﻿{"id":2609,"date":"2003-05-13T07:34:10","date_gmt":"2008-05-26T07:35:03","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:12:53","modified_gmt":"2023-05-18T01:12:53","slug":"amor-na-penumbra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/amor-na-penumbra\/","title":{"rendered":"AMOR NA PENUMBRA"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>Nascido em 1847, Castro Alves foi neto de comerciante lusitano, filho de m\u00e3e nascida em ber\u00e7o de fazenda e de pai m\u00e9dico que se dedicou \u00e0 cl\u00ednica de homens livres e escravizados. No Brasil, reinava a cafeicultura escravista no Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, e a Bahia, onde nascera, possu\u00eda a segunda popula\u00e7\u00e3o escravizada, com 300 mil cativos concorrendo com os 500 mil da corte no Rio. A Bahia vivia segundo padr\u00f5es africanos aclimatados ao Brasil, efervescendo de negros, acorrentados ou libertos, enrolados em panos coloridos. A onipresen\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o escrava em Salvador determinou a ess\u00eancia do baiano e influenciou a poesia antiescravista de Castro Alves, que se antecipara aos movimentos abolicionistas.<BR>A crise do regime colonial acelerou a extin\u00e7\u00e3o do cativeiro nas rep\u00fablicas hispano-americanas, mas o Brasil se mantinha como a \u00fanica na\u00e7\u00e3o escravagista que mandou o colonizador plantar batatas. A guerra contra o Paraguai serviu de pretexto para conter press\u00f5es emancipacionistas, os negros serviriam de bucha de canh\u00e3o e iriam para a linha de frente. Quem lutasse, ganharia a carta de alforria, carta essa que Solano Lopez n\u00e3o possu\u00eda na manga. Prometeram at\u00e9 uma aboli\u00e7\u00e3o da escravatura para 1900, e com indeniza\u00e7\u00e3o!<BR>O maior poema abolicionista de Castro Alves foi \u201cNavio Negreiro\u201d &#8211; express\u00e3o posteriormente envilecida ao denotar a prefer\u00eancia nas conquistas amorosas. Ele tinha perfeita no\u00e7\u00e3o de vale quanto pesa, mas que de nada adiantaria auto-reconhecer-se, se o mundo imperfeito em que nos distribu\u00edmos se omite de assinalar e patentear o divino no talento. No caso, o seu. Viaja a Pernambuco, Rio e S\u00e3o Paulo para que avalizem suas facetas de ativista e poeta que se recusava a admitir que a situa\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 uma conting\u00eancia que n\u00e3o cabe discutir.<BR>A tuberculose matou os pais de Castro Alves e gerou sua primeira hemoptise, o que n\u00e3o impediu seu romantismo de impregnar poemas de castos cavalheiros que amavam platonicamente suas julietas e dulcin\u00e9ias. Em contraste flagrante com o romance tormentoso vivido com a portuguesa Eug\u00eania C\u00e2mara, artista dram\u00e1tica 10 anos mais velha e m\u00e3e solteira, que escandalizou a sociedade.<BR>Quando ela partiu de volta \u00e0 terrinha natal, Castro Alves acusou o golpe do rompimento e das dificuldades do abolicionismo, ferindo-se com um disparo acidental no calcanhar quando ca\u00e7ava no Br\u00e1s, em S\u00e3o Paulo. Amputado o p\u00e9, sem clorof\u00f3rmio, devido \u00e0 sua raqu\u00edtica condi\u00e7\u00e3o, a depress\u00e3o foi inevit\u00e1vel e embarcou para a Bahia buscando melhores ares. Em sua terra natal, Curralinho, buscando al\u00edvio para seus sofrimentos.<BR>L\u00e1 reencontrou Leon\u00eddia Fraga, amiga de inf\u00e2ncia, que o acolhe e ampara nos meses que lhe restavam de vida, desenvolvendo por ele um sentimento profundo e irreal, contentando-se em raro conviver com o poeta famoso que derretia cora\u00e7\u00f5es. T\u00edpico de mulher interiorana que prefere n\u00e3o revelar seu amor e viver um misto de ang\u00fastia e prazer pela entrega desmedida e incondicional.<BR>O que torna o amor puro e sublime, na vis\u00e3o do romantismo, ainda mais quando fingiu n\u00e3o ver Castro Alves se refugiar nos recantos do casar\u00e3o colonial, em meio a lembran\u00e7as que constru\u00edam devaneios melhores que sonhos, porque poderia intervir na felicidade e candura de passeios ao lado de sua amada, de olhos abertos.<BR>Retribuiu com aten\u00e7\u00f5es e poemas dedicados \u00e0 sua devo\u00e7\u00e3o, como em \u201cAnjos da Meia-noite\u201d, \u201cserias tu, donzela casta \/ quem me tomasse em meio do calv\u00e1rio \/ a cruz da ang\u00fastia, que o meu ser arrasta!&#8221;.<BR>Depois que Castro Alves morreu em 1871, aos 24 anos, Leon\u00eddia casou-se com outro, teve uma filha que morreu aos cinco anos, e logo se separou. Fiel a uma paix\u00e3o que marcou a sua exist\u00eancia, aos poucos se apartou da realidade e se acasalou ao passado em del\u00edrios, extinguindo a chama da esperan\u00e7a. A imagem viva da morte em vida.<BR>Misericordioso, Deus permitiu a ela, na aliena\u00e7\u00e3o, a felicidade plena e absoluta, almejada por todos os mortais. Ao longo de 14 anos, enquanto esteve internada no Hosp\u00edcio S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus, em Salvador, desde 1913.<BR>Ao registrar no estado civil a esdr\u00faxula situa\u00e7\u00e3o de separada do marido e noiva de Castro Alves, carregava uma trouxa com poemas manuscritos e receitas de doces preferidos do poeta. Nem mesmo quando veio a morrer aos 83 anos, permitiu que algu\u00e9m pusesse as m\u00e3os sujas em sua trouxinha.<BR>A trag\u00e9dia suscita terror e piedade, o que n\u00e3o impede uma bela e triste hist\u00f3ria de amor, na penumbra. De Leon\u00eddia ou Castro Alves?<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido em 1847, Castro Alves foi neto de comerciante lusitano, filho de m\u00e3e nascida em ber\u00e7o de fazenda e de pai m\u00e9dico que se dedicou \u00e0 cl\u00ednica de homens livres e escravizados. 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