﻿{"id":103731,"date":"2018-07-30T05:28:25","date_gmt":"2018-07-30T08:28:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=103731"},"modified":"2018-08-02T08:35:06","modified_gmt":"2018-08-02T11:35:06","slug":"o-indizivel-no-pensamento-de-rilke","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-indizivel-no-pensamento-de-rilke\/","title":{"rendered":"O INDIZ\u00cdVEL NO PENSAMENTO DE RILKE"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>Rainer Rilke nasceu em 1875, em Praga, no ent\u00e3o Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, deslanchando em sua grandiosa obra po\u00e9tica quando se apaixona pela intelectual e escritora Lou Andr\u00e9as-Salom\u00e9 em 1897, que terminaria seus dias como psicanalista em 1937. Mas s\u00e3o suas cartas, de alta densidade filos\u00f3fica, especialmente as escritas de 1903 a 1904, que revelam toda a riqueza de seu pensamento sempre gravitando em torno da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e de suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Cartas que investigam os motivos que o impelem a escrever estendendo suas ra\u00edzes at\u00e9 o ponto mais profundo do seu cora\u00e7\u00e3o, confessando que morreria caso fosse impedido de se debru\u00e7ar sobre a escrita. Posto assim, h\u00e1 que construir sua vida de acordo com tal necessidade, um sinal vivo desse impulso para criar um mundo em si mesmo e na natureza dos sentimentos e da alma. Tudo consiste em deixar amadurecer e germinar por completo dentro de si na escurid\u00e3o do indiz\u00edvel e do inconsciente, aguardando com profunda humildade a hora do nascimento de um novo clamor, tanto na compreens\u00e3o quanto na cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma medida de tempo para tal acontecer, mas s\u00f3 chega para os pacientes, como se a eternidade se encontrasse diante deles com toda a serenidade.<\/p>\n<p>Viver e escrever, ambos umbilicalmente ligados no cio, apenas formas diversas de um mesmo anseio, que precisa permanecer sempre inconsciente, desprevenido de suas melhores virtudes, de modo a n\u00e3o remover a inoc\u00eancia e a integridade que os reveste.<\/p>\n<p>N\u00e3o investigue agora as respostas que n\u00e3o lhe podem ser dadas pois n\u00e3o estaria apto a vivenci\u00e1-las. Viva agora t\u00e3o somente as perguntas. Passar\u00e1, gradativamente e sem perceber quando vieram, a viver as respostas &#8211; eduque-se para isso! Embora seja dif\u00edcil nossa incumb\u00eancia, pois quase tudo que \u00e9 s\u00e9rio custa nossa alma.<\/p>\n<p>A vol\u00fapia corporal que nos \u00e9 concedida constitui uma experi\u00eancia infinita de que todos abusam e a desperdi\u00e7am, quando n\u00e3o se comportam levianamente, usando como distra\u00e7\u00e3o para saciar a sede em vez de procurar elevar o esp\u00edrito na conjun\u00e7\u00e3o da carne. Porque a continuidade de seu gozo t\u00e3o indescritivelmente belo e rico prov\u00e9m de recorda\u00e7\u00f5es herdadas da gera\u00e7\u00e3o e da gesta\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de seres em que desponta a lei pela qual um espermatozoide forte e resistente se lan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao \u00f3vulo, que vem receptivo ao seu encontro. A grande renova\u00e7\u00e3o do mundo talvez venha a se consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos equivocados e de todas as contrariedades, n\u00e3o se procurar\u00e3o mais como advers\u00e1rios, mas unindo-se como seres humanos para simplesmente suportar juntos, com seriedade e paci\u00eancia, a dif\u00edcil sexualidade que foi atribu\u00edda a eles.<\/p>\n<p>Sentir amor por uma pessoa talvez seja a tarefa mais \u00e1rdua que nos foi dada, a mais extrema e que atrai prova\u00e7\u00f5es de todos os calibres. Por isso, os jovens, em seu not\u00f3rio desgoverno ao se atirarem uns para cima dos outros tangidos pelo amor, precisam aprender a amar, sendo uma oportunidade sublime para amadurecer e tornar-se algu\u00e9m. O tempo de aprendizado \u00e9 sempre um longo per\u00edodo para tamb\u00e9m aprender a ser s\u00f3, inerente a quem deseja a comunh\u00e3o como meta para o amor, talvez n\u00e3o bastando uma encarna\u00e7\u00e3o para realizar o sonho. As exig\u00eancias que o amor imp\u00f5e ao nosso desenvolvimento s\u00e3o sobre-humanas e costumamos n\u00e3o estar \u00e0 altura delas.<\/p>\n<p>Se nos fosse poss\u00edvel ver al\u00e9m do alcance do saber e de nossa intui\u00e7\u00e3o, talvez suport\u00e1ssemos nossas tristezas com mais confian\u00e7a do que nossas alegrias. S\u00e3o instantes em que algo de novo nos penetra ao mesmo tempo em que tudo em n\u00f3s recua e encolhe ao ser retirado o que era confi\u00e1vel e habitual, surgindo uma quietude. E o novo, que ningu\u00e9m conhece, \u00e9 encontrado bem ali no meio, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Rilke pede para acreditar nele: a vida tem raz\u00e3o, em todos os casos.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rainer Rilke nasceu em 1875, em Praga, no ent\u00e3o Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, deslanchando em sua grandiosa obra po\u00e9tica quando se apaixona pela intelectual e escritora Lou Andr\u00e9as-Salom\u00e9 em 1897, que terminaria seus dias como psicanalista em 1937. 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