﻿{"id":2669,"date":"2002-07-15T10:48:54","date_gmt":"2008-05-26T10:49:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:20:49","modified_gmt":"2023-05-18T01:20:49","slug":"linha-de-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/linha-de-pobreza\/","title":{"rendered":"LINHA DE POBREZA"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>Nem a alma mais mesquinha contesta que a pobreza representa o principal problema do Brasil, embora h\u00e1 quem discorde votando na ignor\u00e2ncia, todavia, uma coisa n\u00e3o tem nada a ver com a outra. Sen\u00e3o, os evang\u00e9licos que se multiplicaram a uma taxa cinco vezes maior que a do pa\u00eds convertendo-se no segundo rebanho com 26 milh\u00f5es de almas, propiciariam preocupa\u00e7\u00f5es com falsos profetas, pastores charlat\u00f5es e pol\u00edticos oportunistas, quando respondem \u00e0s necessidades de inser\u00e7\u00e3o, de agir conforme as regras do jogo e ordenar socialmente uma popula\u00e7\u00e3o \u00e0 margem da sociedade onde nenhuma outra ONG ousa chegar. Se preocupa\u00e7\u00e3o existe, \u00e9 dos cat\u00f3licos que disputam os fi\u00e9is a tapa, pois desconhecem o boca-a-boca, a panfletagem e as t\u00e9cnicas de persuas\u00e3o de um vendedor de enciclop\u00e9dias. <BR>53 milh\u00f5es de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, 30 na faixa de indig\u00eancia, a renda per capita de 3.600 d\u00f3lares n\u00e3o \u00e9 baixa, mas a mis\u00e9ria persiste ad nauseam e garante o 74\u00ba lugar na ONU em desenvolvimento humano medido pela expectativa de vida, educa\u00e7\u00e3o e renda. A l\u00e1urea \u00e9 do Brasil, a pior distribui\u00e7\u00e3o de renda do mundo. A concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 tamanha que a fatia que resta do bolo n\u00e3o proporciona condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas \u00e0 maioria \u00e0 beira de um colapso nervoso. Se houvesse maior justi\u00e7a social, suavizaria o peso da culpa que detona a est\u00e9ril pol\u00eamica em torno das siglas ricos e pobres, grupos mais e menos abastados ou a manjada luta de classes, j\u00e1 que o PIB per capita \u00e9 oito vezes superior \u00e0 linha de indig\u00eancia e quatro \u00e0 linha de pobreza. <BR>Se a elite que comanda esse pa\u00eds autorizasse, seria poss\u00edvel reduzir a pobreza de 34 para 8% da popula\u00e7\u00e3o e causar fal\u00eancia na ind\u00fastria de blindagem de autom\u00f3veis. Entretanto, sua ignor\u00e2ncia n\u00e3o capta que o cerco se estreita e o motel dos seq\u00fcestrados \u00e9 final de linha, os helic\u00f3pteros substituem as vias p\u00fablicas rasgadas a soldo da corrup\u00e7\u00e3o e o legado a seus filhos \u00e9 de envergonhar seus antepassados. <BR>\u00c9 bem verdade que uma empregada dom\u00e9stica \u00e9 rica se comparada ao miser\u00e1vel nordestino tendo a seca como horizonte. Mas ser\u00e1 preciso atuar em outras frentes para que haja avan\u00e7os al\u00e9m da queda da infla\u00e7\u00e3o com estabilidade financeira e pol\u00edtica que aumentaram o cr\u00e9dito para consumo e mudaram o padr\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o feij\u00e3o-com-arroz, pois se solu\u00e7\u00e3o houve foi importar a prote\u00edna da carne e do leite, enchendo a pan\u00e7a com biscoitos e chocolates, e pagar tributo ao estrangeiro, que s\u00f3 investir\u00e3o se continuarmos a nos pasteurizar. <BR>Contudo, o Brasil gasta muito dinheiro para ajudar quem n\u00e3o \u00e9 pobre e pouco para ajudar aos pobres. Se transfer\u00edssemos menos de 10% da renda familiar, a linha de pobreza se elevaria acima do digno de l\u00e1stima, com apenas 2% o fim da indig\u00eancia, caso o dinheiro fosse entregue, sem nenhum desvio, diretamente no bolso do menos favorecido. Quando a caminho, as verbas n\u00e3o alcan\u00e7am os pobres, capturadas por segmentos sociais melhor organizados: metade do or\u00e7amento das universidades p\u00fablicas beneficia os alunos de fam\u00edlias enricadas, na seguridade social, 40% dos aposentados recebem apenas 9% de tudo que o governo gasta com pens\u00f5es, 65% \u00e9 depositado no pico da pir\u00e2mide. <BR>Se rid\u00edcula a distribui\u00e7\u00e3o de renda, a desigualdade torna-se maior que a das d\u00e9cadas de 70 e 80 porque o Brasil n\u00e3o p\u00e1ra de crescer, apesar da falta de solidariedade e humanitarismo. O que n\u00e3o nos torna acionistas dessa sociedade, visto que cresce economicamente voltado para n\u00e3o deter os efeitos perversos oriundos da pobreza e nem mesmo sensibiliza os ricos a investirem nos pobres para tirar um ganho com a expans\u00e3o do mercado interno. <BR>Qualquer modifica\u00e7\u00e3o mais substantiva da realidade brasileira ter\u00e1 de passar por um autonivelamento na desigualdade de renda e da riqueza, sem o qu\u00ea o cidad\u00e3o brasileiro n\u00e3o se nivela sequer ao cidad\u00e3o do Mercosul, de Cuba, Costa Rica, Portugal, Isl\u00e2ndia, se medido em termos da ignor\u00e2ncia que atravanca o progresso e do n\u00edvel de cidadania que organiza cacerolazos contra os desmandos de pol\u00edticos que abusam da boa-f\u00e9 popular. <BR>Como j\u00e1 se observa no aumento da possibilidade de escolha na pluralidade de religi\u00f5es que questionam a hegemonia do cristianismo, seja na vers\u00e3o cat\u00f3lica ou evang\u00e9lica. Apesar de vir mascarada no censo como sem religi\u00e3o, onde se acomoda, al\u00e9m dos agn\u00f3sticos, a nova era dos esot\u00e9ricos, hol\u00edsticos e religiosos sem religi\u00e3o que combinam pr\u00e1ticas orientais com efeitos terap\u00eauticos e medicinais. Que, somados aos kardecistas, umbandistas e candomblecistas, discretos na assun\u00e7\u00e3o de suas identidades, e aos freq\u00fcentadores de centros e terreiros que n\u00e3o perdem uma boa missa, configuram a cultura cat\u00f3lica brasileira que concilia cren\u00e7as e pr\u00e1ticas aparentemente antag\u00f4nicas, pouco afeita \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de terrenos, falando o mesmo idioma na espiritualidade. Enfim, uma cultura de incluir, n\u00e3o de excluir.<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem a alma mais mesquinha contesta que a pobreza representa o principal problema do Brasil, embora h\u00e1 quem discorde votando na ignor\u00e2ncia, todavia, uma coisa n\u00e3o tem nada a ver com a outra. 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