﻿{"id":104019,"date":"2018-11-05T05:37:49","date_gmt":"2018-11-05T07:37:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=104019"},"modified":"2018-11-05T20:40:23","modified_gmt":"2018-11-05T22:40:23","slug":"o-avc-e-o-seu-nao-despertar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-avc-e-o-seu-nao-despertar\/","title":{"rendered":"O AVC E O SEU N\u00c3O DESPERTAR"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>Curitiba, 23 de maio de 2018.<br \/>\nA morte em quatro meses de meu irm\u00e3o causada por um AVC que o deixou em coma, e o despertou por pouco tempo para se despedir, pode ser igual a de in\u00fameros casos no que diz respeito \u00e0 dor e \u00e0 tristeza, mas eu, como sua irm\u00e3, declaro-me inconformada com alguns aspectos e passagens que a medicina passa ao largo por n\u00e3o se deter numa an\u00e1lise mais pormenorizada da fenomenologia espiritual, ao n\u00e3o conseguir explic\u00e1-la e encontrar valor cient\u00edfico, negando-a, peremptoriamente.<br \/>\nA liga\u00e7\u00e3o com meu irm\u00e3o era velada, fortemente caracterizada por uma prote\u00e7\u00e3o de um para com o outro, mesmo n\u00e3o expressada atrav\u00e9s da troca de palavras. Muito mais sentida, jamais relacionada a coisas materiais, n\u00e3o sendo palp\u00e1vel, mas, ao mesmo tempo, muito real. Embora nossa conviv\u00eancia tivesse sido bastante curta, j\u00e1 que meu irm\u00e3o se casou aos dezenove anos e logo teve dois filhos, formando uma fam\u00edlia \u00e0 qual se dedicou at\u00e9 o final de seus dias. Eu sabia que, se precisasse de seu amparo, eu o teria. Certeza essa que n\u00e3o deixava que me sentisse t\u00e3o s\u00f3 neste mundo, j\u00e1 que n\u00e3o formei fam\u00edlia.<br \/>\nEle sempre esteve presente n\u00e3o somente na vida de seus filhos, como posteriormente dos tr\u00eas netos. Defendia a neta mais velha, que hoje est\u00e1 com 23 anos e concluindo o curso de Direito, apoiando-a em tudo o que fazia, dizendo para o seu filho (o pai dela) que ela (a neta) agia desta ou daquela forma porque hoje o mundo mudou de perfil, e que ele deveria conversar mais e procurar entender suas rea\u00e7\u00f5es. Parar de chamar sua aten\u00e7\u00e3o ou brigar, trazendo a filha para mais perto dele, e n\u00e3o a afastando.<br \/>\nNos meses que antecederam o AVC, cheguei a perceber uma tristeza em seu olhar. Perguntei o que estava acontecendo, mas ele me assegurou que corria tudo em paz, e negou a melancolia que se apossou de sua alma. Hoje penso que se aquela tristeza estampada em seu semblante j\u00e1 n\u00e3o seria um pren\u00fancio do que estaria por se realizar.<br \/>\nO AVC que o atacou em janeiro, durante a madrugada, dormindo, sem que sua esposa se apercebesse, foi um choque para a fam\u00edlia. Desolador ter que autorizar uma traqueostomia para ele respirar melhor. Diariamente, eu o visitava na UTI, procurando tranquiliz\u00e1-lo com palavras de conforto para que n\u00e3o se preocupasse com encargos e responsabilidades, pois todos estavam orando e pedindo a Deus que fizesse o que fosse melhor para ele. Gostar\u00edamos que ele voltasse para o seio da fam\u00edlia, embora devesse seguir o que pedia seu cora\u00e7\u00e3o e sua alma. Reconhecia a extrema dificuldade da situa\u00e7\u00e3o, mas que ele n\u00e3o se apegasse aos problemas porquanto seriam resolvidos de uma forma ou de outra. Concentrar-se unicamente na cura, se essa fosse a sua vontade.<br \/>\nHavia que obedecer a dois hor\u00e1rios de visita na UTI e no m\u00e1ximo duas pessoas poderiam ingressar com dura\u00e7\u00e3o de 30 minutos. No primeiro hor\u00e1rio de visita, \u00e0s 17,30 horas, sempre com acompanhamento m\u00e9dico que explicava \u00e0 fam\u00edlia a situa\u00e7\u00e3o e o estado geral do paciente, exames realizados, press\u00e3o e o que fosse necess\u00e1rio. No segundo hor\u00e1rio de visita, \u00e0s 20 horas, eu regularmente o visitava, em geral s\u00f3, procurando abordar temas que n\u00e3o sobrecarregassem sua mente, como amor, vez por outra brincando, acariciando sua cabe\u00e7a ou segurando sua m\u00e3o. Eram conversas, melhor dizendo mon\u00f3logos, por ele estar em coma, em que, n\u00e3o raro, vi l\u00e1grimas escorrendo no canto dos olhos. Isso me deixava feliz e emocionada por entender que ele me ouvia, mas, por outro lado, me causava dor por ele n\u00e3o conseguir se comunicar. Ou, ent\u00e3o, a comunica\u00e7\u00e3o se resumia a l\u00e1grimas. Simultaneamente, minha respira\u00e7\u00e3o pesava e a garganta se fechava, sem contar que as l\u00e1grimas tamb\u00e9m brotavam de mim por ver e sentir o sofrimento pelo qual ele estava passando.<br \/>\nLembro-me, em especial, de uma visita na UTI, na qual, al\u00e9m da l\u00e1grima que escorria do canto dos olhos, em paralelo, ele fazia um esfor\u00e7o enorme para abrir os olhos, o que logrou por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo mexendo e abrindo levemente a p\u00e1lpebra. Uma conquista entusiasmante, mas, ao mesmo tempo, frustrante, por tomar consci\u00eancia do quanto se empenhou e que nada o demoveu daquele estado.<br \/>\nDe janeiro a maio, foi \u00e1rduo o que a fam\u00edlia sofreu, penosa a dor vivenciada em conjunto e dif\u00edcil em face de um per\u00edodo de muitas decis\u00f5es m\u00e9dicas e jur\u00eddicas a serem tomadas ou planejadas. Mas igualmente um per\u00edodo em que senti a presen\u00e7a de Deus, bem pr\u00f3ximo de mim quando me flagrava completamente desamparada. Agradecia a Deus por tudo o que me havia concedido e pedia que me orientasse por qual caminho optar. Recordo-me, como se fosse hoje, quando vislumbrei o caminho a seguir e o passo a passo para a melhor op\u00e7\u00e3o. Nunca minha f\u00e9 foi t\u00e3o fortalecida e nunca me senti t\u00e3o aben\u00e7oada com as orienta\u00e7\u00f5es que recebia.<br \/>\nMeu irm\u00e3o recebeu o amor da fam\u00edlia, o que n\u00e3o evitou a progress\u00e3o da enfermidade. Apesar de se alimentar por sonda, teve uma leve melhora, se comunicava com gestos, com o bra\u00e7o e a m\u00e3o que n\u00e3o estavam paralisados, com os olhos e algumas vezes esbo\u00e7ando um sorriso e movimentando a cabe\u00e7a para dizer sim ou n\u00e3o. Contudo, a melhora observada n\u00e3o passou da\u00ed, at\u00e9 que seu cora\u00e7\u00e3o parou e junto se foi o sofrimento do corpo.<br \/>\nA morte foi um choque e tive a dif\u00edcil incumb\u00eancia de comunicar \u00e0 nossa m\u00e3e. Jamais esquecerei sua rea\u00e7\u00e3o. Ela chorou muito, quietinha, sem esc\u00e2ndalo, sem gestos desmedidos, sem questionar, nem indagar a Deus por que levou seu filho antes dela. Ainda hoje se deixa ficar quieta com o olhar perdido. Se eu me senti s\u00f3, imagino o que n\u00e3o deve ter sido para minha m\u00e3e.<br \/>\nH\u00e1 que recordar do dia seguinte ao que meu irm\u00e3o sofreu o AVC, quando minha m\u00e3e ficou apreensiva ao n\u00e3o receber o tradicional telefonema do filho &#8211; diariamente, de manh\u00e3 e \u00e0 noite. Sua bisneta procurou tranquiliz\u00e1-la, informando-a que seu av\u00f4 se encontrava internado para controlar a press\u00e3o e diabetes. Reiteradas vezes. Temerosos de como a not\u00edcia verdadeira iria repercutir numa senhora de 93 anos, muito apegada ao filho. Pouco adiantou, pois pressentiu e sofreu uma queda perfurando a c\u00f3rnea do mesmo olho esquerdo que j\u00e1 n\u00e3o mais enxergava.<br \/>\nA cirurgia na vista durou mais de quatro horas sob press\u00e3o nela, e na equipe m\u00e9dica que a operou, do estado de sa\u00fade de meu irm\u00e3o, entre a vida e a morte. Somente quando minha m\u00e3e se recuperou e afastado o perigo de contrair ou transmitir infec\u00e7\u00e3o hospitalar, \u00e9 que finalmente foi liberada para entrar em contato com seu filho em estado de coma, rec\u00e9m-transferido da UTI para um quarto do hospital. Ele j\u00e1 abria os olhos, mas apenas ficava olhando, em estado \u201ccatat\u00f4nico\u201d.<br \/>\nAo v\u00ea-lo, precisou ser amparada pelo neto, quase desfalecendo. Chorou baixinho, acariciando seu rosto e dizendo que o amava muito e que estava pedindo a Deus para que ficasse curado. Foi uma visita que marcou a todos.<br \/>\nTranscorridos quarenta e cinco dias, ele levou a m\u00e3o que n\u00e3o estava paralisada \u00e0 cabe\u00e7a, passando pelo rosto e bocejando. Parecia despertar do coma. J\u00e1 estava com escaras nas costas e na perna em consequ\u00eancia de permanecer tanto tempo numa cama, por mais que movimentassem seu corpo a cada duas horas. No in\u00edcio de abril, foi transferido para uma Casa de Recupera\u00e7\u00e3o a fim de se submeter a tratamento com fisioterapeutas e fonoaudi\u00f3logas. No entanto, isso n\u00e3o o impedia de voltar para a UTI, quando atacado por problemas respirat\u00f3rios ou pneumonia.<br \/>\nNo dia 13 de maio, Dia das M\u00e3es, n\u00e3o pude entrar na Casa de Recupera\u00e7\u00e3o por estar resfriada. Foi a \u00faltima vez em que estive perto dele enquanto ainda vivo. Veio a falecer na manh\u00e3 de 23 de maio. A sensa\u00e7\u00e3o de me sentir s\u00f3 atribuo ao fato de que n\u00e3o falamos um para o outro tudo o quanto dever\u00edamos, que muito havia por ser dito e posto em pr\u00e1tica na vida. Hoje visualizo esta vida como um misto de ilus\u00f5es e realidade, que podemos desaparecer de repente, assim como aconteceu com meu irm\u00e3o, e, no m\u00e1ximo, restar lembran\u00e7as ou saudades.<br \/>\nTodavia, logo na pr\u00f3pria semana do desencarne, pude rev\u00ea-lo em sonho. A primeira pessoa da fam\u00edlia a sonhar com ele. Um sonho bem definido, como se estivesse vivendo aquele instante. Ao lado de quatro pessoas estranhas \u00e0s minhas rela\u00e7\u00f5es com quem precisava realizar determinado trabalho, chegamos defronte a um pr\u00e9dio pequeno em uma aldeia da Europa (lembro de l\u00e1 j\u00e1 ter passado), subindo alguns lances de escada. Tudo indicando que eu l\u00e1 morava, abri a porta de meu apartamento e alcancei, por meio de um corredor, a sala conjugada de estar e de jantar. Onde divisei meu irm\u00e3o sentado com as pernas cruzadas e o bra\u00e7o apoiado numa mesa redonda. De pronto notei que ele n\u00e3o mais pertencia ao mundo dos encarnados, o que n\u00e3o me assustou e sim surpreendeu-me: \u201cVoc\u00ea por aqui? Como voc\u00ea est\u00e1?\u201d. Ainda com uma certa dificuldade para falar, tranquilizou-me quanto ao seu estado e que logo iria trabalhar. \u00c0 cozinha, uma senhora, que n\u00e3o se virou, dando conta de uma refei\u00e7\u00e3o, mas que sabia ser nossa m\u00e3e. Segui adiante com as quatro pessoas para o mencionado trabalho.<br \/>\nMinha m\u00e3e relembra em seu primeiro sonho que ele se aproximou colocando a m\u00e3o em seu ombro, chamando sua aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o sentir medo porque l\u00e1 \u00e9 um bom lugar. No segundo sonho, eu me agrego e andamos por uma estrada, dia claro, muitas flores, mais parecia um jardim, mas tamb\u00e9m havia casas. Carreg\u00e1vamos flores e meu irm\u00e3o apontava as casas onde dever\u00edamos entreg\u00e1-las.<br \/>\nMinha cunhada relatou um sonho de t\u00ea-lo encontrado numa igreja, em que ele esclareceu estar bem, mas urgia se dirigir para sua miss\u00e3o. Acompanhado de outra pessoa mais velha, trajada como se fosse um frade, usando um capuz que encobria seu rosto.<br \/>\nA neta sonhou que viu o av\u00f4 na porta de casa e perguntou se ele estava melhor. Acompanhada da m\u00e3e e irm\u00e3, indagou a elas se n\u00e3o estavam vendo o \u201cv\u00f4\u201d. Disseram que n\u00e3o. Ent\u00e3o, ela correu para abra\u00e7\u00e1-lo, virando-se para a irm\u00e3 e a m\u00e3e. Ao voltar-se para v\u00ea-lo novamente, ele n\u00e3o se encontrava mais l\u00e1. A neta ficou impressionada pois o sonho parecia extremamente real. P\u00f4s-se o dia todo a comentar para quem quisesse ouvir que o av\u00f4 tinha vindo visit\u00e1-la.<br \/>\nSua presen\u00e7a, sempre que notada, podia ser atrav\u00e9s de seu calor e respira\u00e7\u00e3o, usualmente ao amanhecer, ou por meio de um vento e arrepio. Ou mesmo apontando, sem nada falar e sorrindo, para uma varanda onde costumava tomar sol num confort\u00e1vel sof\u00e1. E depois desaparecer.<br \/>\nComo desencarnou privado de sua autonomia e de sua enorme capacidade de proteger sua fam\u00edlia, sem que possamos avaliar o que restou de sua consci\u00eancia diante do AVC, ele ressurge em sonhos n\u00e3o s\u00f3 para serenar a fam\u00edlia, como demonstra j\u00e1 se encontrar apto e desembara\u00e7ado de seu corpo para integrar miss\u00f5es no Plano Espiritual, respaldado pela sua trajet\u00f3ria na vida terrena. L\u00e1 precisam de almas verdadeiramente mission\u00e1rias para obrar junto a esp\u00edritos que necessitam ser assistidos, esclarecidos e orientados quanto a um desenvolvimento mais humanit\u00e1rio e solid\u00e1rio.<br \/>\nEsgotado seu tempo no plano f\u00edsico para que outros prossigam seu labor. Dentro e fora da fam\u00edlia.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Curitiba, 23 de maio de 2018. 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