﻿{"id":2642,"date":"2002-01-28T08:58:05","date_gmt":"2008-05-26T08:58:18","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:24:58","modified_gmt":"2023-05-18T01:24:58","slug":"o-beijo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-beijo\/","title":{"rendered":"O BEIJO"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>Nelson Rodrigues \u00e9 o respons\u00e1vel pela transi\u00e7\u00e3o do \u00f3sculo machadiano para o beijo das escravas do amor cujo destino \u00e9 pecar, pondo \u00e0 mostra a faculdade incr\u00edvel de dissimula\u00e7\u00e3o da mulher como resposta ao provedor soberano, n\u00e3o permitindo nem que seu pr\u00f3prio marido a beijasse em frente aos outros, supervalorizando o recato. Pureza era sua obsess\u00e3o. <BR>Como Nelson nos libertou do bom gosto ao consider\u00e1-lo uma virtude de quinta classe, hoje estamos \u00e0 vontade para confessar qu\u00e3o penoso \u00e9 dar os primeiros passos no namoro. S\u00f3 por causa do beijo. Quem se inicia ou \u00e9 iniciado prefere escamotear que se atrapalha com o nariz que se intromete no meio do beijo, com a l\u00edngua que n\u00e3o sabemos onde enfiar, se no palato ou na gengiva, o que fazer da saliva &#8211; engolir ou saborear?-, e a respira\u00e7\u00e3o que ofega na hora errada e corta o barato do f\u00f4lego. Se inspira antes de expirar por amor. Sem contar os dentes que n\u00e3o sabemos onde esconder e como controlar sua sanha assassina. <BR>Acabamos nos acostumando a fechar os olhos e a beijar do jeito que quiser, estalado, molhado, lingual, mordido de furor, antrop\u00f3fago, ou eternamente longo. At\u00e9 que a boca n\u00e3o fique mais inchada. Nelson Rodrigues consagra esse momento como o verdadeiro defloramento, a inequ\u00edvoca posse franqueada ao p\u00fablico: ela suplicou tanto por esse beijo que desmaiou sobre o cap\u00f4 do carro quando ele pespegou-lhe no meio da rua. <BR>Por prescindir de combina\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, o beijo avan\u00e7a na intimidade mais desavergonhadamente que a penetra\u00e7\u00e3o distante do controle e acompanhamento dos seus olhos. O encaixe n\u00e3o depende da angula\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao ajustamento dos corpos. O vigor pretendido n\u00e3o corresponde ao vigor alcan\u00e7ado, a resist\u00eancia oferecida \u00e9 maior ou menor em fun\u00e7\u00e3o da estranheza, do n\u00e3o querer, do cheiro que exala e afasta, da lubrifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o adequada, da capacidade de absor\u00e7\u00e3o, e do mist\u00e9rio que tudo isso comporta. <BR>Pois o beijo \u00e9 mais que isso tudo, implica em facilidades de ser arrancado e ofender menos os brios de quem o rejeita. Morder machuca infinitamente menos que o estupro, al\u00e9m de poder reverter a vingan\u00e7a que se saboreia fria para o prazer em que se refestela quente. Ningu\u00e9m v\u00ea nada de mais no defloramento atrav\u00e9s do beijo antrop\u00f3fago, t\u00e3o perfeitamente assimilado, que restou a nostalgia do beijo doce. <BR>Ficar com fulano \u00e9 beijar, beijar cada vez mais, para ver qual \u00e9 o seu gosto, se de namorado, scort ou futuro marido. Dentre essas incurs\u00f5es, o beijo pode ser acionado por uma simples pisada no p\u00e9 embaixo da mesa, seguida de um carinho com o mesmo. Pode ser ativado com uma m\u00e3o firme puxando a nuca e soprando no seu ouvido que eu te amo. Pode tocar o alarme ao olh\u00e1-lo com cara de Mary Poppins e sider\u00e1-lo com a boca entreaberta. Ao longo do beijo voc\u00ea pode estar sendo totalmente vasculhada pelo computador em frente que a beija examinando suas inten\u00e7\u00f5es. Pode deix\u00e1-la completamente apaixonada, pelo beijo, e no dia seguinte se aperceber que ele \u00e9 totalmente incompat\u00edvel. O beijo sem gra\u00e7a desmancha a fantasia despropositada alinhavada a respeito. <BR>N\u00e3o existe beijo descomprometido, \u00e9 uma descarada mentira. A bitoca \u00e9 o n\u00e3o reconhecimento da orgia que rola no inconsciente coletivo de devassos que se reprimem para n\u00e3o mexer em casa de marimbondo, afinal a picada nos desperta para a infus\u00e3o de beijo pra l\u00e1 e beijo pra c\u00e1, uma aproxima\u00e7\u00e3o que, por ser excessiva, n\u00e3o consegue dar conseq\u00fc\u00eancia aos desatinos que necessitamos para nos inspirar e fazer poesias. <BR>E s\u00f3 o beijo consegue rimar cr\u00e9 com cr\u00e9, l\u00e9 com l\u00e9, e nos remeter a Romeu e Julieta e \u00e0 utopia do amor eterno. Longe de ser pudico, n\u00e3o compete com a entrega carnal, nem trafega na mesma freq\u00fc\u00eancia do orgasmo, ele nos empurra para um t\u00fanel escuro onde se pode ver luz no fim, no fim de tempos que n\u00e3o conseguem apagar o encanto, o charme e a inveja de um casal apaixonado que se beija sob a luz de um poste, esquecido de n\u00f3s. <BR>Devido \u00e0 dimens\u00e3o que o beijo alcan\u00e7a, o medo \u00e9 a \u00fanica forma de manter o calor humano \u00e0 dist\u00e2ncia, por estarmos irremediavelmente condenados ao cont\u00e1gio.<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Rodrigues \u00e9 o respons\u00e1vel pela transi\u00e7\u00e3o do \u00f3sculo machadiano para o beijo das escravas do amor cujo destino \u00e9 pecar, pondo \u00e0 mostra a faculdade incr\u00edvel de dissimula\u00e7\u00e3o da mulher como resposta ao provedor soberano, n\u00e3o permitindo nem que seu pr\u00f3prio marido a beijasse em frente aos outros, supervalorizando o recato. 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