﻿{"id":2997,"date":"2008-01-23T00:00:00","date_gmt":"2008-09-21T20:39:14","guid":{"rendered":""},"modified":"2008-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-21T20:39:14","slug":"see-you-later-alligator","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/see-you-later-alligator\/","title":{"rendered":"SEE YOU LATER, ALLIGATOR"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p align=justify>Quando pequena, meu av\u00f4 costumava me chamar de jacar\u00e9. O apelido teve origem na \u00e9poca em que eu tinha o h\u00e1bito de deitar no ber\u00e7o enrolada no len\u00e7ol, de modo que s\u00f3 os meus olhos ficassem para fora, olhando atenta tudo ao meu redor. Eu gosto de pensar que este foi o motivo pelo qual a hist\u00f3ria que eu vou contar aconteceu.<br \/>Meu av\u00f4 foi mec\u00e2nico de avi\u00f5es da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira. Ser militar na \u00e9poca da ditadura n\u00e3o deve ter sido um trabalho f\u00e1cil, especialmente para o filho de um italiano com ideais an\u00e1rquicos e uma espanhola que vinha de uma fam\u00edlia de artistas. De qualquer forma, eu acho que o meu av\u00f4, sempre bem humorado, tentava ao m\u00e1ximo se divertir, apesar das circunst\u00e2ncias.<br \/>O trabalho dele consistia em sair consertando as aeronaves que, por algum motivo, haviam estragado antes de voltar para casa, seja em solo brasileiro ou fora dele. Ia para todos estes cantos obscuros do nosso continente atr\u00e1s de avi\u00f5es defeituosos e o que havia restado deles, em caso de acidentes. N\u00e3o era raro, portanto, que algumas vezes a sua profiss\u00e3o o levasse para a floresta amaz\u00f4nica, ou a tantas outras matas que existem por aqui.<br \/>Al\u00e9m disso, meu av\u00f4 era um amante apaixonado da natureza. Mesmo que algumas vezes a sua piromania tra\u00edsse o seu amor (e o fazia sair colocando fogo com o seu Zippo antigo), ele era um verdadeiro admirador das coisas da terra. Na casa dele sempre foram criados v\u00e1rios tipos de animais, desde galinhas e codornas at\u00e9 lagartos estranhos. Sem contar, \u00e9 claro, com os v\u00e1rios cachorros, gatos e papagaios que eram muito bem-vindos ali.<br \/>Quando eu tinha cinco anos, ele partiu para uma viagem ao Pantanal e, na volta, trouxe um animal de estima\u00e7\u00e3o um tanto quanto extraordin\u00e1rio. Eu me lembro que, uns dias depois de chegar, ele me convidou para ir ao escrit\u00f3rio dele. O escrit\u00f3rio ficava num tipo de segunda casa atr\u00e1s da casa principal, depois do jardim. Era onde ele ia para ficar sozinho, ouvindo seus discos de m\u00fasica cl\u00e1ssica e fumando cigarros feitos a m\u00e3o com fumo de rolo.<br \/>As crian\u00e7as n\u00e3o podiam entrar l\u00e1 dentro nunca, a n\u00e3o ser que tivessem sido previamente convidadas e, por isso, quando ele me pegou pela m\u00e3o e me levou at\u00e9 l\u00e1, eu sabia que deveria ser por algum motivo muito importante. E era. Entramos na sala que ele chamava de oficina e ele me mostrou uma gaiola grande de passarinho. Dentro dela n\u00e3o havia nenhum p\u00e1ssaro, mas sim um r\u00e9ptil. Um filhote de jacar\u00e9 do papo amarelo. Ele era um pouco maior que uma lagartixa e menor que um calango de jardim e eu n\u00e3o entendia muito bem por que aquilo era incomum,mas sabia, pelo jeito que meu av\u00f4 olhava para ele, que deveria manter segredo.<br \/>O jacar\u00e9 n\u00e3o durou mais que uma semana. A minha av\u00f3, sempre muito tolerante com os h\u00e1bitos do marido, logo descobriu o indesejado visitante em sua casa e viu-se obrigada a expulsar aquele animal amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o, declarando solenemente o velho e conhecido \u201cou eu ou ele\u201d. Mesmo assim, fizemos uma pequena cerim\u00f4nia de despedida, com os primos todos sem entender porque aquele bicho que parecia uma miniatura viva da Cuca teria que ir embora.<br \/>Alguns anos se passaram at\u00e9 o jacar\u00e9 ser encontrado no parque da Lagoa do Nado, na Pampulha. Foi transferido para o zool\u00f3gico, onde \u00edamos visit\u00e1-lo de vez em quando, e gerou uma grande discuss\u00e3o entre os bi\u00f3logos que tentavam desesperadamente entender como um bicho raro daqueles foi parar em um parque fechado. Meu av\u00f4, na frente da televis\u00e3o, dava gargalhavas a cada vez que via os especialistas apresentando suas hip\u00f3teses.<br \/>O tempo passou, eu cresci, meu av\u00f4 morreu e o jacar\u00e9 viveu feliz e enjaulado para sempre. A hist\u00f3ria foi esquecida, at\u00e9 que, alguns meses atr\u00e1s, sentada em uma mesa de bar, uma menina, que eu tinha acabado de conhecer, disse:<br \/>&#8211; Voc\u00eas se lembram de que, h\u00e1 uns anos, um cachorro foi atacado no parque da Lagoa do Nado por um jacar\u00e9 do papo amarelo?<br \/>Todo mundo lembrava.<br \/>&#8211; Ent\u00e3o, o cachorro era meu.<br \/>Sorrindo e tentando imaginar o que meu av\u00f4 teria pensado daquilo, respondi para ela:<br \/>&#8211; E o jacar\u00e9 era meu.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: right\">Gabriela Mudado<!-- #EndEditable --><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando pequena, meu av\u00f4 costumava me chamar de jacar\u00e9. 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