﻿{"id":2131,"date":"2004-03-28T22:54:50","date_gmt":"2008-05-17T22:57:12","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-11-06T17:21:36","modified_gmt":"2017-11-06T20:21:36","slug":"o-degenerado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-degenerado\/","title":{"rendered":"O DEGENERADO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>O degenerado anda pelas praias sob o pino do sol escaldante que parte o dia ao meio, espiando o vaiv\u00e9m da bola na rede de v\u00f4lei. Cospe constantemente a gosma de sua ess\u00eancia, desconsolado por n\u00e3o poder mais arrebentar o advers\u00e1rio atrav\u00e9s de uma cortada que amarrotasse a sua cara.<br \/>\nSua verdadeira praia era a \u00e1rea de intelig\u00eancia das For\u00e7as Armadas, se n\u00e3o fosse a lata de goiaba em calda com que saciava a fome assassina. Com a mesma afoiteza, puxou o pino da granada em um exerc\u00edcio de guerra e perdeu a m\u00e3o. Pensava na morte da bezerra, nost\u00e1lgico de ditaduras, para ca\u00e7ar pol\u00edticos corruptos que maculam a brasilidade do pa\u00eds e estancar o corrimento da vagina da P\u00e1tria-m\u00e3e, por onde vazam valores morais que constroem nossa identidade.<br \/>\nNa categoria de inv\u00e1lido, cassaram-lhe a voz de comando, transformando em cinzas todos os atributos de poder, sem o que n\u00e3o vale a pena viver. Desmoralizado, resolveu enveredar pelo mundo sadomasoquista, admitindo a contragosto que o prazer extra\u00eddo do exerc\u00edcio de sua moral e autoridade perdeu o leme. Deixou o barco correr, pois nunca foi macho sequer para encarar sua m\u00e3e, que o mantinha no cabresto.<br \/>\nO depravado s\u00f3 atira pelas costas. Infunde temor pelo seu pensamento frio e calculista, torturando mentes necessitadas de abrir-se para algu\u00e9m e expor os sentimentos. Atrai anjos em pleno processo de abastardamento, que se aproximam sorrateiramente reclamando de n\u00e3o terem sido tiradas para dan\u00e7ar, ao apagar das luzes da noitada. Que reacendem o seu desejo babando o contorno de sua boca, sem usar a l\u00edngua, desprendendo um travo de virgindade na saliva.<br \/>\nNatural redobrar a lista de exig\u00eancias ao encargo da mulher. Sem esbo\u00e7ar rea\u00e7\u00e3o e interagir, o gozo n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado enquanto as messalinas n\u00e3o cuspirem na sua cara, esbofetearem-no e o arranharem at\u00e9 a carne viva.<br \/>\nExploram-nas, despudoradamente, por elas n\u00e3o saberem dizer n\u00e3o e jamais arredarem do g\u00eanero de vida que escolheram, avessas a casamentos com pap\u00e9is definidos. Filhos, se vierem, ter\u00e3o de se encaixar no hosp\u00edcio em constru\u00e7\u00e3o. Infligem maus-tratos a quem ousar mold\u00e1-los segundo suas conveni\u00eancias.<br \/>\nConstam do seu seleto card\u00e1pio filmes de persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel, tiro ao alvo, m\u00fasicas de dor-de-cotovelo e sexo pelas manh\u00e3s, quando irrompe a ere\u00e7\u00e3o que afaga o ego de qualquer homem. Tal como a bolsa que cont\u00e9m o test\u00edculo, escroto \u00e9 o ser humano que despreza gestos de generosidade e entrega incondicional. Preferem o voyeurismo de espiar casais com bin\u00f3culo da janela do apartamento, transfigurados no comer o parceiro, a observar a candura do anjo lavando a lou\u00e7a e cuecas sujas.<br \/>\nMant\u00eam oculto o sonho de consumo: travestis. Tamb\u00e9m, como admitir atra\u00e7\u00e3o por um sexo que n\u00e3o \u00e9 fr\u00e1gil? Se, \u00e0 menor provoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se decidem entre surrar ou cobri-los de beijos num abra\u00e7o de tamandu\u00e1. Al\u00e9m do que n\u00e3o cabe brincar com coisa s\u00e9ria e cair na gandaia. Nem se enredar na estupefa\u00e7\u00e3o de, em sendo homens, como conseguem ser mais mulheres do que as pr\u00f3prias?<br \/>\nMas anjos tamb\u00e9m sentem dor na coluna, com o tempo as asas come\u00e7am a pesar. Transformam seu cabelo de m\u00e3e-de-santo em capacetes no estilo homin\u00eddeo. Se cansam do papel de atoladas e lesas. Resolvem se fingir de mortas, desaparecendo p\u00e9 ante p\u00e9. O degenerado custa a dar o bra\u00e7o a torcer, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de condenado \u00e0 morte e o anjo a \u00faltima gra\u00e7a concedida. Para fazer o bem e soprar as ard\u00eancias das feridas que n\u00e3o se cicatrizam. Mesmo \u00e0 merc\u00ea de seu prazer, n\u00e3o o satisfazia, face \u00e0 descomunal fome de querer submet\u00ea-la segundo seu arb\u00edtrio. Para provar que ela \u00e9 sua e de mais ningu\u00e9m.<br \/>\nD\u00e1 in\u00edcio \u00e0 ronda, urdida \u00e0s escondidas dos amigos, para que se preserve a integridade de seu orgulho. Flagra mulheres na dan\u00e7a da noite, anjos de car\u00e1ter libertino. Nos bra\u00e7os de qualquer um que levanta a dama, com o joelho enfiado por entre as pernas, e descobre recantos mais profundos que outros ainda n\u00e3o aportaram.<br \/>\nTroveja a \u00e1ria de uma \u00f3pera que lastima a trai\u00e7\u00e3o e exige respeito com sua esposa, h\u00e1 que preservar a integridade da fam\u00edlia. Santo Antonio, misericordioso, devolve-lhe a m\u00e3o mutilada, em car\u00e1ter provis\u00f3rio, apenas para vibrar tapa-ouvidos em aproveitadores infiltrados e cortar seu rebolado. O clube da luta pede calma e sai de fininho. Para rir l\u00e1 fora do \u00faltimo ot\u00e1rio convertido \u00e0 causa dos bons costumes.<br \/>\nO caminho dos fracos \u00e9 se isolar em guetos, necessitados de solidariedade, a implorar clem\u00eancia, arrependidos de seu trajeto s\u00f3rdido. O degenerado aperta o passo ao se sentir enjaulado e d\u00e1 sua not\u00e1vel colabora\u00e7\u00e3o para o c\u00e2ncer de pulm\u00e3o, ao fumar quatro ma\u00e7os de cigarros por dia. Mas n\u00e3o se livra da mente, anestesiada por entorpecentes que lhe garantem uma sobrevida ao corpo, desde que consiga se abstrair dos pesadelos. As p\u00e1lpebras n\u00e3o se sustentam, denunciam sua falta de apetite e o retrato vivo de v\u00edtima do holocausto existencial.<br \/>\nO degenerado fala sozinho. Com chap\u00e9u de Van Gogh enfiado na cabe\u00e7a, se lembra do seu anivers\u00e1rio. O estado adiantado de vis\u00e3o estr\u00e1bica levou-o a estacionar sobre as previs\u00f5es do ano nascente que, em letras garrafais, anunciam a liberta\u00e7\u00e3o de escravas do amor. N\u00e3o mais ser\u00e3o for\u00e7adas a dizer sim.<br \/>\n&#8211; Quem elas pensam que s\u00e3o? Como \u00e9 que podem fazer uma coisa dessas comigo?<br \/>\nNum quadro de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria, o degenerado desmaia. Enquanto tentam reanim\u00e1-lo, cl\u00ednicos, psiquiatras e enfermeiras decidem, em acalorada roda de debates, encaminh\u00e1-lo logo ao Jardim Bot\u00e2nico. Do exame constatou-se a mudan\u00e7a de forma para algo deteriorado. A passagem de um estado natural a outro, deca\u00eddo. Consideraram-no definhado, tal como a lasca da \u00e1rvore que se desprende do tronco. Murcha, resseca e morre.<br \/>\nConverteu-se em fonte de mat\u00e9ria org\u00e2nica. Finalmente, fez por merecer um lugar na Terra, quando, na qualidade de h\u00famus, deu vida a plantas que nasceram e floresceram.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O degenerado anda pelas praias sob o pino do sol escaldante que parte o dia ao meio, espiando o vaiv\u00e9m da bola na rede de v\u00f4lei. 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