﻿{"id":2461,"date":"2003-01-27T23:25:51","date_gmt":"2008-05-23T23:26:25","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:16:27","modified_gmt":"2023-05-18T01:16:27","slug":"carioca-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/carioca-amigo\/","title":{"rendered":"CARIOCA AMIGO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>Desde que os portugueses adentraram a Ba\u00eda da Guanabara e puseram os p\u00e9s em manguezais e praias, a discuss\u00e3o em torno da melhor forma de se aproximar dos estranhos, sem parecerem alien\u00edgenas, causa rebuli\u00e7o. O espelho como elemento de escambo convinha \u00e0 bandeira da explora\u00e7\u00e3o que iria se iniciar. Cunhava-se, a partir da\u00ed, o car\u00e1ter miscigenat\u00f3rio na fus\u00e3o do explorador e explorado, no interesse leg\u00edtimo da Coroa. Que viria a dar o tom na forma desavergonhada com que os cariocas se lan\u00e7am ao seu semelhante, imersos na d\u00favida se bolinam ou se deixam bolinar, se espetam ou se deixam garfar, se acomodam o buzanf\u00e3 na melhor poltrona ou se ficam cheio de dedos, se deixam o patr\u00e3o pensar que t\u00e1 tudo sob controle ou se entregam a rapadura sem o menor crit\u00e9rio.<BR>Esse conjunto de irracionalidades surrealistas ao som de atabaques africanos que solenizavam o sangramento de galinhas pretas em aten\u00e7\u00e3o a um desejo ou esperan\u00e7a de dias melhores, virou cultura. Que nem assim impediu o buli\u00e7o de c\u00e9rebros estreitos no desfile dessa mentalidade nas passarelas do Rio de Janeiro, desaguando coment\u00e1rios desairosos a respeito dos cariocas, sobre a sua forma de se aproximar, de fazer amizade.<BR>Principalmente oriundo de paulistas, que reclamam do carioca convidar sem sequer dar o endere\u00e7o. \u201cPassa l\u00e1 em casa! N\u00e3o deixa de ir amanh\u00e3, t\u00e1 legal?\u201d. Ou ent\u00e3o, d\u00e1 o endere\u00e7o e depois finge at\u00e9 que n\u00e3o conhece quando se cruzam na rua. Alcunham os cariocas de superficiais porque s\u00e3o capazes de abra\u00e7ar e serem afetivos, para depois esfriarem sem qualquer motivo. Em suma, n\u00e3o aprofundam a amizade, giram em torno de ambientes festivos, sempre no quintal da galhofa, n\u00e3o foi de gra\u00e7a que o Grupo Casseta e Planeta popularizou a express\u00e3o \u201cFala s\u00e9rio&#8221;.<BR>Os cariocas contra-atacam com \u201cdesinteresse mermo\u201d, j\u00e1 que n\u00e3o rolou afinidade. Nada existira que justificasse uma continuidade. Ou a gente tem que se encontrar por obriga\u00e7\u00e3o? Ou s\u00f3 porque se conheceram no transcurso de uma noitada ou excurs\u00e3o, torna-se obrigat\u00f3rio receber um na casa do outro?<BR>O descaso \u00e9 aparente e serve para dissimular o engano de pensar que poderia ser uma amizade. A superficialidade \u00e9 uma forma de dizer para o outro que n\u00e3o sinto vontade de v\u00ea-lo de novo, sem mago\u00e1-lo. E por que n\u00e3o rolou? Basicamente, porque as cabe\u00e7as n\u00e3o eram t\u00e3o afins, como se julgou de in\u00edcio. Supunha-se que ambos poderiam trilhar o mesmo caminho e isso n\u00e3o aconteceu. Como trocar energia, meu irm\u00e3o?<BR>Os cariocas p\u00f5em as cartas na mesa e se comparam a maridos e mulheres, sempre em estado latente de tens\u00e3o. Predomina um estado de inquieta\u00e7\u00e3o e inseguran\u00e7a em busca da paz, que jamais ser\u00e1 encontrada, face \u00e0 obstina\u00e7\u00e3o na luta para manter o amor nas condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e press\u00e3o. Atormenta-se com a id\u00e9ia de pensar que escolheu o parceiro errado, e se mudar, corre o risco de n\u00e3o mudar nem um pouco. Repercutindo e influenciando os padr\u00f5es de amizade, de que adianta trocar latitude e longitude se n\u00e3o ir\u00e3o atingir o objetivo, \u00f4 parceiro?<BR>Quis\u00e9ramos ser iluminados para vislumbrar quem adentra em nossos lares, se mete nas nossas vidas e penetra no rol de amigos, a fim de n\u00e3o cometermos equ\u00edvocos t\u00e3o grosseiros. La\u00e7os de ternura se desfazem entre namorados que viraram marido e mulher por uma exist\u00eancia, entre companheiros que dividiram o mesmo teto talagada de anos, entre familiares que negaram a ascend\u00eancia do sangue, entre amigos insepar\u00e1veis a ponto de outros se confundirem e trocarem os nomes.<BR>Jo\u00e3o do Rio, na Gazeta de Not\u00edcias de 29 de setembro de 1907, disse que o carioca \u00e9 bem o homem das manias, o bicho insaci\u00e1vel, toma um prazer ou um divertimento, exagera-o, esgota, aborrece e abandona-o. N\u00e3o h\u00e1 nada que resista a cinco anos de vida, o carioca \u00e9 vari\u00e1vel como o tempo. Depois do bicho, maxixe, meetings de oposi\u00e7\u00e3o e propaganda, agora a moda s\u00e3o os cinemat\u00f3grafos, a nova epidemia que ultrapassou a febre amarela, a peste bub\u00f4nica e a var\u00edola.<BR>O humor dos cariocas possui um sabor diferente dos judeus ashkenazi, que no idioma i\u00eddiche, enriquecido por express\u00f5es singulares de vilarejos na Europa Oriental, assim pragueja: \u201cque caiam todos os dentes de tua boca, menos um, e que este doa noite e dia sem parar&#8221;.<BR>Diria um lusitano a castigar no palavreado: o que tem o cu a ver com as cal\u00e7as? \u00d3 p\u00e1, segundo o exposto acima, ou do lado, o carioca n\u00e3o \u00e9 como o franc\u00eas, filosofa, filosofa&#8230; e se enrola. Mistura afinidade, papo-cabe\u00e7a, amor, afeto, trai\u00e7\u00e3o e receia mudar de pouso. Quem quer um amigo assim?<BR>Espelho meu, responda. Por entre o reflexo do sol no espelho do \u00edndio, Machado de Assis foi \u00e0s origens em sua peculiar ironia casti\u00e7a e resgatou: \u201cFelizes os c\u00e3es que pelo faro descobrem os amigos\u201d.<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que os portugueses adentraram a Ba\u00eda da Guanabara e puseram os p\u00e9s em manguezais e praias, a discuss\u00e3o em torno da melhor forma de se aproximar dos estranhos, sem parecerem alien\u00edgenas, causa rebuli\u00e7o. O espelho como elemento de escambo convinha \u00e0 bandeira da explora\u00e7\u00e3o que iria se iniciar. 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