﻿{"id":106277,"date":"2021-08-09T00:18:00","date_gmt":"2021-08-09T03:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/?p=106277"},"modified":"2023-05-12T19:25:06","modified_gmt":"2023-05-12T22:25:06","slug":"a-esperanca-prevalecendo-sobre-o-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/a-esperanca-prevalecendo-sobre-o-suicidio\/","title":{"rendered":"A ESPERAN\u00c7A PREVALECENDO SOBRE O SUIC\u00cdDIO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\">\n<p>Vou me debru\u00e7ar sobre a biografia de Hannah Arendt, escrita por Ann Heberlein, no cap\u00edtulo 11, \u201cO significado da esperan\u00e7a: sobre o suic\u00eddio\u201d.<br>Hannah Arendt cogitou tirar sua pr\u00f3pria vida enquanto presa no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Gurs, na Fran\u00e7a. A lama, os ratos, a fome constante, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 epidemias, os alojamentos apertados e sombrios, o cheiro importuno dos corpos das outras mulheres. Mas n\u00e3o foi isso que a fez pensar em suic\u00eddio. Era algo maior e mais complicado: o mundo havia desembocado numa conjuntura sem alternativa ao tempo do nazismo, durante os anos 1930. E quer mais raz\u00e3o para n\u00e3o continuar vivendo do que ficar encerrado num campo de concentra\u00e7\u00e3o? Cujo comando periodicamente enviava seres humanos aos magotes para morrerem nas c\u00e2maras de g\u00e1s e seus corpos sendo incinerados.  <br>E o que acontece ao homem ou mulher que n\u00e3o nutre mais esperan\u00e7as? Finda por desistir. Todavia, a capacidade de imaginar uma exist\u00eancia al\u00e9m da realidade presente \u00e9 decisiva para a sobreviv\u00eancia do ser humano. Apenas quem possui o dom da esperan\u00e7a consegue vencer atrocidades e barbarismo.<br>Mas o problema n\u00e3o consiste nas circunst\u00e2ncias tornarem a vida insuport\u00e1vel, mas sim faltar sentido ou prop\u00f3sito. Mesmo para algu\u00e9m sem f\u00e9 ou sem religi\u00e3o ou mesmo ateia, como Hannah, e, portanto, n\u00e3o havendo Deus que a proibisse ou qualquer argumenta\u00e7\u00e3o de ordem teol\u00f3gica ou espiritual ou atinente \u00e0 cultura judaica que a impedisse de se suicidar.<br>Na condi\u00e7\u00e3o em que ela se encontrava encerrada num campo de concentra\u00e7\u00e3o, a morte era altamente palp\u00e1vel, como amea\u00e7a ou como possibilidade &#8211; o que a fez considerar, anos mais tarde: \u201cSe a hist\u00f3ria do mundo n\u00e3o fosse t\u00e3o perversa, seria maravilhoso viver\u201d. A conclus\u00e3o a que chegou foi que o suic\u00eddio seria uma solu\u00e7\u00e3o ou uma resposta se apenas se resumisse a um problema individual. Mas a situa\u00e7\u00e3o de Hannah e dos outros detidos era consequ\u00eancia de profundas mudan\u00e7as pol\u00edticas no planeta de causas ideol\u00f3gicas, n\u00e3o mais podendo subsistir colonialismo, escravid\u00e3o, monarquia, imp\u00e9rio, aristocracia, nobres, sangue azul, mas surgindo no lugar o nazismo e o fascismo.<br>Hannah Arendt, judeus, comunistas, prisioneiros pol\u00edticos, eslavos, ciganos, testemunhas de Jeov\u00e1 e homossexuais formavam a coletividade n\u00e3o ariana no campo de concentra\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que surgiu a proposta de suic\u00eddio coletivo como forma de protesto. Mas a morte corresponderia a exatamente fazer o jogo do opressor. Tampouco repercutiu em face de predominar no ser humano a preserva\u00e7\u00e3o da vida, a vontade de permanecer vivo e de lutar, o que o desperta para a realidade a ser enfrentada.<br>A esperan\u00e7a parece ser decisiva para a resist\u00eancia do ser humano ao mal, a \u00fanica arma na luta contra o impulso de desistir. \u00c9 a capacidade de imaginar algo diferente, algo al\u00e9m do presente, num tempo e num lugar melhores do que aquele em que voc\u00ea se encontra.<br>O que fez Hannah Arendt aguentar a intromiss\u00e3o da morte e do mal entre ela e a vida que queria viver? Como ser\u00e1 que ela sobreviveu ao campo de concentra\u00e7\u00e3o e ao suic\u00eddio?<br>Foi sua capacidade de temer o pior, a desconfian\u00e7a, que por diversas vezes abriu seus olhos e salvou sua vida. Ela nunca deu de ombros, torcendo para que as coisas se resolvessem sozinhas. N\u00e3o acreditava que aquela sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel que percorria seu corpo de cima a baixo, machucando sua alma, desapareceria dentro do campo de concentra\u00e7\u00e3o. Nunca foi ing\u00eanua a tal ponto. Possu\u00eda o dom de combinar a disposi\u00e7\u00e3o de esperar pelo pior com uma f\u00e9 inabal\u00e1vel em seu pr\u00f3prio poder de influenciar sua vida. N\u00e3o se deixando ser sugada pela desesperan\u00e7a, nem muito menos levada pelo acaso.<br>Em 1960, Adolf Eichmann foi capturado na cidade de Buenos Aires pelo Mossad (Instituto para Intelig\u00eancia e Opera\u00e7\u00f5es Especiais de Israel) e levado at\u00e9 Jerusal\u00e9m, para o que deveria ser o mais midi\u00e1tico julgamento de um nazista desde o tribunal de Nuremberg. Apontado como um monstruoso carrasco nazista, respons\u00e1vel pelo planejamento e operacionalidade da chamada \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d, e um dos principais respons\u00e1veis pela deporta\u00e7\u00e3o dos judeus europeus para os campos de concentra\u00e7\u00e3o durante o Holocausto.<br>Presente ao julgamento, o que redundou no livro \u201cEichmann em Jerusal\u00e9m\u201d, Hannah Arendt considerou que ele n\u00e3o possu\u00eda um hist\u00f3rico ou tra\u00e7os antissemitas e n\u00e3o apresentava caracter\u00edsticas de um car\u00e1ter distorcido ou doentio. Ele agiu conforme o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita l\u00f3gica burocr\u00e1tica. Cumpria ordens sem question\u00e1-las, com o maior zelo e efici\u00eancia, sem refletir sobre o bem ou o mal que pudessem causar.<br>\u00c9 justamente nesse ponto que Hannah Arendt descobre a banalidade do mal. Nada que se relacione a algo demon\u00edaco ou mal premeditado ou simplesmente ressignificar o desejo. Numa mescla brilhante de jornalismo e reflex\u00e3o filos\u00f3fica, uma das maiores pensadoras do s\u00e9culo XX investiga a capacidade do Estado de igualar o exerc\u00edcio da viol\u00eancia homicida ao mero cumprimento da atividade burocr\u00e1tica. Como condenar um funcion\u00e1rio p\u00fablico, honesto e obediente, cumpridor de metas, que n\u00e3o fizera mais do que agir conforme a ordem legal vigente na Alemanha daquela \u00e9poca?<br>Hannah analisa o Mal quando este atinge o tecido de segmentos da sociedade ou o pr\u00f3prio Estado. O Mal n\u00e3o seria inerente \u00e0 natureza intr\u00ednseca dos seres humanos ou j\u00e1 nasceria impregnado em nosso esp\u00edrito. O Mal \u00e9 pol\u00edtico e hist\u00f3rico, engendrado por homens e se manifestando apenas onde encontra espa\u00e7o institucional para isso. Em virtude de uma escolha pol\u00edtica.<br>A causa disso \u00e9 a dificuldade em se lan\u00e7ar numa reflex\u00e3o mais ampla ou mesmo articular o pensamento afim, a prefer\u00eancia pelo raso, abdicando do esp\u00edrito humanit\u00e1rio que alarga o conhecimento. O nazismo sempre dependeu da mediocridade, \u00e0 espreita de cidad\u00e3os que n\u00e3o conseguiam ir muito longe para refletir sobre o papel que desempenhavam na sociedade, deixando-se levar pela lavagem cerebral do rolo compressor hitlerista. Em suma, quanto mais a pessoa n\u00e3o se aprofundar e optar por se manter \u00e0 superf\u00edcie, mais prov\u00e1vel ceder ao mal. Por n\u00e3o se exercer, se trabalhar e sequer elaborar seu esp\u00edrito cr\u00edtico. E, ao n\u00e3o assumir a iniciativa pr\u00f3pria de seus atos, acabou reproduzindo a monstruosidade at\u00edpica dos crimes nazistas em t\u00e3o pouco tempo.<br>Basta, portanto, resistirmos \u00e0 banalidade do mal ao n\u00e3o nos permitirmos ser arrastados pela platitude e ao car\u00e1ter dos sem express\u00e3o e med\u00edocres, principiando a pensar em abra\u00e7ar outra dimens\u00e3o que n\u00e3o o horizonte de sua vida cotidiana.<br>A tese dif\u00edcil de aceitar \u00e9 de s\u00f3 conseguir enxergar antissemita fan\u00e1tico em nazistas que n\u00e3o pertenciam \u00e0 cadeia de comando, que s\u00f3 teriam na vida o prop\u00f3sito patol\u00f3gico de exterminar judeus, e nunca a ambi\u00e7\u00e3o por progredir em suas carreiras e subir na vida, a despeito do que o nazismo fazia \u00e0 sua volta, fingindo que nada estava acontecendo.<br>Nosso mundo ainda \u00e9 bem capaz de produzir muitos Eichmanns. Sem que sejam percebidos como tal, gente terrivelmente normal, pe\u00e7as decisivas para arquitetar uma m\u00e1quina que se aproprie das mentes da coletividade, sendo necess\u00e1ria uma permanente vigil\u00e2ncia para garantir a defesa e a preserva\u00e7\u00e3o de nossa consci\u00eancia.<br>O que n\u00e3o perder\u00edamos se Hannah Arendt tivesse se suicidado no campo de concentra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: HEBERLEIN, Ann. Arendt. Entre o amor e o mal: uma biografia. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<br>ARENDT, Hannah. \u201cEichmann em Jerusal\u00e9m\u201d. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2000.<br>Site Wikip\u00e9dia de 09\/06\/2021, t\u00edtulo da mat\u00e9ria: EICHMANN EM JERUSAL\u00c9M. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eichmann_em_Jerusal%C3%A9m\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eichmann_em_Jerusal%C3%A9m<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou me debru\u00e7ar sobre a biografia de Hannah Arendt, escrita por Ann Heberlein, no cap\u00edtulo 11, \u201cO significado da esperan\u00e7a: sobre o suic\u00eddio\u201d.Hannah Arendt cogitou tirar sua pr\u00f3pria vida enquanto presa no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Gurs, na Fran\u00e7a. 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