00favida, Deus, Diabo, Dogma, todos esses conceitos come\u00e7am com a letra D. De Crescenzo prefere viver duvidando a arquivar Deus como um dado adquirido; por isso proclama que est\u00e1 mais em companhia de Deus do que um cat\u00f3lico praticante, sendo poss\u00edvel viver sem certeza quando se \u00e9 capaz de esperar.<br \/>\nA simbologia da d\u00favida e ponto de interroga\u00e7\u00e3o ressoaram dentro de mim porque no meu livro Lirismo e Trucul\u00eancia, que revela experi\u00eancias e reflex\u00f5es de um viajante que procurou desvendar a intimidade dos povos que conheceu, declaro que seguirei fiel ao estilo de me esconder atr\u00e1s dos pontos de interroga\u00e7\u00e3o, por temer o veneno que certas express\u00f5es ou formas de pensamento destilam. Nada como a interroga\u00e7\u00e3o, atributo da d\u00favida, montada num ve\u00edculo automotor, a nos querer atropelar, para a gente levantar o rabo e partir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que ainda n\u00e3o foi realizado.<br \/>\nDe Crescenzo observa tamb\u00e9m que o conceito de tempo \u00e9 t\u00e3o impreciso quanto o conceito de Deus. Viver 80 anos, \u00e0s vezes, \u00e9 pouco para fazer tudo que voc\u00ea gostaria; para outros, pode parecer in-ter-mi-n\u00e1-vel. A pretens\u00e3o de entender o tempo \u00e9 de uma presun\u00e7\u00e3o sobre-humana: um pouco como a pretens\u00e3o de querer entender Deus. O que o leva \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o que fascina os grandes pensadores: \u00e9 o Acaso ou o Destino que governa o mundo?<br \/>\nNo Lirismo e Trucul\u00eancia elejo o deus Imprevisto para aben\u00e7oar meus atos e falhas ao abrir a jaula e fazer tudo que acreditava estar bem guardado na gaveta, pautado na premissa de que, como o futuro ainda n\u00e3o existe, cabe nele qualquer possibilidade, mesmo a mais remota ou exc\u00eantrica. A vida n\u00e3o abre a guarda para desfrutarmos uma forma de ser est\u00e1vel. Somos regidos pela batuta do imprevisto, mesmo porque o que o Destino nos tra\u00e7ou h\u00e1 seis mil anos, j\u00e1 esquecemos ao matarmos a nossa sede nas \u00e1guas do rio Lete, o rio do esquecimento. Apagando o que vem antes s\u00f3 podemos devanear sobre o que vem depois. Quanto mais se aceita os imprevistos, menos se sente os seus efeitos desastrosos; a sabedoria da resigna\u00e7\u00e3o abafa a destrutibilidade da revolta, com golpes suaves e certeiros. Portanto, curvemo-nos diante dessa divindade!<br \/>\nAntes que De Crescenzo e eu arrolemos mais d\u00favidas sobre a d\u00favida para falar de cria\u00e7\u00e3o, vou particularizar a quest\u00e3o reportando-me ao meu tempo de inf\u00e2ncia.<br \/>\nComecei escrevendo e dirigindo pe\u00e7as de teatro com primos e amiguinhos para a fam\u00edlia ver que n\u00f3s \u00e9ramos uma gracinha. Entediado com o serm\u00e3o do padre cat\u00f3lico, preferi conversar sobre outras quest\u00f5es com o amigo de f\u00e9, o que me custou a expuls\u00e3o da igreja e o rompimento com a orienta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 materna. No que descobri a reencarna\u00e7\u00e3o, abalando minhas refer\u00eancias de tempo e espa\u00e7o, rompi com a figura paterna, que me deu livros esp\u00edritas ao inv\u00e9s de di\u00e1logo. Tornei-me ateu ao ler Porque n\u00e3o sou crist\u00e3o, de Bertrand Russell. No apogeu do desvario e auto-sufici\u00eancia que caracteriza a fase da adolesc\u00eancia, principiei a gozar da intimidade com os deuses da mitologia grega, gra\u00e7as ao prazer da promiscuidade entre poder ser deus e ser humano, quando vi-me exclu\u00eddo do processo criativo por longos 20 anos, devido a graves problemas que abriram fendas irrepar\u00e1veis na estrutura familiar.<br \/>\nO processo de cria\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi retomado ap\u00f3s a morte de meus pais, ao escrever Lirismo e Trucul\u00eancia, durante os quatro meses de uma viagem solit\u00e1ria, em torno de mim mesmo, quando percorri a Fran\u00e7a, coadjuvada por pa\u00edses ib\u00e9ricos, mu\u00e7ulmanos e comunistas. Neste momento come\u00e7aram a suceder coisas estranhas: ao escrever um cap\u00edtulo de 32 p\u00e1ginas, a ele se sobrep\u00f4s outro de igual tamanho, que tive de abandonar gra\u00e7as \u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o de termos nascido com uma cabe\u00e7a s\u00f3. Redigi outro cap\u00edtulo, longo e completo em quatro horas, de forma psicogr\u00e1fica, ap\u00f3s ter sabotado esta experi\u00eancia t\u00e3o espiritualizada ao evit\u00e1-la por tr\u00eas dias; desatino que nunca mais irei repetir. Este livro s\u00f3 foi mostrado para os amigos, guardado num ba\u00fa e reescrito em 1995.<br \/>\nDepois de escrever esse livro em 1984, ca\u00ed num v\u00e1cuo em meio a uma \u00e9poca de quebra de dogmas, cujo \u00e1pice foi a queda do Muro de Berlim. O que abriu espa\u00e7o para a evolu\u00e7\u00e3o da espiritualidade, esoterismo e misticismo, dada a necessidade do ser humano se vincular a uma religiosidade, querendo provar a si mesmo que \u00e9 parte integrante do cosmos.<br \/>\nEm 1990 procurei me disciplinar para escrever atrav\u00e9s de um micro, que, na verdade, ficou inoperante por dois anos. Em realidade, o que precisava ser operado era o de dentro para fora. Para espantar o marasmo e vencer a inseguran\u00e7a, me imbu\u00ed da coragem de expor meu mundo imagin\u00e1rio &#8211; que me causava medo &#8211; dando margem \u00e0 erup\u00e7\u00e3o de d\u00favidas e pontos de interroga\u00e7\u00e3o que forjaram minha cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Foi ent\u00e3o que passei pelas m\u00e3os de Luiz Carlos Maciel e Doc Comparato, oficinas liter\u00e1rias, e at\u00e9 de criatividade, para chegar em dois livros publicados, que me custaram desvio na coluna, alergias na pele, hiperatividade e ins\u00f4nia, al\u00e9m da ren\u00fancia \u00e0 vida social e boemia.<br \/>\nPara concluir, alcemos a tampa de nossas caixas-pretas e auscultemos o que ela tem a nos dizer. Um tanto sombrio. Criar tamb\u00e9m pode ser perigoso porque desfaz alguns n\u00f3dulos de ilus\u00e3o, o que leva a pensar que sua alma est\u00e1 empobrecendo, adentrando num n\u00edvel de consci\u00eancia demasiadamente realista, distante do l\u00fadico, do rid\u00edculo e do risco que delineia a paix\u00e3o. Na tentativa de enquadr\u00e1-lo numa sociedade que est\u00e1 banalizando o cotidiano e as rela\u00e7\u00f5es amorosas, onde at\u00e9 permitimos que o sublime se esvaia pelo ralo.<br \/>\nTodavia, n\u00e3o se deve projetar no cume a alegria que se instaura na subida, caso contr\u00e1rio os alpinistas prefeririam ser depositados diretamente nos topos das montanhas, atrav\u00e9s de helic\u00f3pteros.<br \/>\nAbandono-os com mais essa d\u00favida arremessada por Crescenzo: mas qual o prazer que existe em procurar e n\u00e3o encontrar?<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Palestra) Mesa-redonda no Festival de Inverno de Santa Teresa\/RJ, em agosto de 1997, no Centro Cultural Laurinda Lobo Para o escritor, cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o despudor montado na incoer\u00eancia que delira em busca dos limites estreitos do formato do papel para ali pousar e depositar suas larvas, de onde brotar\u00e3o novas lib\u00e9lulas a seduzir outros colecionadores. 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