﻿{"id":2352,"date":"2005-05-09T20:48:24","date_gmt":"2008-05-22T20:49:36","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T21:40:17","modified_gmt":"2023-05-18T00:40:17","slug":"desafinados-com-o-sucesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/desafinados-com-o-sucesso\/","title":{"rendered":"DESAFINADOS COM O SUCESSO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>Carmen Miranda retorna ao Brasil em 1954 para certificar-se de que era amada e admirada. Morreu no ano seguinte, t\u00e3o distante da Pequena Not\u00e1vel que saiu daqui em 1939 para conquistar a Am\u00e9rica. Uma baiana estilizada com turbantes e tamanc\u00f5es, a irresist\u00edvel brazilian bombshell, que n\u00e3o tinha o samba no p\u00e9 e torcia o nariz de cr\u00edticos da laia de David Nasser, que assim falara como Zaratustra: \u201cN\u00e3o ter posto os p\u00e9s nas nossas praias nos \u00faltimos anos \u00e9 uma atitude que fere, magoa e insulta o povo brasileiro\u201d. Seu incontest\u00e1vel triunfo nos Estados Unidos, at\u00e9 se medido pelos padr\u00f5es hollywoodianos de atriz mais bem paga dos anos 40, \u00e9 a prova de que a musa do tropicalismo que inspirou a est\u00e9tica gay foi uma das pioneiras da excel\u00eancia da nossa m\u00fasica.<BR>Villa-Lobos varou o Brasil afora aos 18 anos \u00e0 procura do uirapuru e descobriu seu som, ao inserir a cultura popular e o folclore na m\u00fasica de concerto. Praticou todas as formas de m\u00fasica cl\u00e1ssica, deixando os conservadores de cabelos em p\u00e9, e alinhou-se com as vanguardas da \u00e9poca, sendo vaiado na Semana da Arte Moderna de 1922. Achavam-no prolixo e viam irregularidade nas mil obras produzidas com muita rapidez. \u00c9 a mania de se exigir obra-prima de g\u00eanio, a cada pe\u00e7a, quando jorrava de sua imagina\u00e7\u00e3o um Amazonas musical. Sua ades\u00e3o ao Estado Novo propiciou compara\u00e7\u00f5es de ego com Get\u00falio Vargas, ao organizar a educa\u00e7\u00e3o musical brasileira com demonstra\u00e7\u00f5es grandiloq\u00fcentes de canto orfe\u00f4nico, geralmente de exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria. Ele se foi levado pelo \u201cTrenzinho Caipira\u201d por entre as 9 \u201cBachianas Brasileiras\u201d, mas sua alma permaneceu indel\u00e9vel como a \u201cPrimeira Missa no Brasil\u201d, em que mixou a m\u00fasica ind\u00edgena com o canto gregoriano.<BR>Quando \u201cSabi\u00e1\u201d, parceria de Tom Jobim com Chico Buarque, venceu o Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1968, o p\u00fablico vaiou. Preferia a segunda colocada, \u201cPra N\u00e3o Dizer que N\u00e3o Falei das Flores\u201d, de Geraldo Vandr\u00e9, que virou hino dos anos de chumbo. O golpe militar fez crescer o sentimento antiamericanista e Tom Jobim constru\u00eda s\u00f3lida carreira nos Estados Unidos. Gravou um disco com The Voice, \u201cFrancis Albert Sinatra &amp; Antonio Carlos Jobim\u201d, escolhido pela cr\u00edtica americana como o melhor \u00e1lbum vocal de 1967. Sua r\u00e9plica ficou famosa: \u201cSucesso no Brasil parece ser uma agress\u00e3o pessoal\u201d. Por ironia do destino, \u201cSabi\u00e1\u201d &#8211; vou voltar, sei que ainda vou voltar, para meu lugar &#8211; acabou se tornando hino dos exilados, at\u00e9 mesmo para Tom Jobim.<BR>\u00c9 por essa e outras que Jo\u00e3o Gilberto n\u00e3o d\u00e1 papo e vive no exterior. \u201cDesafinado\u201d \u00e9 o abre-alas do carro-chefe da bossa nova, \u201cChega de Saudade\u201d, pois j\u00e1 fazia refer\u00eancia ao novo estilo em que os cr\u00edticos come\u00e7aram a fazer tro\u00e7a da desafina\u00e7\u00e3o dos cantores. Os mais velhos diziam que era m\u00fasica para gente boba: \u00c9 s\u00f3 isso o meu bai\u00e3o \/ E n\u00e3o tem mais nada n\u00e3o \/ O meu cora\u00e7\u00e3o pediu assim \/ S\u00f3 bim bom bim bom bim bim. Ridicularizavam \u201cBim-Bom\u201d, \u201cLobo Bobo\u201d e \u201cO Barquinho&#8221;.<BR>Com o mesmo tom reacion\u00e1rio que usavam para se referir ao rock, botando pra baixo os jovens que iriam revolucionar a d\u00e9cada de 60. Que se sentiam como a Julieta em \u201cBolinha de Papel\u201d: S\u00f3 tenho medo da falseta \/ Mas adoro a Julieta, como adoro \/ Ah, Papai do C\u00e9u \/ Quero seu amor minha santinha \/ Mas s\u00f3 n\u00e3o quero que fa\u00e7as de bolinha de papel \/ Tiro voc\u00ea do emprego \/ Dou-lhe amor e sossego \/ Vou ao banco e tiro tudo pra voc\u00ea gastar \/ Posso oh Julieta lhe mostrar a caderneta \/ Se voc\u00ea duvidar.<BR>Saudemos o n\u00edvel do reacionarismo que diminui a olhos vistos. Mas por que tanta m\u00e1-vontade de antem\u00e3o com algu\u00e9m que j\u00e1 se sabe que veio para ficar? Na imagem. Na retina. Na mem\u00f3ria. Nos sonhos. No exemplo. Em ajud\u00e1-lo a descobrir-se. Para onde voc\u00ea vai. Fa\u00e7a a sua parte, j\u00e1 ajuda. E cantemos com Billy Blanco \u201cA Banca do Distinto&#8221;:<BR>N\u00e3o fala com pobre, n\u00e3o d\u00e1 m\u00e3o a preto \/ N\u00e3o carrega embrulho \/ Pra que tanta pose, doutor? \/ Pra que esse orgulho? \/ A bruxa, que \u00e9 cega, esbarra na gente \/ E a vida estanca \/ O enfarte lhe pega, doutor \/ E acaba essa banca \/ A vaidade \u00e9 assim, p\u00f5e o bobo no alto \/ E retira a escada \/ Mas fica por perto esperando sentada \/ Mais cedo ou mais tarde ele acaba no ch\u00e3o \/ Mais alto o coqueiro, maior \u00e9 o tombo do coco afinal \/ Todo mundo \u00e9 igual, quando a vida termina \/ Com terra em cima e na horizontal.<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carmen Miranda retorna ao Brasil em 1954 para certificar-se de que era amada e admirada. Morreu no ano seguinte, t\u00e3o distante da Pequena Not\u00e1vel que saiu daqui em 1939 para conquistar a Am\u00e9rica. 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