﻿{"id":2027,"date":"2002-10-22T19:34:02","date_gmt":"2008-05-12T20:30:17","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:21:53","modified_gmt":"2023-05-18T01:21:53","slug":"pedro-o-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/pedro-o-grande\/","title":{"rendered":"PEDRO, O GRANDE"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>No fim do s\u00e9culo XVII, a dinastia dos Romanov deu \u00e0 R\u00fassia um czar t\u00e3o poderoso quanto Ivan, o Terr\u00edvel, mas sem seu esp\u00edrito destruidor. Era Pedro, o Grande, o pai da R\u00fassia moderna. De inf\u00e2ncia dif\u00edcil, como Ivan, assistiu a uma luta pelo poder seguida de mortes nos corredores do Kremlin, quando seu pai morreu. Obrigando-o a se refugiar nos arredores de Moscou na sua maioridade, pois Sofia, sua irm\u00e3 mais velha e tutora, n\u00e3o lhe passou o cetro, ambicionava ser czarina.<br \/>Ao percorrer o campo, aproveitou seu tempo livre observando e adquirindo conhecimentos pr\u00e1ticos, como construir uma casa em alvenaria, consertar sapatos, extrair dentes cariados e mesmo fundir um canh\u00e3o. Ao descobrir no dep\u00f3sito imperial um barco \u00e0 vela, de proa pontuda e quilha arredondada, diferente daqueles com fundo chato que navegavam nos rios da R\u00fassia, e ao ser ensinado a manobr\u00e1-lo por um holand\u00eas construtor de barcos, nasceu a\u00ed seu amor pelo mar que iria durar a vida inteira. O que pesou na cria\u00e7\u00e3o da Marinha, anos depois, ao dotar o pa\u00eds com a sua primeira frota.<br \/>Medindo mais de 2 metros, Pedro tornou-se um verdadeiro gigante provido de uma for\u00e7a legend\u00e1ria ao dobrar pesados pratos de prata e abater \u00e1rvores a machadadas em segundos. Seu apetite era imenso, em refei\u00e7\u00f5es sem cerim\u00f4nias na companhia de artistas ingleses, escoceses, su\u00ed\u00e7os, dinamarqueses, que viviam em Moscou. Foi o maior incentivador da vodca ao organizar campeonatos, tomava 3 litros de uma s\u00f3 vez.<br \/>Ao se aperceber de que a R\u00fassia era socialmente e tecnicamente atrasada, resolveu abrir uma janela para o Ocidente, j\u00e1 como czar, a fim de ingressar no pa\u00eds id\u00e9ias europ\u00e9ias de progresso. N\u00e3o sem antes recolher a irm\u00e3 Sofia aos costumes no Convento das Carmelitas. Empreendeu um p\u00e9riplo de 18 meses pela Europa, em que se fez passar por marinheiro e trabalhar como carpinteiro num estaleiro da Holanda, aprendeu a retalhar a gordura da baleia, estudou anatomia e cirurgia observando disseca\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres, visitou museus e galerias de arte. Ao assistir a sess\u00f5es do Parlamento das galerias dos visitantes, o governo ingl\u00eas lhe ofertou a morada de um aristocrata, no que retribuiu com m\u00f3veis quebrados e retratos utilizados como alvos de tiro. Pedro indenizou o propriet\u00e1rio com um enorme diamante bruto envolto num papel sujo.<br \/>Ao surgirem not\u00edcias de que inimigos das novas id\u00e9ias queriam dep\u00f4-lo, retornou com a revolta j\u00e1 subjugada, o que n\u00e3o foi suficiente para conter sua f\u00faria. Fez queimar no espeto todos os prisioneiros, um por um, e, na aproxima\u00e7\u00e3o da morte, cortava-lhes a cabe\u00e7a para exp\u00f4-las em pra\u00e7a p\u00fablica e dar exemplo. O que n\u00e3o impediu de come\u00e7ar simbolicamente o processo de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ao ordenar a todos os homens que desbastassem o comprido da barba, com suas pr\u00f3prias m\u00e3os cortava a barba dos nobres da corte. Os longos h\u00e1bitos dos homens deveriam dar lugar aos sobretudos e as damas abandonar seus v\u00e9us para comparecer nas recep\u00e7\u00f5es com vestidos justos e bem decotados, como se usava na Fran\u00e7a. Os filhos da aristocracia seriam confiados a governantas que os familiarizariam com o franc\u00eas e o alem\u00e3o.<br \/>Impedido pelos turcos de se estabelecer no Mar Negro, Pedro se convenceu da urg\u00eancia de se abrir \u00e0 cultura e t\u00e9cnica ocidentais. Procurou um outro porto ao norte, \u00e0 margem do B\u00e1ltico, e come\u00e7ou a sonhar com a nova capital, ao tomar emprestado a baioneta de um dos soldados e marcar com uma cruz no terreno da futura fortaleza de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo.<br \/>Buscou nos Urais, na riqueza de seus recursos naturais, o tesouro de pedras preciosas que ergueria seu imp\u00e9rio \u00e0 altura de um reino burgu\u00eas distanciado do r\u00fastico que imperava na corte, do ortodoxamente rudimentar. \u00c0s novas terras conquistadas, crescia o interesse na demanda por j\u00f3ias e na acumula\u00e7\u00e3o que reluzia o esplendor das monarquias absolutistas dos anos 1500 a 1700, quando a explora\u00e7\u00e3o atingiu seu \u00e1pice.<br \/>Facilitou a constru\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas e escolas para ensinar matem\u00e1tica, navega\u00e7\u00e3o, astronomia, medicina, geografia, filosofia e pol\u00edtica. Lan\u00e7ou o primeiro jornal russo. Imprimiu 600 obras e construiu um teatro em Moscou, ainda de p\u00e9 na Pra\u00e7a Vermelha. A convic\u00e7\u00e3o dele era a de que o mal resultava da ignor\u00e2ncia, o conhecimento possu\u00eda um efeito libertador ao forjar uma nova alma, sem desconfiar que contribu\u00eda decisivamente para o in\u00edcio de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias cr\u00edticas que marcaram a R\u00fassia na revolta contra a injusti\u00e7a e a opress\u00e3o.<br \/>A armada foi reformada depois de os russos perderem 10 mil homens e a maior parte da artilharia contra os suecos, bem menos numerosos. Imediatamente, mandou preparar soldados para batalhas e n\u00e3o para desfiles, e providenciou a troca de lan\u00e7as, espadas e alabardas por fuzis com pedras. Desceu sinos e fez subir canh\u00f5es.<br \/>Em 1709, os suecos, que vinham de invadir a Pol\u00f4nia e a Sax\u00f4nia, voltaram \u00e0 carga visando a Ucr\u00e2nia, quando, em Poltava, se desenrolou uma das batalhas mais decisivas da hist\u00f3ria da R\u00fassia. Aliada aos sax\u00f5es, poloneses e dinamarqueses, afastou o perigo de uma domina\u00e7\u00e3o sueca sobre a Europa do Norte e territ\u00f3rios b\u00e1lticos para sempre. A vit\u00f3ria permitiu a conquista da janela sobre o Ocidente, o B\u00e1ltico assegurava uma via de comunica\u00e7\u00e3o utiliz\u00e1vel durante todo o ano com o resto da Europa. Pedro j\u00e1 havia come\u00e7ado a construir um porto ao qual se devia dar o nome de seu santo padroeiro, portanto, o seu. Foi chamado de S\u00e3o Petersburgo.<br \/>S\u00e3o Petersburgo nasceu de um sonho extravagante de Pedro, o Grande, fazendo-a cultivar um ar de superioridade sobre sua grande irm\u00e3, Moscou, ao dar as costas para a \u00c1sia, de caso pensado com a Europa. O lugar escolhido parecia ser pior do que se podia imaginar, um p\u00e2ntano na desembocadura do Neva, l\u00e1 onde o rio alcan\u00e7a o golfo da Finl\u00e2ndia. Pedro mandou vir da Fran\u00e7a e da It\u00e1lia in\u00fameros arquitetos e artistas para construir uma cidade. Com a maior urg\u00eancia, ela cresceu sobre as ossadas de milhares de servos, de prisioneiros de guerra, recrutas requisitados do ex\u00e9rcito, tantas foram as mortes por causa do \u00e1rduo trabalho em cavar canais e secar p\u00e2ntanos para fixar as funda\u00e7\u00f5es.<br \/>Ao fim de 9 anos, ergueram-se 25 mil casas, Pedro, o Grande, a tornou capital da R\u00fassia. Com uma rede de canais como os de Amsterd\u00e3 e grandes avenidas arborizadas, a altura das casas variava segundo a classe social de seus ocupantes. Um andar com quatro janelas e uma clarab\u00f3ia, para os comuns, e dois n\u00edveis com sacada, para os ricos comerciantes.<br \/>Com o intuito de se vingar das amea\u00e7as sofridas na puberdade em Moscou, e tomado por um maligno prazer, removeu a corte real em 1712 para os p\u00e2ntanos ainda f\u00e9tidos de S\u00e3o Petersburgo. Deveriam abandonar os castelos moscovitas medievais para construir novas mans\u00f5es, segundo as estritas diretivas arquitet\u00f4nicas do czar, que redesenhava projetos, revisava material de constru\u00e7\u00e3o e adequa\u00e7\u00e3o de est\u00e1tuas e plantas. A ordem era de povoar a cidade com milhares de servos de seus dom\u00ednios.<br \/>Considerando que Moscou era o centro nervoso da Igreja Ortodoxa, Pedro aproveita o ensejo para desvincular a Igreja do Estado. Constr\u00f3i a catedral de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, ao melhor estilo cat\u00f3lico, projetado por arquitetos italianos, e d\u00e1 largos passos na aproxima\u00e7\u00e3o com as id\u00e9ias do Ocidente.<br \/>T\u00e3o simples em seus gostos pessoais, comandava o ritmo das constru\u00e7\u00f5es de uma modesta casa em madeira onde se alimentava de ra\u00e7\u00f5es de carne defumada regadas a cerveja, quanto era ambicioso em suas pretens\u00f5es. O Imperador de todas as R\u00fassias, seu novo cognome em 1721, procurou rivalizar com Versalhes ao erigir o pal\u00e1cio de ver\u00e3o Peterhof &#8211; denomina\u00e7\u00e3o alem\u00e3 alterada em 1944 para Petrodvorets -, com magn\u00edficos jardins e chafarizes que permitiam satisfazer sua atra\u00e7\u00e3o por brincadeiras: os esguichos jorravam repentinamente e molhavam os distra\u00eddos enredados em filosofia ou intrigas. Recep\u00e7\u00f5es e bailes de m\u00e1scaras prenunciavam o ingresso da licenciosidade e costumes escandalosos para padr\u00f5es ortodoxos, j\u00e1 que Moscou apenas celebrava um n\u00famero restrito de austeras festas religiosas.<br \/>Foi em Peterhof que o czar teve uma desaven\u00e7a tempestuosa com seu \u00fanico filho, nascido de seu primeiro casamento com uma mulher que nunca amou e que ele encerrou, por fim, num convento. Sua segunda mulher, com a qual viveu 23 anos, era uma camponesa analfabeta, amante de um oficial, que lhe deu 12 filhos, dos quais somente 2 filhas sobreviveram. Alexis, o herdeiro do trono, se converteu num instrumento nas m\u00e3os de conservadores que urdiam a deposi\u00e7\u00e3o de Pedro e da capital.<br \/>Ao responder de forma evasiva a quest\u00f5es que envolviam o poder, o czar acusou seu filho de conspira\u00e7\u00e3o e o fez prisioneiro para obrig\u00e1-lo a entregar sua alma. Pedro morreu sem designar seu sucessor em 1725, em conseq\u00fc\u00eancia de doen\u00e7a contra\u00edda no mergulho nas \u00e1guas geladas do golfo da Finl\u00e2ndia para socorrer pescadores abalroados por geleiras.<br \/>Pedro se preparou para ser n\u00e3o um czar, e sim um soberano \u00e0 altura da na\u00e7\u00e3o ao elevar os seus horizontes, progredindo para explorar intensivamente seus recursos naturais e desenvolver a economia, utilizando-se do engenho da melhor das t\u00e9cnicas e alavancando a cultura da R\u00fassia, de modo a alcan\u00e7ar um patamar de olho na proposta expansionista da Inglaterra. Na certeza de que os benef\u00edcios iriam avan\u00e7ar o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o, sac\u00e1-la do est\u00e1gio de ignor\u00e2ncia que a atrelava a valores ultrapassados inspirados na crueza do estilo t\u00e1rtaro &#8211; espont\u00e2neo, mas rude. Na certeza de aportar uma nova identidade para o povo russo, em p\u00e9 de igualdade com outras monarquias europ\u00e9ias, onde todos, nobreza e servos, se envolveriam nesse arremedo de europeiza\u00e7\u00e3o.<br \/>Pedro faria com que a R\u00fassia deixasse de olhar para o seu umbigo e se permitisse tirar proveito de novas influ\u00eancias que arejassem a ess\u00eancia de sua alma. Foi o czar que mais chegou perto do \u00e2mago do povo, anacronismo paradoxal em se tratando de servos &#8211; tanto que o imperador Pedro II do Brasil o idolatrava procurando seguir seus passos na buc\u00f3lica Petr\u00f3polis. Simplificou o alfabeto russo, atrelado ainda ao grunhir de fonemas e ditongos, e aumentou a possibilidade de aprender, facilitada pela leitura mais f\u00e1cil, e de escrever tudo que j\u00e1 vinha \u00e0 cabe\u00e7a, ao imprimir livros e jornais, retirando a R\u00fassia do atraso medido em termos de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Mal sabia que iria transform\u00e1-la numa na\u00e7\u00e3o altamente intelectualizada que iria virar a p\u00e1gina da Hist\u00f3ria quanto \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.<br \/>Fecundo o fruto de seus esfor\u00e7os de moderniza\u00e7\u00e3o em in\u00fameros campos, contudo, tamb\u00e9m causaram uma ruptura social. A uma nobreza europeizada se opunham camponeses e o clero que resistiam de todas as maneiras a mudan\u00e7as. O fosso iria aumentar meio s\u00e9culo mais tarde sob o reino de uma czarina saliente, Catarina, a Grande<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fim do s\u00e9culo XVII, a dinastia dos Romanov deu \u00e0 R\u00fassia um czar t\u00e3o poderoso quanto Ivan, o Terr\u00edvel, mas sem seu esp\u00edrito destruidor. Era Pedro, o Grande, o pai da R\u00fassia moderna. 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