﻿{"id":2998,"date":"2008-03-18T00:00:00","date_gmt":"2008-09-21T20:41:02","guid":{"rendered":""},"modified":"2008-03-18T00:00:00","modified_gmt":"2008-09-21T20:41:02","slug":"la-cucaracha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/la-cucaracha\/","title":{"rendered":"LA CUCARACHA"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p style=\"LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify\">Eu tinha 17 anos quando matei a minha primeira barata. Foi em uma noite de s\u00e1bado, quando eu estava sozinha em casa me sentindo a adolescente mais infeliz do planeta, assistindo a uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica e me perguntando o que exatamente ele quis dizer com &#8220;n\u00e3o estou em um bom momento para relacionamentos afetivos&#8221;.<br \/>Enquanto eu chorava no sof\u00e1, a mocinha se debulhava na tela me fazendo sentir muito melhor, j\u00e1 que algu\u00e9m no mundo entendia a minha dor, mesmo que s\u00f3 na fic\u00e7\u00e3o. A seq\u00fc\u00eancia do filme, uma tomada externa, iluminou a minha sala e eu vi o t\u00e3o temido artr\u00f3pode que \u00e9 capaz de sobreviver a acidentes nucleares e fazer mulheres que queimaram suti\u00e3 na d\u00e9cada de 60 gritarem em desespero por um homem.<br \/>Percebi que tinha duas op\u00e7\u00f5es: ou matava o bicho, ou corria para o meu quarto e ficava sem ver o fim do filme. Diante da possibilidade de perder o surpreendente final quando a mocinha beijaria o mocinho ao som de uma m\u00fasica da Natalie Cole, optei pelo confronto direto. Juntei toda a minha coragem, concentrei a raiva que estava sentindo pelo rapaz do &#8220;n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, sou eu&#8221; e decidi ir \u00e0 luta. Claro, n\u00e3o sem antes cal\u00e7ar meias compridas e botas.<br \/>Depois que voc\u00ea mata a primeira barata, as outras que v\u00eam s\u00e3o fichinha. E assim me tornei uma mulher destemida, que n\u00e3o tem medo de barata. A minha coragem, ali\u00e1s, cresceu ao ponto de conseguir matar lacraias, escorpi\u00f5es, piolhos-de-cobra, ou qualquer um destes visitantes indesejados que insistem em entrar nas casas de mo\u00e7as indefesas vez ou outra.<br \/>Outro dia, tomando uma cerveja com uma amiga em um copo-sujo de esquina, vi a cara da minha companheira se contorcer de repente. Em seguida, todo o seu corpo acompanhou o rosto e o pavor que tinha tomado conta dela impedia qualquer movimento labial. Perguntei diversas vezes o que estava acontecendo, com medo de ela estar sofrendo um pequeno derrame e, quando ela conseguiu articular qualquer coisa, ouvi duas palavras: &#8220;uma barata&#8221;.<br \/>Assumindo uma pose de Mulher Maravilha, levantei de uma vez, olhei para a minha amiga e, com uma voz confiante, ordenei para que ela n\u00e3o se afligisse. Olhei tudo ao meu redor em busca do inimigo e vi que o gar\u00e7om do bar, um rapaz muito simp\u00e1tico, se aproximava. Ele, com um ar de Super-Homem, chegou correndo com a sua vassoura para salvar as donzelas em perigo e tamb\u00e9m a reputa\u00e7\u00e3o do seu bar, que, apesar de copo-sujo, \u00e9 muito limpinho. Fiquei em posi\u00e7\u00e3o de ataque, supondo que formar\u00edamos uma Liga da Justi\u00e7a, at\u00e9 que o gar\u00e7om fez um gesto pedindo que me afastasse, como quem diz &#8220;eu cuido disso&#8221;.<br \/>A barata correu para um lado. Correu para o outro. Correu pela vida. Em dado momento, depois de v\u00e1rias tentativas frustradas, o Super-Homem, que a esta hora estava mais para Chapolin Colorado, decidiu tomar f\u00f4lego. Enquanto ele examinava o terreno e elaborava uma estrat\u00e9gia, a barata passou pertinho da minha mesa e, com um movimento certeiro, aniquilei a amea\u00e7a com o meu p\u00e9 esquerdo.<br \/>A plat\u00e9ia, que a esta hora j\u00e1 era maior do que somente a minha amiga e o dono do bar, aplaudiu em \u00eaxtase e, enquanto eu colhia os louros da vit\u00f3ria, vi de relance o rosto do pobre gar\u00e7om. Se eu tivesse tirado uma peixeira da bolsa e cortado fora as suas vergonhas, teria abalado de forma menos agressiva a sua masculinidade. O rapaz, completamente envergonhado, recolheu-se para o fundo do balc\u00e3o de onde n\u00e3o saiu mais enquanto estive ali.<br \/>Foi ent\u00e3o que eu tive uma revela\u00e7\u00e3o: se, na d\u00e9cada de sessenta, as mulheres tivessem come\u00e7ado a matar baratas ao inv\u00e9s de queimar suti\u00e3s, provavelmente teriam sido mais bem sucedidas e, mais importante, ajudariam a deixar a cidade mais limpa e gastariam muito menos dinheiro com roupa \u00edntima.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: right\">\n<p style=\"TEXT-ALIGN: right\">\n<p style=\"TEXT-ALIGN: right\">Gabriela Mudado<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tinha 17 anos quando matei a minha primeira barata. 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