﻿{"id":2723,"date":"2000-09-25T15:55:24","date_gmt":"2008-05-26T15:55:32","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T22:27:42","modified_gmt":"2023-05-18T01:27:42","slug":"enfarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/enfarte\/","title":{"rendered":"ENFARTE"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>Ant\u00f4nio Maria compunha can\u00e7\u00f5es no g\u00eanero dor-de-cotovelo. Apaixonado pela boemia, morreu de enfarte em retalia\u00e7\u00e3o ao m\u00e9dico que lhe tirou tudo o que amava: costela e feijoada. Cardisplicente, desdenhava o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o ao brincar em suas m\u00fasicas com o \u201cningu\u00e9m me ama\u201d. Ele desfralda a bandeira da rejei\u00e7\u00e3o em \u201cningu\u00e9m me quer, ningu\u00e9m me chama de meu amor, a vida passa, e eu sem ningu\u00e9m\u201d. Ele descr\u00ea de quem se aproxima e professa a fracassomania em \u201ce quem me abra\u00e7a n\u00e3o me quer bem, vim pela noite t\u00e3o longa, de fracasso em fracasso, e hoje descrente de tudo me resta o cansa\u00e7o\u201d, e prev\u00ea seu fim, \u201ccansa\u00e7o da vida, cansa\u00e7o de mim, velhice chegando e eu chegando ao fim\u201d.<BR>Insistem que Ant\u00f4nio Maria n\u00e3o teve enfarte causado por um mal amar. Entendem que as letras de m\u00fasicas n\u00e3o necessariamente refletem o que passa pela glote de quem bebe e comp\u00f5e. Como se o Chico Buarque n\u00e3o entendesse o que se passa na alma das mulheres. Falasse apenas pelos seus olhos argutos. Como se, ao entender, tiv\u00e9ssemos a obriga\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar tudo que almejamos. Como se a poesia de Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto n\u00e3o espancasse o lirismo com sua beleza contundente que nega o esp\u00edrito. Como se o g\u00eanio de Machado de Assis tivesse que superar os preconceitos de sua \u00e9poca, f\u00e1cil falar quem j\u00e1 nasceu livre de amarras, hoje. <BR>Hoje? Paulo Francis foi um dos companheiros da Ultima Hora, dos gloriosos tempos de Samuel Wainer e Ant\u00f4nio Maria. Como cr\u00edtico de teatro chegou a ator criando uma m\u00edstica completamente original, personal, despropositada. Exasperou seus companheiros do Pasquim quando endireitou, tomou o rumo de New York, cansou-se de ser pobre, valorizou sua mercadoria e tornou-se o rei dos jornalistas brasileiros ao se conectar com Manhattan. Nunca se preocupou em ter se transformado num Fausto, seu raro talento o fazia cintilar, ao navegar por sobre as mais variadas mat\u00e9rias: economia, ideologia, filosofia, pintura, literatura, cinema, e analisando as tend\u00eancias culin\u00e1rias em espregui\u00e7adeiras de grandes hot\u00e9is. Os bar\u00f5es da intelig\u00eancia lamentam o desaparecimento precoce do cinismo farsesco que n\u00e3o deu bola para a advert\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o nas letras de Maria, \u201cnunca mais vou fazer, o que o meu cora\u00e7\u00e3o mandar, o cora\u00e7\u00e3o fala muito, e n\u00e3o sabe ajudar\u201d, na Can\u00e7\u00e3o da Volta, \u201ceu fiz mal em fugir, eu fiz mal em sair, e errei em dizer, que n\u00e3o voltava mais, nunca mais, hoje eu volto vencida, meu lugar \u00e9 aqui, faz de conta que eu n\u00e3o sa\u00ed\u201d.<BR>Os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o incompetentes ou est\u00fapidos por natureza. Muitas vezes, est\u00e3o imbu\u00eddos do melhor esp\u00edrito de acertar. Pressionados pela necessidade anarco-libert\u00e1ria de quererem dizer o que pensam e pela certeza de n\u00e3o terem sido ouvidos. O enfartado n\u00e3o quer aguardar o processo demorado e cansativo da melhoria das rela\u00e7\u00f5es humanas, t\u00e3o cheio de obst\u00e1culos que o sujeitam a explodir em impreca\u00e7\u00f5es, e a raiva n\u00e3o digere. Inevit\u00e1vel, portanto, o mau h\u00e1lito na boca que j\u00e1 engoliu um n\u00famero de sapos suficientes. E \u00e9 mais um mestre que se vai. <BR>Chav\u00f5es do g\u00eanero \u201cnunca mais vou confiar nas mulheres!\u201d, \u201cos homens n\u00e3o prestam\u201d, \u201cn\u00e3o presto, fa\u00e7o tudo errado\u201d, \u201cn\u00e3o ag\u00fcento ver tanta burrice\u201d, configuram o peso do passado influindo no presente decorrente de cren\u00e7as, h\u00e1bitos e decis\u00f5es irem se confundindo a ponto de n\u00e3o querer largar o v\u00edcio do cigarro entre os dedos e a inala\u00e7\u00e3o da deliciosa fuma\u00e7a. N\u00e3o abrir m\u00e3o do inofensivo chope, das talagadas de u\u00edsque e do bombom guardado na gaveta. E ainda por cima o exerc\u00edcio di\u00e1rio e cont\u00ednuo que cansa pela sua const\u00e2ncia &#8211; mas alivia o peso de uma exist\u00eancia paquid\u00e9rmica. <BR>Morrem em vida n\u00e3o por serem enfartados, mas por se deixarem encerrar numa redoma de vidro, se isolando como Greta Garbo na floresta de concreto em que vivemos. Positivamente, precisam de um cachorro-guia. Como o que salvou uma fam\u00edlia de fazendeiros do ataque de uma on\u00e7a em Mirassol. Os latidos alertaram a dona-de-casa, que viu a on\u00e7a de grande porte perseguindo o cachorro. Pegou o filho de 5 anos, correu e fechou a porta no focinho do c\u00e3o, para que a on\u00e7a n\u00e3o viesse atr\u00e1s. <BR>A on\u00e7a devorou o simp\u00e1tico e corajoso vira-lata Freud.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Maria compunha can\u00e7\u00f5es no g\u00eanero dor-de-cotovelo. 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