﻿{"id":2485,"date":"2003-12-15T23:56:27","date_gmt":"2008-05-23T23:56:36","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:06:23","modified_gmt":"2023-05-18T01:06:23","slug":"siris-entre-manguezais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/siris-entre-manguezais\/","title":{"rendered":"SIRIS ENTRE MANGUEZAIS"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>O Rio de Janeiro \u00e9 a cidade que Deus elegeu para reinar sobre o mundo. Inc\u00f3gnito. Como escolher qual praia ir\u00e1 lavar Seus p\u00e9s ou em que trilha da Floresta da Tijuca ir\u00e1 se achar? Se mirar na Lagoa enquanto figuras bissextas procuram o Sobrenatural em Santa Teresa. Xingam o calor para deliciar-se com o chope e, ao menor sinal de frio, riem das mulheres de casaco de couro e bota. S\u00f3 sendo carioca para compensar com bom humor os impens\u00e1veis problemas que Pero Vaz de Caminha n\u00e3o atinou quando seu queixo caiu diante das \u00edndias. Logo se mandou rezar uma missa em homenagem ao esp\u00edrito agrad\u00e1vel que dilui seus defeitos e os torna at\u00e9 atraentes.<BR>Na maior intimidade, todos se tocam, se abra\u00e7am, cochicham banalidades, sem se conhecerem. Se entreolham, escolhem-se e se misturam, sob o abano de palmeiras, na esperan\u00e7a da cocada, branca ou preta, fazer surgir o cravo e a rosa de uma democracia miscigenada e sensual que adora se aglomerar em botequins de esquina nas sextas sem lei. Libertos da neurose de se isolar, de n\u00e3o ouvir gracinhas e se respeitar, criando a muvuca, uma rede de quilombos destinada ao exerc\u00edcio de azarar.<BR>Come\u00e7ou nas praias, quando perguntaram \u00e0 Maria Chiquinha o que ela foi fazer no mato. Se estendeu \u00e0 Lapa, onde prestaram enorme contribui\u00e7\u00e3o capoeiristas, travestis, putas, malandros, rica\u00e7os e madames de cabar\u00e9s e bord\u00e9is, em\u00e9ritos dan\u00e7arinos que disputavam a bolinha da sorte para encontrar o amor na calada da noite.<BR>Como de noite todos os gatos s\u00e3o pardos, surgiu a feijoada para excitar a aproxima\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 quem travestidos de falsa eleg\u00e2ncia. Jogadores de futebol, modelos, atores, m\u00fasicos, escritores, jornalistas, separados em convalescen\u00e7a, enjeitados, bic\u00f5es, esquisitos e chatos dividem o mesmo espa\u00e7o na promiscuidade da fama, sob o som do pagode que promove a ligadura.<BR>Daqui n\u00e3o saio, daqui ningu\u00e9m me tira. Ai, que coisa mais linda, mais cheia de gra\u00e7a. O contraste entre as montanhas e o mar. Jamais se viu contornos t\u00e3o majestosos em harmonia com cores que alternam o foco da beleza. S\u00f3 pode ter sido obra e arte de crian\u00e7a, ao colocar o dedo na tinta e desenhar a sinuosidade dos morros.<BR>Se Deus mostrou-se obcecado ao pintar a aquarela do Rio de Janeiro, pode perfeitamente ter um ataque de prima donna. Cansou-se das in\u00fameras experi\u00eancias a que o carioca submeteu o Rio de Janeiro. \u00c9 bem verdade que Deus faz chover, mas n\u00e3o para provocar deslizamentos em favelas. Tampouco imund\u00edcie jogada nas praias ou peixes mortos na Lagoa. Se furar t\u00faneis congestiona o tr\u00e1fego e abrir linhas expressas desenvolve o tr\u00e1fico, que progresso \u00e9 esse onde bandidos pretendem impor respeito \u00e0 cidade?<BR>A lei do mais forte, por n\u00e3o ag\u00fcentarem ser mais exclu\u00eddos na cidade de Deus. Atingindo o ponto nevr\u00e1lgico de cidad\u00e3os respeit\u00e1veis, politicamente incorretos. Com a droga. Tirando do s\u00e9rio a popula\u00e7\u00e3o com o toque de recolher imposto naturalmente. Para quem gozava da fama de levar a vida na brincadeira, que droga n\u00e3o poder banhar-se em c\u00f3rregos e cascatas nas florestas que preservam a nossa intimidade. Sabe-se l\u00e1 o que ir\u00e1 sair do mato, o que representa uma morte a mais ou a menos, se \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil procriar e nascer?<BR>A paci\u00eancia de Deus esgotou-se. Antes que a Ba\u00eda da Guanabara se transformasse num mar de \u00f3leo que, ao menor riscar de um palito de f\u00f3sforo, esturricasse sardinhas e manjubinhas. Abalando a verdadeira voca\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro de coexistir com siris entre manguezais, de pensar que aprendera a conviver com suas diferen\u00e7as \u00e9tnicas a caminho da miscigena\u00e7\u00e3o. Minimizamos disputas ideol\u00f3gicas e de credo, julg\u00e1vamos que a cordialidade advinda de nossas ra\u00edzes brasileiras harmonizasse no carnaval toda e qualquer forma livre de pensamento, ao rodar as baianas no repenique de tamborins. Nesse ritmo, o tarol excitava no ronco de cu\u00edcas que abafavam o surdo do bumbo anunciando o iminente fracasso a que homem e mulher estavam fadados na Cidade Maravilhosa. O caos reinante tornou-os incompat\u00edveis para construir uma rela\u00e7\u00e3o de amor.<BR>Deus perdeu os escr\u00fapulos e resolveu fazer uso de seus poderes para intervir na desordem que se instaurou no seio da fam\u00edlia. Solid\u00e3o n\u00e3o combina com casas dentro de casas, na medida em que cada um se encerra em seu quarto com seu high-tech particular. Dependendo do g\u00eanero, depr\u00ea ou de euforia absoluta, o quarto se transforma numa fortaleza ou c\u00e1rcere.<BR>Deus abriu m\u00e3o dos anjos e agiu de corpo presente, ao perceber chagas em pessoas divertidas que alardeiam a alegria da vida, causadas por amigos que n\u00e3o eram anjos. Ao fazerem mau uso do carinho de quem lhes dedicou afeto integral. Apenas por se mostrarem atiradas com seus olhos sinceros &#8211; preciosidades raras que repentinamente desembarcam e se alojam num recanto especial de nossa exist\u00eancia. Basta olhar de relance, j\u00e1 sabemos a que vieram. As mulheres. Deus as p\u00f4s de \u00edndias, com penacho e tanga, pintadas para a guerra.<BR>Aqueles cujas qualidades se encontram retidas para averigua\u00e7\u00f5es, necessitando serem desvendadas aos poucos, Deus mandou-os despir-se, Darcy Ribeiro o inspirava. Desnudar o homem por completo. Com uma flauta na m\u00e3o. Atr\u00e1s do som do uirapuru. Enquanto Gaspar embrenhava-se na Mata Atl\u00e2ntica, levado pelas m\u00e3os dela.<BR>Maiara, a \u00edndia tupi. Sabe exatamente o que fazer para obter \u00eaxito em sua empreitada, devido \u00e0 for\u00e7a de vontade e perspic\u00e1cia que Deus lhe confiou. Uma mulher mai\u00fascula capaz de se ligar a um mesmo homem por toda sua vida. Sem se casar com o casamento nem se acomodar nos louros da fam\u00edlia, submissa ao poder do amor. N\u00e3o veio para reeditar o Para\u00edso nem corrigir erros na g\u00eanese, mas para coabitar num Rio de Janeiro sem vivalma, desvinculando-se da no\u00e7\u00e3o de tempo. Com a incumb\u00eancia de modificar as leis da sobreviv\u00eancia e na interfer\u00eancia que causa no amor. A ca\u00e7a n\u00e3o seria atributo exclusivo do homem; nem o culto \u00e0 beleza, da mulher.<BR>O lar sempre representou uma id\u00e9ia distante para Gaspar. Desde os seus antepassados portugueses. Sua preocupa\u00e7\u00e3o permanente era manter-se nutrido por id\u00e9ias alien\u00edgenas e a salvo de intrusos que quisessem entrar na sua intimidade. Gostava de ousar sobrevoando os escombros do Maracan\u00e3 em sua asa voadora, alvo da sanha de torcedores inconformados com derrotas.<BR>Desapareceram garantias, amigos, situa\u00e7\u00e3o e fam\u00edlia. Gaspar aprendeu a colher nas perdas. No fracasso, o espantalho da esp\u00e9cie masculina. Originado na cria\u00e7\u00e3o. Sua inf\u00e2ncia, a bab\u00e1 preparando seu mingau e a m\u00e3e na cadeira de balan\u00e7o pondo-o para dormir.<BR>Maiara se especializou em experimentos com verduras, legumes e frutas, de forma que a digest\u00e3o n\u00e3o atrapalhasse o esp\u00edrito da coisa. Havia que se criar um relacionamento suculento, vitaminado e duradouro. Acabou por descobrir uma terra verde que, em contato com o ar da Floresta da Tijuca, expele um aroma que impregna o ambiente e fez Gaspar se dirigir a tudo que tinha medo de reconhecer o que tanto queria.<BR>Ambos come\u00e7am a plantar, desbelotando o solo por onde enfiavam sementes na terra verde. Somente cavando o solo e mexendo com a terra \u00e9 que Gaspar criou coragem para amar de novo e procriar. Procriar muito, afinal aquele subsolo j\u00e1 fora leito de filhos e conhecera o selvagem do amor, que findou soterrado. Assustado com a perda do c\u00e9u onde s\u00f3 a imagina\u00e7\u00e3o se perdia, aninhou-se nos bra\u00e7os de Maiara e, ainda como filho, fez da m\u00e3e sua mulher.<BR>Gaspar se desobriga da responsabilidade de ser forte, corajoso, empreendedor, sem enfraquec\u00ea-lo. Um milagre! Maiara testa os novos alimentos que prolongariam a vida, equilibrariam o apetite e a temperatura do corpo, estimulariam os sonhos e elevariam \u00e0s alturas a capacidade de \u00e2nimo e esperan\u00e7a. Erguendo um dique contra as doen\u00e7as. Com a melhor das inten\u00e7\u00f5es: retirar Gaspar da condi\u00e7\u00e3o de filho, convert\u00ea-lo num homem de verdade.<BR>Finalmente, Gaspar conseguira espantar o medo de reconhecer o que tanto quis e deixava escapar pelos an\u00e9is de Saturno, iludido com a Via L\u00e1ctea. Maiara despede-se do mito, deixando no ar se \u00e9 obra de fic\u00e7\u00e3o ou fraude em carne e osso. Resolve n\u00e3o mais se enfiar em hist\u00f3rias onde \u00e9 requisitada. Deixa de ser um esp\u00edrito que cicatriza feridas e cura doen\u00e7as terminais, para se humanizar e viver uma grande hist\u00f3ria de amor. Ela \u00e9 filha de Deus, mas n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para Cristo.<BR>Fez-se a luz, o Rio de Janeiro \u00e9 a Terra da Promiss\u00e3o, uma salada em que a ma\u00e7\u00e3 do pecado virou suco.<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Rio de Janeiro \u00e9 a cidade que Deus elegeu para reinar sobre o mundo. Inc\u00f3gnito. Como escolher qual praia ir\u00e1 lavar Seus p\u00e9s ou em que trilha da Floresta da Tijuca ir\u00e1 se achar? Se mirar na Lagoa enquanto figuras bissextas procuram o Sobrenatural em Santa Teresa. 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