﻿{"id":106228,"date":"2021-07-26T00:05:00","date_gmt":"2021-07-26T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=106228"},"modified":"2023-05-12T19:25:33","modified_gmt":"2023-05-12T22:25:33","slug":"homem-bomba-camicase-e-haraquiri-seriam-considerados-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/homem-bomba-camicase-e-haraquiri-seriam-considerados-suicidio\/","title":{"rendered":"HOMEM-BOMBA, CAMICASE E HARAQUIRI SERIAM CONSIDERADOS SUIC\u00cdDIO?"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\">\n<p>Homem-bomba, camicase, haraquiri, embora impliquem na pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o, podem ser considerados como uma recusa a continuar a viver? Quando s\u00e3o provenientes de a\u00e7\u00f5es perpetradas contra um alvo espec\u00edfico ou determinado objetivo em que o indiv\u00edduo perde a vida ao concretizar o ataque ou ao se violentar, sendo essa morte crucial e desejada pelo respons\u00e1vel. Os motivos concernentes a essas variantes de ataque contra si mesmo correlacionam-se mais a um sacrif\u00edcio ou mart\u00edrio e s\u00e3o diametralmente opostos aos que levam algu\u00e9m a tirar sua pr\u00f3pria vida por total incompatibilidade e inaceitabilidade das condi\u00e7\u00f5es a que estamos sujeitos para conviver entre nossos semelhantes.<br>Ainda assim, existe alguma confus\u00e3o entre os termos suic\u00eddio, sacrif\u00edcio e mart\u00edrio. O suic\u00eddio caracteriza o ato de erradicar sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e o \u00fanico prop\u00f3sito \u00e9 o de alcan\u00e7ar s\u00f3, somente s\u00f3, a morte do indiv\u00edduo que o comete. No entanto, significa o sacrif\u00edcio de sua pr\u00f3pria vida se executado em prol do terrorismo ou de destruir o inimigo. J\u00e1 o homem-bomba \u00e9 associado ao mart\u00edrio de sacrificar sua pr\u00f3pria vida pela certeza de ter um lugar reservado no \u201cpara\u00edso\u201d depois da morte e de n\u00e3o ir para o \u201cinferno&#8221;, sendo uma conduta repleta de concep\u00e7\u00f5es religiosas e de f\u00e9, afastando-se assim da defini\u00e7\u00e3o de sacrif\u00edcio.<br>A periferia de Bruxelas, assim como a de Paris e a de Marselha, oferece um grande contingente de jovens descendentes de \u00e1rabes e de mu\u00e7ulmanos que n\u00e3o pertencem ou n\u00e3o se originam dos pa\u00edses de seus pais ou av\u00f3s e tamb\u00e9m n\u00e3o se sentem como pertencentes ou integrados ao lugar onde vivem, por raz\u00f5es culturais e socioecon\u00f4micas. O terrorismo propiciou a esses jovens uma nova express\u00e3o para sua agressividade, a despeito de muitos deles j\u00e1 terem um passado de criminoso. O Estado Isl\u00e2mico \u00e9 uma excelente oportunidade para eles conquistarem autoestima, tornando-os importantes e famosos. Ainda que isso lhes custe a vida terrena, parece-lhes compensador a conquista do Para\u00edso Eterno, l\u00e1 entrando como m\u00e1rtires &#8211; um desfecho glorioso.<br>O Estado Isl\u00e2mico se lan\u00e7ou como grupo guerrilheiro em sua campanha para criar um califado dentro das fronteiras nacionais dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos. Num arco que se estende da Indon\u00e9sia, a maior popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana do mundo, no Sudeste Asi\u00e1tico, at\u00e9 a Tun\u00edsia, no Norte da \u00c1frica, alcan\u00e7ando tamb\u00e9m a Nig\u00e9ria, assim como do Oriente M\u00e9dio at\u00e9 a Europa Ocidental. Atraindo para si pautas nacionais diversas, de grupos locais que passam a integrar sua franquia: \u201cQuanto mais nos prenderem e matarem, mais de n\u00f3s surgir\u00e3o\u201d.<br>Os primeiros terroristas suicidas que explodiam o pr\u00f3prio corpo surgiram entre os s\u00e9culos XIV e XVI, quando o Imp\u00e9rio Turco-Otomano vivia um per\u00edodo de expans\u00e3o. Uma das armas de seu Ex\u00e9rcito eram os guerreiros suicidas, que se precipitavam contra fortifica\u00e7\u00f5es ou linhas de batalha do inimigo.  Na sequ\u00eancia, vieram os anarquistas da R\u00fassia czarista em 1881, quando Ignaty Grinevitsky conseguiu, enfim, assassinar o czar, aproximando-se de Alexandre II e atirando uma pequena bomba ao ch\u00e3o, fazendo com que o explosivo detonasse. A a\u00e7\u00e3o custou a vida de Grinevitsky, que se tornou o primeiro homem-bomba oficial da Hist\u00f3ria.<br>O ex\u00e9rcito japon\u00eas fez uso de outra modalidade de homens-bomba, ao treinar camicases em 1944: os pilotos que dirigiam avi\u00f5es carregados de explosivos com a miss\u00e3o de realizar ataques suicidas contra os navios dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Volunt\u00e1rios induzidos pela cultura militar que predominava no Jap\u00e3o antes da bomba at\u00f4mica, acreditando em um ideal de morte honrada. Se questionados coletivamente se iriam ou n\u00e3o se voluntariar, todos imediatamente davam um passo \u00e0 frente, pois caso n\u00e3o se submetessem, se cobririam de vergonha e seriam punidos.<br>Muito embora a express\u00e3o \u201chomem-bomba\u201d e a populariza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica estejam mais relacionadas aos conflitos do Oriente M\u00e9dio. A utiliza\u00e7\u00e3o de homens-bomba como se conhece hoje surgiu em 1983, no L\u00edbano, em edif\u00edcios que alojavam militares dos Estados Unidos e da Fran\u00e7a, m\u00e9todo esse empregado pelo Hezbollah. Primeiramente, direcionado apenas a alvos militares, sem a inten\u00e7\u00e3o de matar civis. Em 1994, grupos palestinos como o Hamas, deliberadamente come\u00e7aram a se valer de homens-bomba contra Israel. Os civis, ent\u00e3o, se tornaram definitivamente alvos dos ataques suicidas, como meio convincente para transmitir medo a toda a popula\u00e7\u00e3o israelense. Era a jihad, a guerra santa contra os inimigos do Isl\u00e3.<br>Grandes organiza\u00e7\u00f5es terroristas como a Al-Qaeda e o Estado Isl\u00e2mico ficaram conhecidas por utilizar homens-bomba em suas miss\u00f5es. A Al-Qaeda extrapolou por completo ao jogar dois avi\u00f5es repletos de passageiros contra as torres g\u00eameas do World Trade Center, em Nova York, e mais outro avi\u00e3o sobre o Pent\u00e1gono, no famoso 11 de Setembro de 2001. No Afeganist\u00e3o, os talib\u00e3s se insurgiram numa recep\u00e7\u00e3o de casamento e puseram fim \u00e0 expectativa de felicidade do casal e das fam\u00edlias, escondendo explosivos nos turbantes.  Contudo, o pa\u00eds mais atingido por estes ataques foi o Iraque, desde a guerra contra os Estados Unidos (2003-2012), legando o paradoxo: embora a maior parte das investidas terroristas seja feita em nome do Isl\u00e3, a maioria das pessoas feridas e mortas por estes ataques \u00e9 mu\u00e7ulmana.<br>Se os homens-bomba n\u00e3o s\u00e3o movidos por motiva\u00e7\u00f5es pessoais, for\u00e7oso assinalar que tampouco s\u00e3o m\u00e1rtires. J\u00e1 que m\u00e1rtires n\u00e3o est\u00e3o implicados em  causar danos em outras pessoas. E sim submetidos a supl\u00edcios ou torturas e capazes de sacrificar a pr\u00f3pria vida para levar a cabo alguma miss\u00e3o. Embora ambas as conceitua\u00e7\u00f5es carreguem no seu ventre a ideia de autosacrif\u00edcio por uma causa. No entanto, a concep\u00e7\u00e3o de mart\u00edrio \u00e9 bastante utilizada pelas comunidades e organiza\u00e7\u00f5es \u00e0s quais os homens-bomba pertencem como uma forma de incentivar e justificar moralmente suas a\u00e7\u00f5es.<br>O estado mental do terrorista suicida parece similar ao de um indiv\u00edduo que queira se suicidar, mas na maior parte dos casos os bombistas suicidas n\u00e3o s\u00e3o suicidas e est\u00e3o completamente conscientes de seus atos, cuja miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 morrer, e sim matar outros. O fato deles abdicarem das suas vidas por uma grande causa em que acreditam, n\u00e3o os faz social e religiosamente odiados pela sua fraqueza e viola\u00e7\u00e3o das regras de Deus, mas os far\u00e1 her\u00f3is aos olhos das comunidades e m\u00e1rtires segundo sua ideologia. O sentimento de humilha\u00e7\u00e3o, desonra, injusti\u00e7a ou a falta de direitos que deviam possuir s\u00e3o os motivadores mais fortes para a concretiza\u00e7\u00e3o dos ataques suicidas.<br>O haraquiri surgiu no Jap\u00e3o em meados do s\u00e9culo XII, generalizando-se at\u00e9 1868, quando sua pr\u00e1tica foi oficialmente proibida. Refere-se ao ritual suicida reservado \u00e0 classe guerreira, especialmente o samurai, obedecendo a um cerimonial bastante elaborado e executado na frente de espectadores. O m\u00e9todo de execu\u00e7\u00e3o consistia num corte horizontal no abd\u00f4men, abaixo do umbigo, efetuado com uma faca partindo do lado esquerdo e cortando-o at\u00e9 ao lado direito, deixando assim as v\u00edsceras expostas como forma de mostrar pureza de car\u00e1ter. Se as for\u00e7as assim o permitissem, era realizado outro corte puxando a l\u00e2mina para cima, prolongando o primeiro corte ou iniciando um novo ao meio desse. Terminado o corte, se ainda estivesse vivo, o samurai partia para a decapita\u00e7\u00e3o &#8211; o cl\u00edmax.<br>Tratando-se de um processo extremamente lento e doloroso de suic\u00eddio, o seppuku (como no Jap\u00e3o \u00e9 conhecido) foi utilizado como m\u00e9todo de demonstrar coragem, autocontrole e forte determina\u00e7\u00e3o, caracter\u00edsticos em um samurai. Consideravam a sua vida como uma entrega \u00e0 honra de morrer gloriosamente, rejeitando cair nas m\u00e3os dos seus inimigos, ou como forma de pena de morte para expiar a desonra frente a um crime, delito ou qualquer outra ignom\u00ednia. <br>Os japoneses davam mais import\u00e2ncia \u00e0 paz da mente e \u00e0 honra em sua exist\u00eancia do que uma vida longa. Com a aceita\u00e7\u00e3o do budismo e dos seus respectivos conceitos de transitoriedade da natureza da vida e a gl\u00f3ria da morte, o desenvolvimento do pensamento em torno do haraquiri foi se tornando poss\u00edvel. Ao contr\u00e1rio das religi\u00f5es crist\u00e3s, n\u00e3o traziam o estigma do pecado atrelado ao ato de se suicidar. Desta forma, o suic\u00eddio chegava a ser visto como um meio adequado para resolver determinadas situa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sendo considerado um ato de desespero, mas sim de rigorosa abnega\u00e7\u00e3o e lucidez. A for\u00e7a de vontade exigida para tirar a pr\u00f3pria vida expressava orgulho, revidando o suposto ultraje e afastando o fracasso.<br>No haraquiri, a morte pode at\u00e9 mesmo ser lament\u00e1vel, mas o suic\u00eddio \u00e9 diferente. Aqueles que se submetiam \u00e0 morte volunt\u00e1ria por motivos nobres como amor, honra ou patriotismo exerciam fasc\u00ednio. Para um samurai, a perda da honra era inaceit\u00e1vel. Prefer\u00edvel encerrar seu ciclo de vida prematuramente do que v\u00ea-lo maculado sob o peso de qualquer indignidade. O que significava que poderia terminar os seus dias com os seus erros apagados e a sua reputa\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas intacta como tamb\u00e9m engrandecida. Apenas atrav\u00e9s de tal gesto o samurai poderia provar a sua retid\u00e3o moral. No campo de batalha, o suic\u00eddio demonstrava que o guerreiro havia lutado com bravura e merecia uma morte honrada. Superando o medo da morte, o samurai vencia o grande enigma da Humanidade.<br>Um dos \u00faltimos casos mais conhecidos de haraquiri, t\u00e3o ruidoso quanto procurou-se abafar, envolveu v\u00e1rios oficiais militares e civis que cometeram o ato no final da Segunda Guerra Mundial, em car\u00e1ter de epidemia, sem ningu\u00e9m haver combinado, em face do pren\u00fancio da derrota fragorosa que j\u00e1 se avizinhava e das bombas at\u00f4micas, lan\u00e7adas em 6 e 9 de agosto de 1945 em Hiroshima e Nagasaki. O que for\u00e7ou a rendi\u00e7\u00e3o japonesa e os Estados Unidos transferirem o \u00f4nus do n\u00famero de mortes incalcul\u00e1vel para o Jap\u00e3o, ao dispensar as tropas americanas de invadir e ocupar o pa\u00eds por terra.<br>Cumulando os japoneses de vergonha e humilha\u00e7\u00e3o por terem sido alvos de armas at\u00f4micas pela primeira vez na Hist\u00f3ria da Humanidade, que os fez se curvar tal como o faziam diante do imperador Hirohito, quando ele anunciou a rendi\u00e7\u00e3o pelo r\u00e1dio. A primeira vez que a popula\u00e7\u00e3o japonesa escutava a voz do Imperador. O que os levou a enterrar em definitivo o haraquiri, dentre outras tradi\u00e7\u00f5es milenares igualmente sepultadas, e virar a p\u00e1gina da Hist\u00f3ria. Para evitar que o Jap\u00e3o se tornasse uma caricatura de si mesmo, como tantos outros imp\u00e9rios no passado assim que entraram em decad\u00eancia.<br>O suic\u00eddio como um meio nobre de expiar as emo\u00e7\u00f5es de culpa, vexame e sentimento de inferioridade.<\/p>\n\n\n\n<p>Fontes:<\/p>\n\n\n\n<p>Site Wikip\u00e9dia de 12\/04\/2021, t\u00edtulo da mat\u00e9ria: ATAQUE SUICIDA. <\/p>\n\n\n\n<p>Dispon\u00edvel em:<br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ataque_suicida\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ataque_suicida<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><br>Site Wikip\u00e9dia de 26\/04\/2021, t\u00edtulo da mat\u00e9ria: KAMIKAZE. <\/p>\n\n\n\n<p>Dispon\u00edvel em:<br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Kamikaze\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Kamikaze<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><br>Site Wikip\u00e9dia de 03\/05\/2021, t\u00edtulo da mat\u00e9ria: SEPPUKU. <\/p>\n\n\n\n<p>Dispon\u00edvel em:<br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Seppuku\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Seppuku<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homem-bomba, camicase, haraquiri, embora impliquem na pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o, podem ser considerados como uma recusa a continuar a viver? 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