﻿{"id":105512,"date":"2020-08-03T00:01:00","date_gmt":"2020-08-03T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=105512"},"modified":"2023-05-12T19:31:27","modified_gmt":"2023-05-12T22:31:27","slug":"traicao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/traicao-2\/","title":{"rendered":"TRAI\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\">\n<p class=\"has-text-align-center\"><br> (Extra\u00eddo de meu livro \u201cTraidores!\u201d)<\/p>\n\n\n\n<p>A trai\u00e7\u00e3o varia conforme os costumes avan\u00e7am e rompem barreiras, dependendo de como se lida com a ast\u00facia e o cinismo. Ao longo dos s\u00e9culos, o que foi julgado como trai\u00e7\u00e3o, as gera\u00e7\u00f5es seguintes transformaram, muitas vezes, em hero\u00edsmo, o que significa sobre um plano hist\u00f3rico e pol\u00edtico que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer em que consiste a trai\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 espinhosa e antiga. Tanto que n\u00e3o foi poss\u00edvel estabelecer por lei o que constituiria a ofensa de trair, que ficou conhecida como lesa-p\u00e1tria. E, como sempre, muito al\u00e9m do plano jur\u00eddico, se \u00e9 posta a quest\u00e3o moral. Um aspecto sobre o qual tamb\u00e9m a literatura costuma rufar os tambores sempre que aborda trai\u00e7\u00e3o e moral. Com personagens como Otelo, Macbeth, Madame Bovary e Anna Karenina. <br>Em todas as culturas, era considerado traidor quem violava o pacto de confian\u00e7a que une e vincula os membros de uma comunidade, seja familiar, pol\u00edtica ou religiosa. Expulsar o traidor era essencial para manter a integridade do grupo. Trair a polis era um gesto execrado e injuriado quando o patr\u00edcio entrava em acordo com o inimigo para informar os pontos fracos da defesa citadina. Igualmente grave era trair a amizade ou a hospitalidade. Menos grave, trair a mulher, a qual, contudo, n\u00e3o podia se permitir trair o marido. <br>No per\u00edodo marcado pelas invas\u00f5es b\u00e1rbaras ao Imp\u00e9rio Romano (Alta Idade M\u00e9dia), por exemplo, grave era trair Deus ou a Igreja Cat\u00f3lica, enquanto na Baixa Idade M\u00e9dia pior era trair o senhor feudal. Judas Iscariotes se converte em mito na Idade M\u00e9dia como sin\u00f4nimo de traidor, expelido pela boca de Luc\u00edfer. Retratado centenas de vezes por pintores como Giotto, cujo \u201cBeijo de Judas\u201d proliferou na imagina\u00e7\u00e3o de todos com a conota\u00e7\u00e3o de inimigo da f\u00e9 e s\u00edmbolo da trai\u00e7\u00e3o.<br>Historicamente s\u00e3o sempre os vencedores que estabelecem quem \u00e9 considerado traidor ou n\u00e3o. S\u00e3o eles que elaboram as leis que regulamentam a quest\u00e3o. A pena de morte era reservada a quem tra\u00eda a p\u00e1tria. <br>Mas se a pena capital era consuetudin\u00e1ria, nem sempre se chegava a um consenso sobre a defini\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o. Contudo, quem n\u00e3o respeitava os valores da democracia ateniense, era punido apenas com ostracismo, banimento ou ex\u00edlio decenal. A puni\u00e7\u00e3o mais cruel estava reservada aos desertores em tempo de guerra: fuzilados pelas costas em sinal de desprezo. Mas havia a lapida\u00e7\u00e3o, com a v\u00edtima enterrada at\u00e9 o busto sendo apedrejada pela multid\u00e3o at\u00e9 a morte (Ar\u00e1bia Saudita e pa\u00edses isl\u00e2micos). O a\u00e7oite at\u00e9 a exaust\u00e3o, quando o condenado entrava numa longa agonia. O esquartejamento executado por quatro cavalos que puxavam os membros superiores e inferiores, um para cada lado, al\u00e9m de castr\u00e1-lo e esfol\u00e1-lo vivo. A guilhotina, usada nos anos de terror na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<br>Sob o pretexto de defender a Revolu\u00e7\u00e3o, guilhotinou os seus inimigos, como Lu\u00eds XVI e toda a sua corte. Robespierre justificava o terror, que &#8220;nada mais \u00e9 do que a justi\u00e7a r\u00e1pida, violenta e inexor\u00e1vel, e, portanto, uma express\u00e3o da virtude&#8221;. Um dos mais radicais, Robespierre tornou-se famoso como pol\u00edtico s\u00e9rio e incorrupt\u00edvel na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, por\u00e9m alternou para tirano sanguin\u00e1rio. Seu objetivo era eliminar os privil\u00e9gios da monarquia e do absolutismo, propagando ideias revolucion\u00e1rias para a \u00e9poca, como o sufr\u00e1gio universal, elei\u00e7\u00f5es diretas, educa\u00e7\u00e3o gratuita e obrigat\u00f3ria, aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e imposto progressivo segundo a renda.<br>A persegui\u00e7\u00e3o aos inimigos da Revolu\u00e7\u00e3o veio a descambar para a conspira\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o na guilhotina de membros do seu pr\u00f3prio partido jacobino, confundindo inimigos e aliados como Danton, o revolucion\u00e1rio que propunha um rumo mais moderado para a revolu\u00e7\u00e3o. A guilhotina funcionou sem parar at\u00e9 deputados moderados tramarem a pris\u00e3o de Robespierre, impondo a ele o mesmo destino que havia dado ao rei Lu\u00eds XVI. <br>Robespierre foi tra\u00eddo porque exagerou na dose da pol\u00edtica de \u201ccabe\u00e7as rolaram\u201d. Apertou demasiado a corda no pesco\u00e7o dos aristocratas. N\u00e3o havia mais como conciliar princ\u00edpios humanit\u00e1rios que mudaram a face do mundo como liberdade, igualdade e fraternidade com a guilhotina. Ou um ou outro.   <\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Extra\u00eddo de meu livro \u201cTraidores!\u201d) A trai\u00e7\u00e3o varia conforme os costumes avan\u00e7am e rompem barreiras, dependendo de como se lida com a ast\u00facia e o cinismo. 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