﻿{"id":105804,"date":"2021-01-04T00:02:00","date_gmt":"2021-01-04T02:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=105804"},"modified":"2023-05-12T19:29:50","modified_gmt":"2023-05-12T22:29:50","slug":"o-surrealismo-do-anjo-exterminador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-surrealismo-do-anjo-exterminador\/","title":{"rendered":"O SURREALISMO DO ANJO EXTERMINADOR"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\">\n<p>Luis Bu\u00f1uel (1900-1983), o pai do surrealismo no cinema, estudou num col\u00e9gio de jesu\u00edtas, cuja influ\u00eancia se faria sentir para o resto de sua vida. Com a adolesc\u00eancia, tornou-se anticlerical e ateu, sendo expulso do col\u00e9gio em 1915. Nele sempre primaram a rebeldia e o inconformismo. Influenciado por Garcia Lorca e Salvador Dali, rodou em 1929 os curtas-metragens \u201cUm c\u00e3o andaluz\u201d e \u201cA idade do ouro\u201d, cuja cena inicial de uma navalha a cortar o globo ocular provocava calafrios na plateia, o que viria a ser marcante em sua obra cinematogr\u00e1fica.   <br>Premiado no Festival de Cannes por Los Olvidados (1951) e Viridiana (1961), no Festival de Veneza por Belle de Jour (1967) e alcan\u00e7ado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1973) por O discreto charme da burguesia. O t\u00edtulo deste \u00faltimo filme, juntamente com Esse obscuro objeto de desejo (1976), passaram a integrar o vern\u00e1culo de todo o mundo. <br>Segundo os surrealistas, a arte deve se libertar das exig\u00eancias da l\u00f3gica e da raz\u00e3o e ir al\u00e9m da consci\u00eancia cotidiana, expressando o inconsciente e os sonhos.  <br>O Anjo Exterminador (1962) impressiona como a cria\u00e7\u00e3o mais surreal e libert\u00e1ria de Bu\u00f1uel, na qual os ricos convidados de um jantar de gala n\u00e3o conseguem deixar a mans\u00e3o, embora nada na realidade os impedisse. N\u00e3o h\u00e1 nada f\u00edsico que os impe\u00e7a de sair, por\u00e9m algo os faz ref\u00e9m de portas e grades imagin\u00e1rias. Quando todas as portas estavam abertas, mas todos eram absolutamente incapazes de atravess\u00e1-las. E ali permaneceram dias e noites confinados com os anfitri\u00f5es. <br>\u00c0 medida que horas, dias e semanas v\u00e3o passando, as m\u00e1scaras e as conven\u00e7\u00f5es sociais come\u00e7am a ruir, com Bu\u00f1uel jogando na nossa cara toda a falsidade e podrid\u00e3o de cada ser humano. Tratando os empregados que os serviam como se fossem meros e insignificantes prolet\u00e1rios. Contudo, os empregados j\u00e1 haviam come\u00e7ado a se retirar, saindo apressados, como se algo de muito ruim estivesse por acontecer e eles, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com isso, n\u00e3o pudessem presenciar. O \u00fanico que permanece, todo o tempo, \u00e9 o mordomo, numa alus\u00e3o \u00e0 hierarquia que essa figura exerce dentro de uma casa, pois ocupa a fun\u00e7\u00e3o de maior prest\u00edgio dentre os outros empregados, igualando-se, na vis\u00e3o dos servos, ao poder e \u00e0 influ\u00eancia dos patr\u00f5es.<br>O que Bu\u00f1uel aborda nesse chocante filme \u00e9 a paralisia da burguesia e de como ela deixa aflorar seus instintos mais selvagens de sobreviv\u00eancia quando privada de comida, \u00e1gua e banho. Apresentando os mais variados v\u00edcios burgueses, como tripudiar sobre as pessoas mais humildes, a maledic\u00eancia, a excentricidade, a cal\u00fania. Em uma cena, o anfitri\u00e3o lamenta o comportamento prom\u00edscuo dos convivas sem perceber que seu amigo seduz sua esposa bem na sua frente. As pessoas passam a se mostrar como realmente s\u00e3o, desentendimentos, acusa\u00e7\u00f5es e disputas se tornam normais entre elas. Alguns, mais exaltados, revelam segredos \u00edntimos, ou falam sobre a vida privada de outros, perdendo completamente a compostura, uma exig\u00eancia de bons costumes da sociedade.<br>Bu\u00f1uel desenvolve uma habilidade extrema e assustadora ao abordar uma situa\u00e7\u00e3o lim\u00edtrofe e expor seus personagens a prova\u00e7\u00f5es que lhes eram proibidas pelo status social por eles alcan\u00e7ado. Ou seja, deparamo-nos com pessoas outrora distintas (ou limitadas por suas posi\u00e7\u00f5es sociais), que, confinadas durante dias, veem extinguidos todos os seus freios morais. Nada mais importa, tudo \u00e9 permitido. O adult\u00e9rio passa a ser \u00e0s claras. As antipatias n\u00e3o s\u00e3o mais escondidas. Os desejos sexuais v\u00eam \u00e0 tona. \u00c9 a aristocracia perdendo a m\u00e1scara. Mostra o que h\u00e1 de menos civilizado entre aqueles que se julgam mais civilizados. E Bu\u00f1uel tirando um sarro do nada discreto charme da burguesia. <br>Prevalece a linearidade na narrativa de Bu\u00f1uel, n\u00e3o existe uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito entre os diversos pequenos acontecimentos da trama. Por exemplo, em um minuto, cinco breves cenas (com diferentes personagens) que nada t\u00eam a ver uma com a outra. Bu\u00f1uel investe tamb\u00e9m em figuras de repeti\u00e7\u00e3o de falas, de planos, de enquadramentos, que s\u00e3o igualmente uma forma de transgress\u00e3o e subvers\u00e3o da narra\u00e7\u00e3o tradicional. Outro elemento transgressor, que tamb\u00e9m contribui para o caos narrativo, \u00e9 o conjunto de frases enigm\u00e1ticas e, muitas vezes, sem significados expl\u00edcitos, pronunciadas pelos personagens, instalando uma confus\u00e3o psicol\u00f3gica que aumenta ainda mais a sensa\u00e7\u00e3o de desordem e ang\u00fastia. <br>\u00c9 o surrealismo em marcha, depois de 45 anos de cria\u00e7\u00e3o do movimento pelas m\u00e3os de Andr\u00e9 Breton, Guillaume Apollinaire e outros. No eterno desconstruir da arte para gerar mais arte. <br>A intimidade compuls\u00f3ria que convidados e anfitri\u00f5es compartilhavam no confinamento parecia invadida por um apocal\u00edptico anjo exterminador (a refer\u00eancia b\u00edblica encontra-se no t\u00edtulo), que poria fim aos seus freios internos, \u00e0 sua repress\u00e3o, derrubando a barreira da censura e exterminando sua for\u00e7a para reprimir seus impulsos. Atrav\u00e9s do fant\u00e1stico e do sobrenatural, o diretor lan\u00e7a o seu olhar cr\u00edtico e agudo sobre o comportamento do homem em sociedade, apontando o individualismo, o ego\u00edsmo, a crueldade, a fraqueza, a hipocrisia e outros monstros internos que o homem esconde atr\u00e1s de sua m\u00e1scara. <br>O cr\u00edtico e cineasta franc\u00eas Fran\u00e7ois Truffaut achava que Bu\u00f1uel se divertia desprezando as pessoas. Eu acho que nutria um profundo desprezo pela aristocracia espanhola, inserida na monarquia, na ditadura franquista, na Igreja Cat\u00f3lica, na burguesia expelida desse meio a t\u00edtulo de renova\u00e7\u00e3o. Bu\u00f1uel afirmou posteriormente que gostaria de ter ido ainda mais longe com a trama e que, na \u00e9poca, se imp\u00f4s uma censura. Segundo o diretor, se pudesse realizar o filme novamente, &#8220;deixaria os personagens presos um m\u00eas at\u00e9 que eles praticassem o canibalismo&#8221;. <br>\u201cA moral burguesa \u00e9, para mim, uma imoralidade contra a qual h\u00e1 de se lutar; esta moral que se baseia em nossas institui\u00e7\u00f5es sociais mais injustas como o s\u00e3o a religi\u00e3o, a p\u00e1tria, a fam\u00edlia e a cultura, em suma, o que se denomina os pilares da sociedade&#8221; &#8211; palavras de Luis Bu\u00f1uel. <\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Bu\u00f1uel (1900-1983), o pai do surrealismo no cinema, estudou num col\u00e9gio de jesu\u00edtas, cuja influ\u00eancia se faria sentir para o resto de sua vida. Com a adolesc\u00eancia, tornou-se anticlerical e ateu, sendo expulso do col\u00e9gio em 1915. Nele sempre primaram a rebeldia e o inconformismo. 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