﻿{"id":2151,"date":"2003-01-21T01:17:53","date_gmt":"2008-05-18T01:18:36","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-11-06T17:23:47","modified_gmt":"2017-11-06T20:23:47","slug":"o-songamonga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-songamonga\/","title":{"rendered":"O SONGAMONGA"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>Ela olhou a foto jogada em cima da mesa e escolheu: \u201cquem \u00e9 esse, d\u00ea-me seu telefone\u201d. Mas ele \u00e9 alem\u00e3o e n\u00e3o mora aqui, esclareceram. Num domingo chuvoso e prop\u00edcio, acertaram os primeiros detalhes. Tra\u00e7ou uma linha reta entre Berlim e Rio de Janeiro e o dedo parou em Paris, para a avant-premi\u00e8re da lua-de-mel. Seus sogros logo aprovaram a deporta\u00e7\u00e3o de seu filhinho de 58 anos, o barco encalhara de h\u00e1 muito, as netas votaram a favor do degredo do pai. Tudo sem a sortuda da noiva tomar conhecimento.<br \/>\nEu disse noiva? Uma pin\u00f3ia, correria a vers\u00e3o na Cidade Maravilhosa de uma experi\u00eancia conjugal com prazo de car\u00eancia, morar juntos apenas uma necessidade de baixar custos. Precisariam se conhecer melhor, se o sexo seria feito na poltrona herdada da bisav\u00f3 ou por sobre o tapete de rolhas produzido em s\u00e9rie pelo alternativo Alem\u00e3o.<br \/>\nTodavia, ela j\u00e1 havia vencido o inferno das paix\u00f5es, pensava Jung, \u201cquanto mais predomina a raz\u00e3o cr\u00edtica, mais a vida se empobrece\u201d, fazendo uso da criatividade do brasileiro t\u00edpica em deturpar princ\u00edpios a servi\u00e7o do gozo do prazer de sua \u00e9tica. Fez correr os proclamas, naturaliza\u00e7\u00e3o em curso, casamento em cart\u00f3rio, adeus \u00e0 vida hippie, e os sogros resolveram dar uma for\u00e7a aderindo tamb\u00e9m a Jung, \u201cquanto menos os pais aceitem seus pr\u00f3prios problemas, tanto mais os filhos sofrer\u00e3o pela vida n\u00e3o vivida de seus pais&#8221;.<br \/>\nUma interpreta\u00e7\u00e3o conveniente de quem pretendia tirar proveito e encobrir o avoado do Alem\u00e3o, perdido em sua identidade de n\u00e3o conseguir realizar nunca suas tarefas comezinhas quanto mais enxergar fim nos seus prop\u00f3sitos. Um ser indefeso e confuso necessitante de tutor, sen\u00e3o \u00e0 deriva permaneceria, cujo grau de comprometimento com a realidade do rel\u00f3gio carece de teleguiar-se. O dia seguinte \u00e9 o seu maior desafio, posto que hoje \u00e9 melhor pitar um cigarro, metido em um cal\u00e7\u00e3o bem largo, de p\u00e9s descal\u00e7os em contato com nossos antepassados silv\u00edcolas, a curtir uma cacha\u00e7a e discutir a import\u00e2ncia do eneagrama.<br \/>\nSistema que permite mapear com seguran\u00e7a os tipos psicol\u00f3gicos b\u00e1sicos do ser humano na boa inten\u00e7\u00e3o de nos trazer um sopro de felicidade ao desvincularmos de estrat\u00e9gias que nos limitam no relacionamento com o mundo e com as pessoas, gerando atitudes mec\u00e2nicas e repetitivas.<br \/>\nMas o eneagrama n\u00e3o solucionou o dote acordado por conta de sua remo\u00e7\u00e3o para a capitania do apartamento de sua agora esposa. Esfuma\u00e7ou-se no trajeto atrav\u00e9s de saqueadores de destinos, primos dos duendes, que vivem da pr\u00e1tica do estelionato de sonhos e alicer\u00e7am \u00e1libis promissores como o do Alem\u00e3o a enganar a noivinha de Copacabana, a princesinha dos mares.<br \/>\nPensam que ela se abalou? Na-na-ni-na-n\u00e3o! Tinha mais peito que o natural, embora, por vezes, fosse acometida de surtos de escurecimento da pele \u00e0 la Tim Maia, a sinalizar que o tempo ir\u00e1 fechar. Ao se intitular como Sara, imitava abusivamente o modo de falar judaico, exaltando sua capacidade de negociar, de comprar o que for necess\u00e1rio para se inserir no que a normalidade tem de mais med\u00edocre.<br \/>\nO Alem\u00e3o achou um sapato velho para acomodar seus p\u00e9s cansados de anos de beira de estrada, se tornou o abrigo seguro em que uma mulher pudesse depositar todos os seus sonhos de encontrar um marido, construir um lar e, se desse sorte, ter um herdeiro bonito e louro.<br \/>\nDisfar\u00e7a o zero \u00e0 esquerda na pregui\u00e7a, se faz de zumbi como um gato que n\u00e3o mia e percorre os recantos da casa sem que ningu\u00e9m se aperceba, cara, o alem\u00e3o \u00e9 um songamonga! Por conveni\u00eancia. Quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel, se mostra sonso, bonzinho, cordato, enquanto por tr\u00e1s d\u00e1 vaz\u00e3o ao vampiro que ataca de dia. Acautele-te com seu perfil erecto, sempre pronto para o bote da cobra, e engolir o boi. Leva vantagem sobre o escorpiano, que pica mortalmente desconhecendo o terreno que pisa, sendo v\u00edtima de seu pr\u00f3prio veneno.<br \/>\nO que alimenta as especula\u00e7\u00f5es sobre trai\u00e7\u00e3o no songamonga, mas ele \u00e9 apenas um pinto molhado na chuva, de inspirar pena, n\u00e3o vai dar boa canja! Como todo bom alem\u00e3o filosofa, a cultura perpassa pelos in\u00fameros arremates e dobras de sua personalidade, saca de seu inconsciente coletivo Beethoven, Marx, Nietzsche e Hitler, para ensaiar um prot\u00f3tipo de homem que n\u00e3o traia, n\u00e3o judie e n\u00e3o destrua amores castos e amigos irm\u00e3os. V\u00e3 filosofia.<br \/>\nNem que ela tivesse que tocar a boiada sozinha, aos 45 anos, ainda sim valeria o sacrif\u00edcio. Amor e paix\u00e3o num mesmo homem poriam mais f\u00e9 nesse cora\u00e7\u00e3o que sempre se nutriu de ardis com sua voz em falsete. Denotada pelo queixo, que, nesse instante, se alonga como o nariz do Pin\u00f3quio, tornando o rosto uma caricatura.<br \/>\nAgora ela podia descansar em paz, e chegar em casa com o p\u00e3o quente da padaria e queijo fresco, teria um companheiro, \u00e0 sua altura e \u00e0 sua espera, para abrir a porta!<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela olhou a foto jogada em cima da mesa e escolheu: \u201cquem \u00e9 esse, d\u00ea-me seu telefone\u201d. Mas ele \u00e9 alem\u00e3o e n\u00e3o mora aqui, esclareceram. Num domingo chuvoso e prop\u00edcio, acertaram os primeiros detalhes. 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