﻿{"id":103288,"date":"2018-03-26T09:39:00","date_gmt":"2018-03-26T12:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=103288"},"modified":"2018-06-18T19:11:28","modified_gmt":"2018-06-18T22:11:28","slug":"o-olhar-de-stalin-sobre-o-suicidio-de-sua-mulher-e-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-olhar-de-stalin-sobre-o-suicidio-de-sua-mulher-e-filho\/","title":{"rendered":"O OLHAR DE STALIN SOBRE O SUIC\u00cdDIO DE SUA MULHER E FILHO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>Nadejda Alliluyeva orgulhava-se de sua mod\u00e9stia bolchevique usando vestidos um tanto sem gra\u00e7a ao n\u00e3o modelar o seu corpo. Inserida num casamento t\u00edpico da cultura comunista com um empedernido viciado em trabalho que n\u00e3o poderia ser um parceiro pior para sua esposa autocentrada. Embora capaz de agir como informante do marido, denunciando seus inimigos. Seus olhos irradiavam sinceridade a despeito de igualmente distante se perturbada por constantes ataques de depress\u00e3o e enxaquecas cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Obcecado por execu\u00e7\u00f5es, Stalin acreditava que a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas humanos seria a morte. Virou lugar comum, depois de morto e bem enterrado, consider\u00e1-lo uma aberra\u00e7\u00e3o, quando seu sucesso \u00e0 frente da ditadura do proletariado e consolida\u00e7\u00e3o do socialismo sovi\u00e9tico n\u00e3o foi um acidente para quem reescreveu a hist\u00f3ria da R\u00fassia de todos os Czares, se bem que perfeitamente coadunado \u00e0s intrigas conspirat\u00f3rias e ao dogmatismo homicida.<br \/>\nStalin era ami\u00fade agressivo e dado a insultar. Not\u00f3rio em estabelecer at\u00e9 onde seu interlocutor podia ir, enquanto Nadejda era orgulhosa e severa, demasiadamente sens\u00edvel e de sangue cigano, georgiano, russo e alem\u00e3o, como todos os Alliluyev. Ambos eram ego\u00edstas, aut\u00eanticas labaredas de fogo lambendo quem ousasse contrari\u00e1-los. Muito parecidos, impulsivos em excesso. Nunca foi uma rela\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, embora gostassem um da companhia do outro, amando \u00e0 sua maneira.<br \/>\nNadejda, ou N\u00e1dia, estava descontente sob o ponto de vista profissional. Queria seguir uma carreira bolchevique s\u00e9ria por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos. No come\u00e7o dos anos 1920, datilografava para seu marido. As novas mulheres comunistas, feministas, desprezavam as donas de casa e secret\u00e1rias como N\u00e1dia. A educa\u00e7\u00e3o era uma das grandes realiza\u00e7\u00f5es socialistas e havia milh\u00f5es como ela. Em 1929, decidiu se tornar uma mulher poderosa do Partido e n\u00e3o saiu de f\u00e9rias com o marido, ficando em Moscou a fim de prestar exame para a Academia Industrial, onde estudaria fibras sint\u00e9ticas. Mais interessada em seus estudos do que nos filhos, tratava-os com rigor, transparecendo que ela n\u00e3o era suficientemente forte para ser estudante, m\u00e3e e esposa de Stalin ao mesmo tempo. Angina ou misteriosas dores de cabe\u00e7a ou tonturas e fraqueza, dif\u00edcil imaginar um ambiente pior para uma mulher fr\u00e1gil do que a aridez cruel daquela panela de press\u00e3o do Kremlin permeada pelo bolchevismo marcial que tanto cultuava.<br \/>\nA energia incans\u00e1vel de Stalin a sugava e a deixava seca. Ele admitia que ficava desconcertado com as crises mentais dela, simplesmente n\u00e3o possuindo recursos emocionais para ajud\u00e1-la.<br \/>\nEm 9 de novembro de 1932, bebeu-se muito num jantar com in\u00fameras propostas de brindes que reunia a c\u00fapula comunista exultante com os triunfos na industrializa\u00e7\u00e3o e na coletiviza\u00e7\u00e3o das propriedades rurais empreendida por Stalin desde 1929. Mas a maioria era composta de administradores en\u00e9rgicos de trinta e poucos anos capazes de construir cidades e f\u00e1bricas contra todas as dificuldades, mas tamb\u00e9m de matar seus inimigos e travar uma guerra para esmagar os kulak (burguesia rural, pequenos e pr\u00f3speros propriet\u00e1rios de terra). Pol\u00edticos esbanjando teatralidade, violentos e pitorescos em suas t\u00fanicas e botas, mach\u00f5es e beberr\u00f5es, egos flamejantes e rev\u00f3lveres em seus coldres.<br \/>\nSem que os outros observassem, Stalin e N\u00e1dia, de repente, ficaram bravos um com o outro &#8211; o que n\u00e3o era raro. A noite para ela come\u00e7ou a desmoronar quando, entre brindes, dan\u00e7as e flertes ao redor da mesa, Stalin mal notou como ela se vestira, desta vez com charme, ainda que fosse uma das mulheres mais jovens presentes &#8211; ela com 31 anos e Stalin com 54. Uma grosseria nada incomum em in\u00fameros casamentos. Irritada com a falta de aten\u00e7\u00e3o, N\u00e1dia tratou de dan\u00e7ar com seu padrinho georgiano e oficial no comando do Kremlin, que j\u00e1 chocava o Partido em seus casos com bailarinas adolescentes. Talvez N\u00e1dia quisesse desestabilizar Stalin. Embora Stalin n\u00e3o fosse mulherengo: estava casado com o bolchevismo e comprometido emocionalmente com a pr\u00f3pria causa da Revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs ataques de depress\u00e3o de N\u00e1dia insuflavam o desapontamento com o vestido, a pol\u00edtica, o ci\u00fame e a in\u00e9pcia de Stalin como um homem rude que se imp\u00f4s. Gritava frequentemente com o marido, censurando-o em p\u00fablico e o humilhando. Assediado por N\u00e1dia, de olhos desvairados, a imagem de Stalin como marido dominado pela mulher soava absurda. Estava ficando cada vez mais hist\u00e9rica e inst\u00e1vel como todos os Alliluyev, alheia \u00e0s crian\u00e7as e a todo o resto. Tudo a entediava, n\u00e3o conseguia se controlar, cheia de tudo. Stalin n\u00e3o era o \u00fanico que demonstrava perplexidade.<br \/>\nMulheres do Partido observaram-na a n\u00e3o abandonar Stalin em momento t\u00e3o dif\u00edcil que enfrentava ao extinguir os \u00faltimos resqu\u00edcios de propriedade no campo com milh\u00f5es de pessoas morrendo de fome, e incerto da lealdade de seus camaradas, ao redobrar o impulso da coletiviza\u00e7\u00e3o e a corrida para industrializar a todo custo. Tudo que n\u00e3o precisava era de uma esposa perturbada.<br \/>\nN\u00e1dia deu voltas e voltas ao redor do assustador Kremlin, como outros faziam em tempos de crise, e ingressou em seu quarto para abra\u00e7ar sua solid\u00e3o sepulcral de posse de uma pistola feminina (Mauser) em um elegante coldre de couro, presenteada pelo irm\u00e3o Pavel &#8211; pistolas n\u00e3o eram dif\u00edceis de encontrar naquele c\u00edrculo. Stalin, sempre que chegava em casa tarde da noite, n\u00e3o se dirigia para ver a mulher, simplesmente ia para a cama, em seu quarto, do outro lado do apartamento &#8211; costumava ficar na cama at\u00e9 as onze da manh\u00e3.<br \/>\nNo in\u00edcio da madrugada, N\u00e1dia ergueu a pistola at\u00e9 o peito e puxou o gatilho uma vez. Ningu\u00e9m escutou o estampido, as paredes do Kremlin eram grossas. Morreu instantaneamente em consequ\u00eancia de um ferimento aberto no cora\u00e7\u00e3o. Seu corpo rolou para fora da cama. Foi encontrado no ch\u00e3o, j\u00e1 frio, no meio de uma po\u00e7a de sangue, com a pistola pr\u00f3xima &#8211; o suic\u00eddio fazia parte do desenrolar da epopeia comunista.<br \/>\nN\u00e3o avisaram logo a Stalin, primeiro os encarregados pela seguran\u00e7a do Kremlin. Enquanto o l\u00edder russo dormia para apagar a bebedeira num lado do apartamento, sua esposa dormiu para a eternidade no lado oposto. Ao procurarem pelos motivos do ato de desespero, encontraram a carta irada que ela deixara. Ningu\u00e9m nunca soube o que ela continha ou se Stalin a destruiu.<br \/>\nQuem iria acordar e dar a not\u00edcia a Stalin de que Nadejda Alliluyeva n\u00e3o estava mais entre n\u00f3s? E como ela morrera. Stalin ficou arrasado: \u201cComo ela p\u00f4de fazer isso comigo? Ela destruiu minha vida e me mutilou!\u201d. Lamentando sua falta e \u00e0s crian\u00e7as. Os rumores: ser\u00e1 que a insultara de novo e ido dormir, abandonando-a para que se matasse? Ou por outra: como Stalin se recuperaria e qual seria o efeito dessa humilha\u00e7\u00e3o sobre ele, seu c\u00edrculo de poder e sobre a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica? A vingan\u00e7a por esse fracasso pessoal seria o \u00eambolo do terror que estava por vir? Explodiu em ataques de raiva, culpando todo mundo, at\u00e9 os livros que ela ia. Nunca conseguiu entender por que aquilo acontecera, o que de fato significava. Por que ele recebeu aquela terr\u00edvel punhalada nas costas? &#8211; n\u00e3o devia desconhecer que as pessoas sempre se suicidam para punir algu\u00e9m.<br \/>\nO suic\u00eddio da mulher de Stalin n\u00e3o poderia ser anunciado publicamente, apesar da per\u00edcia n\u00e3o oficial t\u00ea-lo atestado. Corria-se o risco de interpretarem como uma afronta ao regime ou mesmo protesto pol\u00edtico, sendo melhor encobrir com a vers\u00e3o da apendicite. Configurou-se como o primeiro de muitos funerais em que a causa mortis seria escondida da maioria.<br \/>\nN\u00e1dia pairou sobre Stalin como uma nuvem negra, repleta de descargas el\u00e9tricas, at\u00e9 sua pr\u00f3pria morte. Sempre que encontrava uma pessoa que a conhecia bem, ele desandava a falar de sua personalidade e como n\u00e3o conseguia viver sem ela.<br \/>\nAssim como a morte de Yakov pesou sobre a exist\u00eancia de Stalin em seus \u00faltimos dez anos de vida. Filho de seu primeiro casamento e tenente do Ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico capturado logo no in\u00edcio da invas\u00e3o alem\u00e3 \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em julho de 1941. Quase dois anos depois, a derrota na batalha de Stalingrado propiciou a rendi\u00e7\u00e3o sem precedentes do marechal de campo alem\u00e3o Von Paulus, humilhando de tal forma Hitler que ele prop\u00f4s troc\u00e1-lo pelo filho do Stalin para dar um fim no constrangimento de ambas as partes. Yakov viria a morrer em abril de 1943, suicidando-se ao se jogar sobre a cerca eletrificada do campo de prisioneiros de Sachsenhausen, em sequ\u00eancia a Stalin ter se recusado a troc\u00e1-lo, ao n\u00e3o se valer de seu prest\u00edgio na hierarquia de comando do pa\u00eds e passar por cima dos cad\u00e1veres de milh\u00f5es de soldados russos e homens comuns que j\u00e1 se acumulavam durante a guerra &#8211; se todos eram seus filhos! transgress\u00f5es.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nadejda Alliluyeva orgulhava-se de sua mod\u00e9stia bolchevique usando vestidos um tanto sem gra\u00e7a ao n\u00e3o modelar o seu corpo. Inserida num casamento t\u00edpico da cultura comunista com um empedernido viciado em trabalho que n\u00e3o poderia ser um parceiro pior para sua esposa autocentrada. Embora capaz de agir como informante do marido, denunciando seus inimigos. 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