﻿{"id":2705,"date":"2001-11-19T15:29:44","date_gmt":"2008-05-26T15:29:51","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:27:22","modified_gmt":"2023-05-18T01:27:22","slug":"vinganca-dos-signos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/vinganca-dos-signos\/","title":{"rendered":"VINGAN&#199;A DOS SIGNOS"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p><P>Quando crian\u00e7a, ele se entediava com uma const\u00e2ncia de dar d\u00f3. O t\u00e9dio come\u00e7ou por faz\u00ea-lo trope\u00e7ar com as m\u00e3os nos brinquedos sem conseguir criar o l\u00fadico na arte da travessura. E continuou ao longo de toda a vida, pontuado pela ins\u00f4nia. \u00c9 um t\u00e9dio que beirava o p\u00e2nico se elevado \u00e0 ang\u00fastia, captado nas sess\u00f5es em fam\u00edlia, nas noites estreladas, na divers\u00e3o em grupo, desviando sua aten\u00e7\u00e3o nas audi\u00e7\u00f5es de m\u00fasica cl\u00e1ssica e \u00f3pera. <BR>No entanto, o amor \u00e0 leitura e ao estudo dos s\u00edmbolos o ajudaram a driblar essas ondas que se tornaram cada vez mais raras \u00e0 custa de suas descobertas que poucos tomaram conhecimento. <BR>Qualquer imagem, gesticula\u00e7\u00e3o, h\u00e1bito, combina\u00e7\u00e3o de roupas, express\u00e3o facial, enfim, o nosso ritual, s\u00e3o fen\u00f4menos culturais que dizem mais do que o vern\u00e1culo expresso atrav\u00e9s dos diferentes idiomas. T\u00eam maior significado que as palavras. Haja vista o que se escreve nos e-mails se confrontado com os missivistas de outrora em suas cartas que demoravam meses para chegar. A despersonaliza\u00e7\u00e3o a bem da concis\u00e3o versus o barroquismo que n\u00e3o permite a rea\u00e7\u00e3o imediata.&nbsp; <BR>O que mais apreciava era a contesta\u00e7\u00e3o original e bem-fundamentada rompendo com o dogma mais cultivado pela humanidade por tantos s\u00e9culos: interpreta-se uma p\u00e1gina de um livro, segundo o que a escrita cont\u00e9m e encerra em seu significado. A cada leitura, abre-se um campo magn\u00e9tico, eis que um im\u00e3 atrai todas as leituras anteriores, todos os outros textos afins e desafinados para l\u00e1 acorrem, todas as lembran\u00e7as e alus\u00f5es confluem, mesmo aquelas em que o autor jamais pensou. Mas que ocorrem ao leitor. Abrindo infinitas possibilidades para todos n\u00f3s, pois foge ao controle do autor a interpreta\u00e7\u00e3o do leitor. <BR>Essa carta de alforria que o distancia da intelig\u00eancia enclausurada na torre de marfim d\u00e1 in\u00edcio a uma interatividade com o universo que tenta construir o seu inef\u00e1vel dia, liberta o desejo e propaga o erotismo no pleno exerc\u00edcio do gozo da liberdade de express\u00e3o. Quem conta uma hist\u00f3ria, deseja e quer ser desejado, seduz, atrai e trai, jura em v\u00e3o, mente e passa pra tr\u00e1s, provoca, desrespeita e \u00e9 correspondido, para gozar de al\u00edvio, e, finalmente, trazer alguma nuvem levianamente passageira. \u00c9 o prazer incompreendido por gente que acha que isso s\u00f3 tem a ver com piadinhas que fa\u00e7am rir, n\u00e3o se deixando penetrar pelo saber, arrebatar pelos sabores da narrativa, a paix\u00e3o pelo sentido mais intuitivo, o tes\u00e3o pelo \u201cconhece-te a ti mesmo\u201d. <BR>\u00c9 deixar-se postar no canto de um parque a apreciar as folhas de outono despencarem-se das \u00e1rvores e fechar um olho enquanto observa apenas com o outro. Reveza. A percep\u00e7\u00e3o sutil v\u00ea um plano se achatar sobre o outro, um tronco se aproximar mais para a direita enquanto galhos desnudam-se sem o m\u00ednimo pudor, para ver as coisas de modo diferente. Bastando apenas querer.<BR>Entender isso \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil quanto Roland Barthes morrer aos 65 anos, depois de tanto t\u00e9dio ultrapassado para atingir o auge de sua capacidade criadora. No trajeto curto entre o trabalho e a casa, o trivial colheu o seu destino, atropelado por um carro que avan\u00e7ou o sinal. Sem documentos, fez jus a uma gaveta no Instituto M\u00e9dico Legal como indigente, enquanto amigos buscavam-no na barata tonta da burocracia. <BR>Uma revoltante ironia. Estudou signos e sinais, ind\u00edcios e identifica\u00e7\u00f5es, e acabou sendo alvo f\u00e1cil de celerados que n\u00e3o respeitam o sinal e n\u00e3o suportam a aus\u00eancia do mais elementar signo de identifica\u00e7\u00e3o social: a carteira de identidade. Uma vingan\u00e7a dos signos contra o homem que mais p\u00f4s a descoberto os totens civilizat\u00f3rios que decifram maquina\u00e7\u00f5es, tramas golpistas e a geografia das conquistas, a cabala da vida. <BR>Ind\u00edcio claro de entidades mais poderosas que nos assistem, sem intervir, sem se misturarem, a sinalizar que ainda n\u00e3o estamos preparados. Ir\u00e3o ser necess\u00e1rios mais sacrif\u00edcios absurdos at\u00e9 que a humanidade dispense a concatena\u00e7\u00e3o de s\u00edlabas e pare de evitar o bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1 em torno do amor, religi\u00e3o e poder &#8211; uma disputa est\u00e9ril. Puxe o meu p\u00e9 de noite, Barthes, para que essa gente comece a acreditar que sinais n\u00e3o s\u00e3o alma do outro mundo.<\/P><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando crian\u00e7a, ele se entediava com uma const\u00e2ncia de dar d\u00f3. 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