﻿{"id":2936,"date":"2008-08-22T00:00:21","date_gmt":"2008-08-22T19:12:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldugaio.com\/index.php\/alguns-trechos-raizes-partidas\/"},"modified":"2016-06-20T12:59:38","modified_gmt":"2016-06-20T12:59:38","slug":"alguns-trechos-raizes-partidas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/alguns-trechos-raizes-partidas\/","title":{"rendered":"RA\u00cdZES PARTIDAS"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><h3 align=\"center\"><strong><span style=\"color: #000000; font-size: x-large;\">RIO DE JANEIRO, O ELDORADO DOS PORTUGUESES<\/span><\/strong><\/h3>\n<p class=\"Corpo\">Veranico de maio de 1888.<b> <\/b>Manuel Gaia chega de Portugal num paquete a vapor. Contido em trajes que denunciam h\u00e1bitos franciscanos, embora n\u00e3o sejam pu\u00eddos. Nem grosseiro, muito menos sofisticado. De longe, j\u00e1 enxergava o Brasil pujante, pois que, de perto, viu Portugal mal acomodado em uma casinha pequenina: partiu para n\u00e3o chorar por toda a vida. Para abra\u00e7ar um futuro e, na poeira do destino, esquecer o que nem mais quer que seja revelado nos descaminhos da mem\u00f3ria. Deixou para tr\u00e1s embara\u00e7os que impediriam sua progress\u00e3o nos neg\u00f3cios em conjun\u00e7\u00e3o com o amor. Sen\u00e3o desconcentra. Construir uma hist\u00f3ria. A sua. Criar uma fam\u00edlia. Fincar ra\u00edzes. Dar conta de sua miss\u00e3o. Sua evolu\u00e7\u00e3o seria demarcada por descobrir quem \u00e9 e o que veio fazer aqui. Mas, por favor, uma coisa de cada vez! Saudades de Portugal? Afog\u00e1-las-ia quando alcan\u00e7asse esse plat\u00f4. Quando uma porta se fecha, muitas janelas se abrem.<br \/>\nTrouxera guardado no fundo da mala o elixir para se realizar no Brasil: a perseveran\u00e7a. Tinha como garantido trabalhar sem descanso, baseando-se simplesmente em insistir e preparar a mente. S\u00f3 ent\u00e3o a sorte bafeja, enfunando as velas para encorpar seu destino.<br \/>\nLevas e levas de portugueses aportavam no Rio de Janeiro vindos do al\u00e9m-mar. Alguns eram caixeiros e tinham emprego assegurado, geralmente no pequeno com\u00e9rcio urbano, junto a parentes e amigos conquistados ainda em terras lusitanas. Ou jovens galegos, sem la\u00e7os familiares, que dormiam nos locais de trabalho, convertendo-se em agregado. Brancos e cat\u00f3licos, o perfil do imigrante desejado num pa\u00eds que carecia de instru\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o na m\u00e3o-de-obra e enfrentava o desafio de se tornar uma sociedade moderna. Os portugueses de Portugal buscando o Eldorado junto aos portugueses do Brasil. O Brasil como Cana\u00e3, a Terra Prometida no imagin\u00e1rio portugu\u00eas. O Velho Portugal n\u00e3o apresentava perspectivas; inclusive do ponto de vista pol\u00edtico, o Brasil era a solu\u00e7\u00e3o para a pobreza.<br \/>\nO vapor apita ao entrar na Ba\u00eda de Guanabara. A toda hora Manuel crivava de perguntas um marinheiro ti\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Eu esperava tudo, menos chegar nessa beleza que \u00e9 o Rio de Janeiro com esse temporal.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o se preocupe, j\u00e1 vai parar.<br \/>\n&#8211; Como, parar? Chove a c\u00e2ntaros.<br \/>\n&#8211; \u00c9 chuva de ver\u00e3o&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas que ver\u00e3o? Estamos em maio.<br \/>\n&#8211; Daqui a pouco estia.<br \/>\n&#8211; Com esses trov\u00f5es todos?<br \/>\n&#8211; Tu vais ver.<br \/>\nO sol se abre.<br \/>\n&#8211; Raios que me partam! N\u00e3o \u00e9 que tu tinhas raz\u00e3o?<br \/>\n&#8211; \u00d4, portuguesinho, vai se acostumando com o Brasil. Aqui nunca se sabe ao certo como vai se acordar no dia seguinte.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 vendo aquele areal l\u00e1 longe, brilhando? Ali ainda hei de construir meu neg\u00f3cio!<br \/>\n&#8211; Est\u00e1s louco? \u00c9 o sol que brilha por sobre o areal, meu sinhozinho!<br \/>\n&#8211; O Rio de Janeiro \u00e9 um para\u00edso.<br \/>\nA entrada na Ba\u00eda de Guanabara era a concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho. Tamanha surpresa que parecia alucina\u00e7\u00e3o, jamais poderia imaginar o espet\u00e1culo que a natureza proporciona &#8211; o dito diferente do visto.<br \/>\nParece que algu\u00e9m colocou o dedo na tinta e desenhou o contorno dos morros, obra e gra\u00e7a de uma crian\u00e7a. \u00c9 a coisa mais linda o contraste entre as montanhas e o mar, inspira arte ao inv\u00e9s de majestade, colore as esperan\u00e7as. N\u00e3o existe nada igual, o que ser\u00e1 que est\u00e3o querendo dizer?<br \/>\n&#8211; Eu quero ser um homem respeitado, trabalhador, empreendedor&#8230; Vou dar meu sangue para que essa cidade seja mais maravilhosa do que os meus olhos conseguem alcan\u00e7ar. Vou crescer junto com ela. Desmoralizar o calor que induz \u00e0 pregui\u00e7a e ociosidade.<br \/>\nSonhando de olhos abertos, desligou-se da paisagem, imerso na labuta de construir, pedra por pedra, um estabelecimento comercial que oferecesse rica variedade de g\u00eaneros aliment\u00edcios e diversos utens\u00edlios caseiros.<br \/>\nManuel achava o mundo ainda muito aristocr\u00e1tico: cheio de espartilhos e fraques, cartolas e v\u00e9us, luvas e mon\u00f3culos. Esse mundo, positivamente, n\u00e3o era para ele. J\u00e1 nasceu com essa certeza. N\u00e3o estava disposto a apenas admirar o belo da paisagem e sim nela se integrar, visualizando seu futuro atrav\u00e9s desse mesmo belo.<br \/>\nUm sujeito que despreza o belo de estalo para enxergar o interesse maior se desumaniza. Mas ele s\u00f3 acreditaria que era humano se visse a \u00e1rvore que plantou coalhada de frutos, pedindo para serem colhidos. Esse seria o momento ideal para ele se humanizar, o de compartilhar os frutos que plantou. S\u00f3 assim se daria por satisfeito.<br \/>\nManuel continuou a ter vis\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Um dia as pessoas ainda ir\u00e3o querer passar o dia inteiro na praia, aprender a nadar, brincando com os filhos, se refrescando. Eu quero chegar l\u00e1 primeiro.<br \/>\nAinda n\u00e3o havia porto numa cidade de 500 mil habitantes, sendo os navios obrigados a fundear na Ba\u00eda de Guanabara e transferir os passageiros para embarca\u00e7\u00f5es que fazem o traslado at\u00e9 o cais Pharoux, diante dos olhares de ociosos que se debru\u00e7am na balaustrada. Manuel desembarca no sal\u00e3o de visitas da cidade sob o odor de petisqueiras servindo caldos verdes nadando em grossa banha de porco, com fregueses de pan\u00e7a cheia aliviando-se \u00e0 farta, com um palito \u00e0 boca e outro, sobressalente, atr\u00e1s da orelha. Adentra o Largo do Pa\u00e7o &#8211; testemunha ocular do Dia do Fico e da aclama\u00e7\u00e3o dos Pedros do Imp\u00e9rio &#8211; e segue em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Rua Direita, em meio a carruagens cujo estr\u00e9pito dos cascos dos cavalos no piso p\u00e9-de-moleque provoca um som gostoso de ouvir e parar boquiaberto por segundos.<br \/>\nRua Direita, a mais larga e imponente da cidade, onde se estabeleceram casas de c\u00e2mbio, exportadores de caf\u00e9, negociantes atacadistas, relojoeiros de luxo e a confeitaria Carceller &#8211; famosa por seus sorvetes -, ao lado de quitandeiros e baianas.<br \/>\nOs bondes puxados a burro atravancam as ruas estreitas, os pingentes no estribo tiram fino de andaimes, carro\u00e7as e cavalos da pol\u00edcia de ronda; os vendedores ambulantes soltam a voz no mais hist\u00e9rico dos preg\u00f5es, faz-se do grito uma can\u00e7\u00e3o que a popula\u00e7\u00e3o reproduz em tom de galhofa. O funileiro, o mascate, o baleiro, a baiana do cuscuz e da pamonha, e o homem do realejo.<br \/>\nArrisca uma espiada mais comprida por sobre a porta de vaiv\u00e9m do restaurante Rio Minho, freq\u00fcentado por comandantes de navios e forasteiros mais abastados, defronte \u00e0 Praia do Peixe. Arregala os olhos s\u00f3 de pensar o que ter\u00e1 de encarar um dia: guisado de tartaruga, grelos de ab\u00f3bora, passarinhos fritos com bananas e empadinha de ostras. Sob o an\u00fancio de que restaura id\u00e9ias embotadas e assossega id\u00e9ias fixas.<br \/>\nAh, a c\u00e9lebre Rua do Ouvidor!<br \/>\nFechada ao tr\u00e2nsito de carro\u00e7as e cavalos, tinham sede os grandes peri\u00f3dicos, os principais hot\u00e9is, reputadas bancas de advogados, os mais respeitados consult\u00f3rios m\u00e9dicos e os mais freq\u00fcentados caf\u00e9s. Rosto eloq\u00fcente da cidade, que transparecia um maior distanciamento do Brasil-Col\u00f4nia e melhor retratava os costumes do s\u00e9culo XIX.<br \/>\nLojas com um requinte e aparato que atra\u00edam uma seleta clientela. As mais finas casas de moda feminina que denunciavam o gosto de imitar nos h\u00e1bitos e no vestu\u00e1rio as francesas, cuja fama se estendia a cabeleireiros. Meias e ligas as tornavam coquetes, a fim de atrair casamentos que dessem um jeito nas suas vidas.<br \/>\nApercebe-se da caracter\u00edstica b\u00e1sica do carioca: os peraltas, na arte e of\u00edcio de acuar raparigas e senhoras, mediante galanteios batidos. Falando alto, gesticulando, arrimados na ociosidade, distribuindo sorrisos espalhafatosos para os quatro cantos.<br \/>\nManuel estanca no meio da rua, tentado entre os sandu\u00edches do Castel\u00f5es e um c\u00e1lice de Madeira na Deroche. Diante do caldo-de-cana, do guaran\u00e1 e do refresco de pitanga, o exotismo servido em ta\u00e7a de cristal alongada. Se andasse mais dois quarteir\u00f5es, encontraria past\u00e9is de nata, toucinhos do c\u00e9u, travesseiros de am\u00eandoa e ovos moles de Aveiro na Cav\u00e9. Mas bate os olhos nas edi\u00e7\u00f5es da Livraria Garnier.<br \/>\nNa Garnier se re\u00fanem literatos famosos em pequenas rodas de conversa, cultivadas pelos <i>habitu\u00e9s<\/i> da casa de Baptiste Louis Garnier. Manuel percorre devagar os balc\u00f5es centrais, cheios de livros, de autores que nunca ouvira falar, sequer tivera not\u00edcia, vislumbrando um dia a ventura de seus filhos e netos poderem adquiri-los, lev\u00e1-los embaixo do bra\u00e7o, l\u00ea-los e penetrar no mundo m\u00e1gico das id\u00e9ias e sensibilidade que a ele n\u00e3o seria permitido. N\u00e3o haveria tempo. Seu projeto de construir castelos em areia, ou melhor, armaz\u00e9ns nas areias de Copacabana, Ipanema e Botafogo, n\u00e3o era coisa de vision\u00e1rio ou demente.<br \/>\nSaintive, o livreiro, pergunta se ele est\u00e1 interessado em alguma publica\u00e7\u00e3o em especial, enquanto Manuel alisa o endere\u00e7o em relevo da Garnier em Paris: 6, Rue des Saints-P\u00e8res. Fascinado com os t\u00edtulos dos volumes, xereta o convite de casamento de Saintive dirigido aos clientes da livraria. Exultante com as bodas, Saintive j\u00e1 pensava em convid\u00e1-lo para o rega-bofe:<br \/>\n&#8211; Como \u00e9 mesmo sua gra\u00e7a?<br \/>\n&#8211; Manuel Gaia.<br \/>\nOuve-se, de repente, uma algazarra vinda da rua, uma multid\u00e3o explodindo de alegria, negros, mulatas e crian\u00e7as se abra\u00e7ando e cantando, em impressionante e comovente comemora\u00e7\u00e3o pela aboli\u00e7\u00e3o da escravatura: \u201cA Lei \u00c1urea foi assinada! Viva a Princesa Isabel! Finalmente estamos livres!\u201d. S\u00e1bado, dia 13 de maio de 1888. Negros usando cal\u00e7as riscadas, chap\u00e9u e casaca, carregando botas que nunca haviam usado como uma esp\u00e9cie de trof\u00e9u.<br \/>\nO calor remanescente do ver\u00e3o expulsa a todos de casa. A noite promete. Lota\u00e7\u00e3o esgotada nos teatros, caf\u00e9s e bares localizados nos arredores da Pra\u00e7a Tiradentes, centro nervoso da divers\u00e3o carioca, ponto de encontro de estudantes, pol\u00edticos, artistas e bo\u00eamios. Quem se julgasse requintado tinha que passar ao largo. Os card\u00e1pios eram raros nos restaurantes, a maioria analfabeta opta no menu decorado pelo gar\u00e7om, entre tripas \u00e0 moda do Porto, batatas fritas na banha e bacalhau assado na brasa. A cerveja, carinhosamente chamada de virgem loura; o absinto, de pr\u00eamio do c\u00e9u; e a cacha\u00e7a se passava por \u00e1gua de Nossa Senhora. \u00c9 tal o vaiv\u00e9m de gente, o murm\u00fario de vozes cortado por gritos rejubilando-se com o momento hist\u00f3rico em meio ao barulho ensurdecedor da lou\u00e7a em manejo, que emociona Manuel. Com a sua sorte.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, O ELDORADO DOS PORTUGUESES Veranico de maio de 1888. Manuel Gaia chega de Portugal num paquete a vapor. Contido em trajes que denunciam h\u00e1bitos franciscanos, embora n\u00e3o sejam pu\u00eddos. Nem grosseiro, muito menos sofisticado. 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