﻿{"id":101777,"date":"2016-10-17T04:04:51","date_gmt":"2016-10-17T06:04:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=101777"},"modified":"2023-05-12T20:33:57","modified_gmt":"2023-05-12T23:33:57","slug":"relicario-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/relicario-do-amor\/","title":{"rendered":"RELIC\u00c1RIO DO AMOR"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p style=\"text-align: center;\">(Em coautoria com Beatriz Salles)<\/p>\n<p>Bela, mas ela n\u00e3o sofria nada. Simplesmente porque n\u00e3o carregava dentro de si um cora\u00e7\u00e3o. Tripudiava dos que se apaixonavam por ela. Divertia-se, satisfazia-se, jogava fora.<br \/>\nAt\u00e9 o dia em que encontrou Ant\u00f4nio, aquele que amava muito e sempre. Foi quando brotou um cora\u00e7\u00e3o dentro de seu peito. E tudo mudou.<br \/>\nEle guardava estrelas no por\u00e3o de sua casa para iluminar a pr\u00f3pria vida quando os tempos dif\u00edceis iam ficando insuport\u00e1veis, acostumando-se a cultivar o sofrimento, a tristeza e o vazio.<br \/>\nGostava de se manter na penumbra, remoendo dores antigas, velhos desapontamentos. Sofria &#8211; e se sentia glorioso assim. S\u00f3 que, \u00e0s vezes, o sofrimento pesava e a escurid\u00e3o come\u00e7ava a lhe meter medo. Era quando ele descia ao por\u00e3o para brincar com as estrelas.<br \/>\nVivera grandes amores. Exagerados, intensos, algumas vezes sombrios. Um deles, t\u00e3o imenso que fora mais do que poderia suportar. Por isso, trancara seu afeto. Escolhera congelar aquele cora\u00e7\u00e3o que tanto pulsava. Apenas quando havia luar tirava as travas do cora\u00e7\u00e3o para cobrir-se de esperan\u00e7a.<br \/>\nO que ela mais temia: amaram-se muito at\u00e9 o dia em que ele se cansou e partiu em busca de outros encantamentos. Ela foi murchando, perdendo coragem e vontade.<br \/>\nQuando ela nascera para a riqueza e o poder de fazer de sua vida o que bem entendesse, de entregar seu cora\u00e7\u00e3o &#8211; se \u00e9 que o possu\u00eda &#8211; a quem lhe interessasse. Mas a sensa\u00e7\u00e3o de que ele lhe roubara o cora\u00e7\u00e3o ficara t\u00e3o clara que ela preferia ser cega &#8211; como a vizinha. Quisera furar seus pr\u00f3prios olhos, t\u00e3o verdes, para n\u00e3o enxergar tanto negrume; para n\u00e3o sentir tanta solid\u00e3o.<br \/>\nEla que nunca tivera medo de descartar ou ignorar o que n\u00e3o lhe acalentava a alma. Tampouco fazia quest\u00e3o de ser aceita.<br \/>\nContudo, Ant\u00f4nio era um homem que amava. Muito e sempre. Exageradamente, absolutamente, irracionalmente. Acontece que ele vivia o amor certo pela pessoa errada. Quase sempre, depois de terminar uma rela\u00e7\u00e3o, Ant\u00f4nio s\u00f3 guardava uma boa recorda\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o e a lembran\u00e7a de um sofrimento cruel no desfecho, por\u00e9m de curta dura\u00e7\u00e3o. Quando o sentimento avassalador terminava, parecia que o mundo ia acabar. N\u00e3o acabava &#8211; e ele sobrevivia para buscar novo amor.<br \/>\nNo entanto, houve um amor que se tornou eterno no cora\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio e ele o guardava como num relic\u00e1rio, por ser intoc\u00e1vel, perene, imut\u00e1vel, talvez imposs\u00edvel. Prosseguiu em sua vida, benzendo-se todo santo dia diante de seu relic\u00e1rio de amor, o que, mesmo assim, n\u00e3o o impedia de suspirar por novas paix\u00f5es &#8211; sua utopia.<br \/>\nBelo dia, Ant\u00f4nio recebeu uma carta. N\u00e3o abriu o envelope com voracidade. Ainda mais que, ao reconhecer a letra, preferiu imaginar o que estaria escrito. Ali dentro, as palavras que sempre almejou ouvir. N\u00e3o s\u00f3 de seu amor relic\u00e1rio, mas de todas as suas tentativas de amar de verdade.<br \/>\nPeixes estranhos. Ela n\u00e3o sabe explicar por que fora a \u00fanica a aprender aquela t\u00e9cnica meticulosa de arrancar os olhos dos tais bichos.<br \/>\nL\u00e1 estava ela, soltando mais um olho, com o seu pr\u00f3prio olhar perdido vagando pelo sal\u00e3o do restaurante, quando parou.<br \/>\nSentada, sozinha numa mesa, l\u00e1 estava ela, a outra. Ou a outra seria ela pr\u00f3pria? N\u00e3o importa. A mulher l\u00e1 estava com ar soberano e tranquilo de quem tem uma exist\u00eancia estruturada, onde tudo funciona como deve ser. Pl\u00e1cida. Foi essa a palavra que lhe veio \u00e0 mente. Aquela era uma mulher dona de seu destino &#8211; e quem sabe do dele tamb\u00e9m.<br \/>\nDe repente, l\u00e1 estava debru\u00e7ada sobre a outra, l\u00e2mina firme nas m\u00e3os, retirando meticulosamente &#8211; como deve ser &#8211; o olho que restava no rosto t\u00e3o pl\u00e1cido &#8211; e l\u00edvido. Deixando todos ao redor pensando. S\u00f3 ela sabia o quanto n\u00e3o cabia de felicidade. Qu\u00e3o grande era a incompletude que infernizava sua exist\u00eancia.<br \/>\nLembrava at\u00e9 hoje, com nitidez surpreendente, a primeira vez que o vira. Alguma coisa fez com que tudo, absolutamente tudo, se tornasse diferente. As cores, os sons, as formas, a vida ganhava um novo significado. Sua sorte estaria selada. Poderia ter sido uma privilegiada e formarem um casal quase perfeito. T\u00e3o perfeito que daria medo.<br \/>\nTodavia, ela conviveria com a eterna sensa\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o era totalmente dela. E ela queria aquele homem que escolhera completamente seu, a\u00ed inclu\u00eddos alma, cora\u00e7\u00e3o, corpo, pensamento. Mulher nenhuma abre m\u00e3o desse direito natural em se tratando de um grande amor, ou ent\u00e3o \u00e9 melhor transform\u00e1-lo em relic\u00e1rio do amor.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Em coautoria com Beatriz Salles) Bela, mas ela n\u00e3o sofria nada. Simplesmente porque n\u00e3o carregava dentro de si um cora\u00e7\u00e3o. Tripudiava dos que se apaixonavam por ela. Divertia-se, satisfazia-se, jogava fora. At\u00e9 o dia em que encontrou Ant\u00f4nio, aquele que amava muito e sempre. Foi quando brotou um cora\u00e7\u00e3o dentro de seu peito. 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