﻿{"id":2933,"date":"2008-08-22T00:00:10","date_gmt":"2008-08-22T18:54:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldugaio.com\/index.php\/ii-utopia-do-amor-eterno\/"},"modified":"2014-12-24T18:05:06","modified_gmt":"2014-12-24T18:05:06","slug":"ii-utopia-do-amor-eterno","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/ii-utopia-do-amor-eterno\/","title":{"rendered":"II-)UTOPIA DO AMOR ETERNO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><h3 align=\"center\">\u00a0(<b>Palestra)<\/b><\/h3>\n<p>Debate extra\u00eddo de seu livro Ilus\u00e3o de \u00d3tica, no Projeto Paix\u00e3o de Ler, na Biblioteca Popular de Santa Teresa\/RJ, em outubro de 1997<\/p>\n<p>O tema do debate foi extra\u00eddo da tem\u00e1tica predominante no livro ILUS\u00c3O DE \u00d3TICA, onde h\u00e1 inclusive um conto com esse t\u00edtulo. Por que a escolha da Utopia do Amor Eterno para o debate?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, cabe esclarecer que iremos tratar aqui exclusivamente de amor. O que \u00e9 dif\u00edcil, porque a tend\u00eancia \u00e9 evocar a interfer\u00eancia de quest\u00f5es materiais para justificar o desamor e a descren\u00e7a no amor. Ou seja, eu desdenho voc\u00ea a tal ponto que voc\u00ea vai deixando de me amar e se recolhe na descren\u00e7a no amor. Portanto, proponho que desvinculemos o amor, ao menos neste debate, de diferen\u00e7as s\u00f3cio-econ\u00f4micas que cotejem o casal &#8211; diferen\u00e7a de ambi\u00e7\u00f5es -, do desemprego, da distribui\u00e7\u00e3o de renda, da separa\u00e7\u00e3o litigiosa, da guarda dos filhos, dos advogados. Deixemos tais assuntos para f\u00f3runs mais adequados como os da pol\u00edtica, da justi\u00e7a de fam\u00edlia, do sociolog\u00eas ou econom\u00eas, que analisariam a viabilidade do casamento no mundo globalizado.<\/p>\n<p>De que vamos falar afinal? De como homem e mulher se encontram e desencontram afetivamente no final do s\u00e9culo XX. A incapacidade de entrega ao amor. O medo de amar de novo. Ou descobrir que nunca amou e vai passar em branco na vida. Poder se enamorar sem se incomodar com o rid\u00edculo, por estar babando de admira\u00e7\u00e3o, sendo capaz de fazer tudo por ele (ela). Acreditar que o amor pode mudar tudo. Que isso n\u00e3o \u00e9 ilus\u00e3o de um idiota apaixonado.<br \/>\nProvemos aqui que n\u00e3o \u00e9 irreal tratar de amor, melhor dizendo, das rela\u00e7\u00f5es, mesmo havendo falta de grana. Afinal, como \u00e9 do conhecimento geral, os que vivem de sal\u00e1rio-m\u00ednimo tamb\u00e9m padecem dos males do amor ou podem ser imensamente felizes no seio de um casamento celebrado na Igreja Universal, conforme cotejo no conto A Brasa a mesma vontade de amar de verdade entre uma executiva e sua empregada crente.<br \/>\nBem, utopia do amor eterno. N\u00e3o farei nenhuma correla\u00e7\u00e3o do tema a quaisquer injun\u00e7\u00f5es de ordem religiosa, a exemplo do solene \u201cat\u00e9 que a morte nos separe\u201d que lapida o casamento crist\u00e3o. No meu modo de entender, \u00e9 mais genu\u00edno associar amor eterno a Romeu e Julieta, que nos faz dar suspiros que sufocam o cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. Eles se sacrificaram em nome de um amor que todos ambicionam viver.<br \/>\nEspera a\u00ed, mas isso \u00e9 lenda; lenda que se converteu em paradigma do amor. E nada como a arte shakesperiana, burlesca e popular, a impedir que se fechem os olhos para um sentimento que pode vir a desbaratar todos os seus planos, aniquilar suas certezas, atacar seus nervos e at\u00e9 obrigar a entregar os pontos, ainda em vida.<br \/>\nNo entanto, o s\u00e9culo XX descerrou o v\u00e9u da hipocrisia, franqueou a entrada da mulher na arena e baixou a testosterona do homem, cen\u00e1rio ideal para a pulveriza\u00e7\u00e3o da utopia do amor eterno.<br \/>\nCabe frisar que, como sou um escritor que navego por entre d\u00favidas e questionamentos, sem preocupa\u00e7\u00e3o em buscar verdades definitivas, me sinto \u00e0 vontade para lan\u00e7ar as seguintes provoca\u00e7\u00f5es: Os relacionamentos amorosos ainda est\u00e3o condicionados por este mito do amor eterno? Ser\u00e1 que l\u00e1 no nosso \u00edntimo, de uma forma inconsciente, ainda exigimos que o amor seja eterno? O inconsciente coletivo ainda nos exige que o casamento tem que dar certo, tem que se eternizar?<br \/>\nE como conciliar essa id\u00e9ia &#8211; antiga? &#8211; de amor eterno com a din\u00e2mica comportamental da modernidade que afeta a viv\u00eancia do amor? Tal como: o descarte f\u00e1cil do parceiro, o ef\u00eamero das rela\u00e7\u00f5es, o n\u00e3o-saber quem eu sou e quem tu \u00e9s porque n\u00e3o fomos educados para esse mundo, a falta de garantias que abre caminho para a instabilidade de n\u00e3o poder viver com outro ou n\u00e3o saber viver com outro.<br \/>\nSer\u00e1 que ser feliz \u00e9 ficar retido \u00e0 escravid\u00e3o do mito do amor eterno, ou seja, ter que viver junto ao lado dele (dela) para sempre? Ou \u00e9 sair em busca de um parceiro que complemente a outra metade da ma\u00e7\u00e3, concedendo-lhe a d\u00e1diva de se sentir inteiro?<br \/>\nBem, e para mim, como \u00e9 que tudo come\u00e7ou? Foi quando tinha 9 anos, ao assistir \u00e0 cena do meu pai indo embora de casa, separado de minha m\u00e3e. Dei gra\u00e7as a Deus por n\u00e3o precisar mais me esconder debaixo da coberta para n\u00e3o escutar aquelas brigas.<br \/>\nMinha m\u00e3e jamais viria a conhecer outro homem e eu, como filho, perdi a pureza de seu amor, apartando-me dela. Todavia, a tristeza foi sendo gradualmente suplantada pela curiosidade e fasc\u00ednio provocados por romances vivenciados por primas mais velhas. Fazia de tudo para testemunhar suas hist\u00f3rias. Me escondia atr\u00e1s do sof\u00e1, debaixo da mesa e em cima do telhado, a fim de ouvi-las trocar juras de amor. Cheguei a me enrolar numa cortina para que visse um beijo de causar escoliose, s\u00f3 compar\u00e1vel ao do Clark Gable e Vivien Leigh em \u201cE o vento levou\u201d.<br \/>\nMinhas primas tamb\u00e9m choravam, gritavam \u201cnunca mais quero ver a cara daquele homem na minha frente!\u201d. Dia seguinte, l\u00e1 estavam fazendo planos para se casarem.<br \/>\nEu n\u00e3o entendia patavina, mas confesso que aquela mise en sc\u00e8ne me seduzia, me arrebatava.<br \/>\nFoi a\u00ed que eu fiz a descoberta: \u201cSou obcecado pelo amor!\u201d<br \/>\nObcecado, cavei todas as chances que a vida me retribuiu para conhecer o amor. Mudei de dire\u00e7\u00e3o tantas vezes quanto necess\u00e1rio, ao sabor de diversas experi\u00eancias amorosas, desde o v\u00e9u e grinalda, passando por casas separadas, intercaladas de paix\u00f5es que demonstram os desatinos e desequil\u00edbrios a que qualquer um est\u00e1 sujeito, at\u00e9 descobrir o que realmente desejo.<br \/>\nA\u00ed me dei conta que s\u00f3 estava olhando para o meu umbigo. Notei que havia muita gente \u00e0 minha volta, ali\u00e1s muito mais do que eu pensava, andando \u00e0s cegas, ensurdecidas pelos celulares e walkman, e a falar sem parar para impedir que a voz de dentro aflore. Foi ent\u00e3o, num longo per\u00edodo de boemia, que passei a observar, geralmente pelas madrugadas, que as m\u00e1goas e queixumes amorosos transbordavam, inundando-me de hist\u00f3rias.<br \/>\nGuiado pela obsess\u00e3o, me impus a condi\u00e7\u00e3o de escrever hist\u00f3rias sobre encontros e desencontros, tendo sempre como foco o amor.<br \/>\nDe forma diferente de Diane Ackerman, que, em sua obra, \u201cUma hist\u00f3ria natural do amor\u201d, examina os aspectos culturais, biol\u00f3gicos, mitol\u00f3gicos e sociais da psicologia do amor, desde o Egito antigo, Gr\u00e9cia, Roma e Idade M\u00e9dia, discutindo id\u00e9ias de Plat\u00e3o, Freud, Proust e Stendhal.<br \/>\nSegundo Diane, Stendhal, em seu famoso livro \u201cDe l\u2019amour\u201d, atribu\u00edra a outros homens, personagens, aquilo que na verdade acontecera a ele, ao apaixonar-se perdidamente por Mathilde Viscontini, mulher que brincara com seus sentimentos e sequer compreendera o escritor. Ela n\u00e3o o rejeitava por completo; concedia-lhe apenas uma \u00fanica visita a cada duas semanas para manter vivas suas esperan\u00e7as. O dom\u00ednio que tinha sobre ele a excitava desmesuradamente. Ele chegou a escrever o romance \u201cM\u00e9tilde\u201d, um rol de s\u00faplicas a Mathilde, palavra por palavra; mas para o leitor comum, obra profunda, perspicaz e esclarecedora sobre o amor. Trata-se da hist\u00f3ria de amor n\u00e3o correspondido de um homem atormentado por uma mulher.<br \/>\nAo analisar sua paix\u00e3o, Stendhal tentava compreender a natureza do amor, de forma a poder libertar-se dos grilh\u00f5es e exorcizar os dem\u00f4nios que tanto nos atormentam. Considerava a paix\u00e3o um sentimento desafiador, rom\u00e2ntico e devorador que n\u00e3o precisa ser correspondido. Descreve a paix\u00e3o em est\u00e1gios. Primeiro, admira-se. Segundo, espera-se que o sentimento seja retribu\u00eddo. Quando a esperan\u00e7a combina-se \u00e0 admira\u00e7\u00e3o, o amor nasce.<br \/>\nDepois ocorre a \u201ccristaliza\u00e7\u00e3o\u201d(conceito fundamental de Stendhal), tend\u00eancia do apaixonado idealizar o ser amado, imaginando-o mais belo e nobre do que qualquer outro ser humano. Compara com o que acontece a um galho de \u00e1rvore seco atirado num po\u00e7o abandonado; quando \u00e9 retirado 3 meses depois, encontram-no revestido de brilhantes cristais de sal, enquanto o ramo original torna-se irreconhec\u00edvel, ou seja, o original perde o interesse, sobrepujado pelo cristal.<br \/>\nAp\u00f3s a cristaliza\u00e7\u00e3o, a d\u00favida e a apreens\u00e3o insinuam-se, pois o homem n\u00e3o tem certeza se \u00e9 capaz de atrair a mulher e faz\u00ea-la am\u00e1-lo de verdade, ao passo que a mulher duvida da sinceridade, se \u00e9 digno de sua confian\u00e7a, talvez interessado apenas em sexo e que ir\u00e1 deix\u00e1-la rapidamente. Etapa seguinte: exige-se a vistoria anual de a quantas anda o amor, havendo que produzir uma renovada prova do amor. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 a morte, erro seu, a culpa foi sua, \u201cilus\u00e3o de \u00f3tica que conduz ao tiro de pistola fatal\u201d. Simbolismo esse que evoca os tempos do romantismo a exemplo de Castro Alves, que entra em depress\u00e3o e se acidenta atirando no pr\u00f3prio p\u00e9 quando Eug\u00eania C\u00e2mara (atriz portuguesa que abandonara o marido empres\u00e1rio teatral e filha em Portugal para viver com o poeta de 19 anos em Salvador) d\u00e1 sinais de que ir\u00e1 abandon\u00e1-lo ap\u00f3s cinco anos de apaixonada conviv\u00eancia. Gangrena, tuberculose e ci\u00fames mataram o poeta aos 24 anos.<br \/>\nPara Stendhal, a fantasia \u00e9 a ess\u00eancia do amor. N\u00f3s nos apaixonamos por deuses e deuses de nossa cria\u00e7\u00e3o, nunca vistos com clareza. Sequer conhecemos as for\u00e7as que nos impelem para eles, mas sempre estamos predispostos a am\u00e1-los.<br \/>\nOu\u00e7amos o que outros aficionados pelo tema do amor declararam e constatem a torre de Babel que estamos construindo. Cambiemos para Jose Luiz Borges, grande escritor do s\u00e9culo XX, sempre apresentado como intelectual frio, segundo nos conta Alberto Manguel, argentino naturalizado canadense. Manguel, editor, resenhista, revisor, tradutor, acabou de lan\u00e7ar seu segundo livro &#8211; \u201cUma hist\u00f3ria da leitura\u201d -, apaixonante relato sobre a literatura. Avesso a teorias e academicismo, Manguel revela que Borges sempre buscou a mulher ideal; que, ao longo de sua vida, se apaixonou muitas vezes, sempre nos lugares errados. Tentou ser n\u00e3o apenas um escritor, mas um homem de a\u00e7\u00e3o, um aventureiro. Para encontrar as mulheres. Atrav\u00e9s da escrita.<br \/>\nSe Borges tivesse nascido 30 anos depois poderia ter tomado conhecimento do trabalho realizado pela psic\u00f3loga Sueli Engelhardt, em viv\u00eancias terap\u00eauticas, cujo tema \u00e9 \u201cA Escolha Certa do Parceiro\u201d. \u00c9 diferente da escolha do parceiro certo. Ou seja, o que norteia suas escolhas, sempre para aquele mesmo tipo, o mesmo g\u00eanero de personalidade. Que voc\u00ea n\u00e3o ag\u00fcenta mais.<br \/>\nA psicanalista Silvia Alexin Nunes discorreu sobre a constru\u00e7\u00e3o das identidades feminina e masculina: cada homem e cada mulher \u00e9 um indiv\u00edduo singular que s\u00f3 pode manter uma rela\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da negocia\u00e7\u00e3o de grandes e pequenas diferen\u00e7as. Complexo, n\u00e3o? (Acordo entre as partes).<br \/>\nAlcione Ara\u00fajo, que escreveu Malu Mulher na TV, afirma que h\u00e1 uma extraordin\u00e1ria insatisfa\u00e7\u00e3o da mulher com o homem, que deseja transform\u00e1-lo naquilo que ela quer que ele seja ou ent\u00e3o, ele n\u00e3o \u00e9 nada na vida dela!<br \/>\nPor outro lado, acrescento que os homens est\u00e3o inseguros, pois gra\u00e7as \u00e0 l\u00f3gica e tiroc\u00ednio de que tanto se orgulham, t\u00eam perfeita no\u00e7\u00e3o da perda de subst\u00e2ncia de sua personalidade diante da nova mulher, com s\u00e9rios reflexos na arte da conquista e sedu\u00e7\u00e3o da mulher, arte essa outrora poderosa.<br \/>\nO psicanalista Jo\u00e3o Alberto Legey desabafou: vejo homens e mulheres trocando de pap\u00e9is, mas mantendo as mesmas estruturas de rela\u00e7\u00e3o. De poder. A mulher vem me impor o desejo dela e eu, como a mulher antiga, tenho que calar a boca, sen\u00e3o crio problemas.<br \/>\nRepararam no painel tecido pelos chamados especialistas do amor? Positivamente estamos em estado de guerra n\u00e3o declarada. Da\u00ed eu ter querido examinar como o vocabul\u00e1rio de emo\u00e7\u00f5es incorpora express\u00f5es novas ou muda o sentido de palavras antigas. Na Gr\u00e9cia antiga, era uma emo\u00e7\u00e3o associada aos deuses. Na Renascen\u00e7a, \u00e9 associada \u00e0 culpa. Em nosso tempo, \u00e9 vinculada a diferentes formas de rela\u00e7\u00f5es sociais. E \u00e9 aqui que eu volto a meter minha p\u00e1 nessa discuss\u00e3o para n\u00e3o mais sair.<br \/>\nA primeira impress\u00e3o que me vinha \u00e0 mente \u00e9 que para debater rela\u00e7\u00f5es entre homem e mulher seria mais apropriado fazer uso de ensaios, cr\u00edticas e teses. Mas para que tanta cerim\u00f4nia se o amor se mete quando n\u00e3o \u00e9 chamado sem pedir licen\u00e7a a ningu\u00e9m? Tal como Manguel, n\u00e3o sou chegado a academicismos, nem engajamento em proposi\u00e7\u00f5es que terei de provar sua efic\u00e1cia na pr\u00e1tica. Parafraseando Cristina da Costa Pereira, na sua coluna Ler \u00e9 Refletir, na Folha de Santa Teresa, o ficcionista, dentro dos seus limites liter\u00e1rios, exprime sua viv\u00eancia, sua vis\u00e3o de mundo, seus ideais, sem querer nos provar nada, de forma deliberada. E \u00e0s vezes at\u00e9 acaba provando.<br \/>\nRastreando o ide\u00e1rio de alguns contos percebi que h\u00e1 um elo entre eles que desenvolve o tema do debate: Utopia do Amor Eterno. De forma inconsciente, desenrolei essa tem\u00e1tica numa seq\u00fc\u00eancia de contos escritos ao longo de 6 meses de 1996, que vieram a constituir 60% do livro ILUS\u00c3O DE \u00d3TICA. Eis o sum\u00e1rio:<br \/>\na) N\u00e3o tem escapat\u00f3ria &#8211; Adulto finalmente entende porque crian\u00e7a chora tanto: ansiedade por querer ser inclu\u00eddo dentre os bafejados pela sorte de amar e ser amado nesta vida. Chora de medo por saber ser dif\u00edcil substituir o afeto e o desvelo da m\u00e3e pelo amor ideal t\u00e3o almejado durante o trajeto de vida. N\u00e3o tem escapat\u00f3ria: viver s\u00f3 faz sentido se houver amor.<br \/>\nb) O decl\u00ednio da lua-de-mel &#8211; Os rituais concorreram para desprestigiar o amor eterno. Primeiro, o pecado original, depois a virgindade. Agora a lua-de-mel deixou de ser o rito de passagem para concretizar a utopia do amor eterno. N\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio esperar esse luxurioso momento para aprender a conviver com quem j\u00e1 se ama. Os inocentes que cultuam a lua-de-mel, tal como nos tempos dos espartilhos e do palet\u00f3 e gravata, n\u00e3o se aperceberam de que a lua-de-mel \u00e9 a antec\u00e2mara da conviv\u00eancia estreita e na justa medida para saber se os dois se querem ou est\u00e3o representando para o Pin\u00f3quio julgar.<br \/>\nc) Promessa para um pr\u00edncipe encantado &#8211; Mulher dividida entre o cotidiano insosso com o marido e o resgate do prazer com o amante, percebe que o amor ainda n\u00e3o se faz presente em sua vida, permanecendo a \u00e2nsia pelo desconhecido e imagin\u00e1rio. Reza por um amor que ela continuar\u00e1 buscando.<br \/>\nd) Romeu e Julieta na sobremesa &#8211; Sedu\u00e7\u00e3o e fasc\u00ednio podem levar o aflito desejo de encontrar o amor in\u00e9dito e singular a enveredar por descaminhos. Subjugando quem n\u00e3o pode escapar de si mesmo e da teia com a qual se deixa envolver. Por n\u00e3o saber onde colocar seus desejos, homem se apaixona por mulher rica, auto-suficiente e viciada e, no af\u00e3 de se livrar dela, chega a apelar at\u00e9 para a falecida m\u00e3e. N\u00e3o h\u00e1 como ajudar ou prestar socorro a quem precisa descobrir por onde recome\u00e7ar.<br \/>\ne) A brasa &#8211; Empurradas pelo desespero de ver o tempo passar sem nada ter constru\u00eddo, duas mulheres sofrem para tornar reais antigos sonhos de amor. Mas como, se os homens s\u00e3o incapazes de entrar em contato com a alma feminina? A tend\u00eancia \u00e9 de viver se repetindo, continuar a viver da maneira a que estavam acostumadas. Se hesitar em se transformar, voc\u00ea corre o risco de ser despejado do seu comodismo.<br \/>\nf) Ciclone imprevisto &#8211; Correspond\u00eancia entre duas pessoas que nunca se viram revela um amor que transcende os limites de tempo e espa\u00e7o, acendendo inesperadamente o rastilho de p\u00f3lvora que arrebata os amantes, um em dire\u00e7\u00e3o ao outro, para viver a utopia.<br \/>\ng) A utopia do amor eterno &#8211; O ser humano carrega o seguinte conflito: o desejo de viver o amor mais sublime, revestido de lirismo e pureza, com a chama da uni\u00e3o sempre acesa; em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 est\u00fapida realidade das rela\u00e7\u00f5es possessivas. A id\u00e9ia do amor eterno \u00e9 escravizante? Esvazia a poss\u00edvel magia do casamento ou do dia-a-dia? \u00c0s vezes as quest\u00f5es sobre o amor nos impedem de viv\u00ea-lo, de simplesmente amar, sem complica\u00e7\u00f5es. Como conciliar amor eterno com ef\u00eameras juras de amor? Qual o verdadeiro amor afinal? Eterno \u00e9 o amor ou a busca? O amor acaba se transformando num Xanadu, fora do alcance dos amantes. Pois bem, seria o fim da utopia do amor eterno de Romeu e Julieta? <!-- #EndEditable --><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0(Palestra) Debate extra\u00eddo de seu livro Ilus\u00e3o de \u00d3tica, no Projeto Paix\u00e3o de Ler, na Biblioteca Popular de Santa Teresa\/RJ, em outubro de 1997 O tema do debate foi extra\u00eddo da tem\u00e1tica predominante no livro ILUS\u00c3O DE \u00d3TICA, onde h\u00e1 inclusive um conto com esse t\u00edtulo. 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