﻿{"id":3144,"date":"2008-10-13T00:00:00","date_gmt":"2008-12-17T21:01:29","guid":{"rendered":""},"modified":"2008-10-13T00:00:00","modified_gmt":"2008-12-17T21:01:29","slug":"voce-ja-chateou-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/voce-ja-chateou-hoje\/","title":{"rendered":"VOC&#202; J&#193; CHATEOU HOJE?"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p> Vivemos no mundo dos chatos. Daqueles que extrapolam os limites da chatice \u201cfalando\u201d no chat. Sim, porque as palavras, ou teclas abreviat\u00f3rias despejadas no branco da janelinha insistentemente piscante, s\u00f3 demonstram quanto tempo as pessoas t\u00eam perdido com coisas in\u00fateis. E se voc\u00ea pensou que me refiro a jovens monossil\u00e1bicos, aculturados, trocando grunhidos, esque\u00e7a. Eles, sim, s\u00e3o felizes. Cultivam suas amizades e enchem suas rotinas de alegria, zoa\u00e7\u00e3o, brincadeira&#8230; <br \/>Meu papo \u00e9 com os executivos, editores, gerentes, chefes e afins que perdem seu tempo se estressando com cobran\u00e7as absurdas, piscando de cinco em cinco minutos na tela de seus amados subalternos. Sendo que, em se tratando de chat, os minutos duram uma eternidade, que fique claro! Por isso, as perguntas v\u00eam de segundos em segundos, para dizer a verdade. O pobre coitado do trabalhador, ao ver as mil perguntas do \u201csuperior\u201d pipocando na tela, n\u00e3o tem nem tempo para pensar na resposta que vai dar para as tais cobran\u00e7as. Quanto mais para realizar as tarefas que lhe foram encomendadas! <br \/>Os subalternos, por sua vez, tamb\u00e9m s\u00f3 desperdi\u00e7am teclas e preciosos segundos com os tais chats. Infelizes com sua pobreza, investem na pobreza de esp\u00edrito e perdem seu tempo falando mal do colega de trabalho, que \u00e9 t\u00e3o ferrado quanto ele, s\u00f3 para despejar sua raiva e se sentir vingado. Com medo de ser passado pra tr\u00e1s. Ser\u00e1 que ele n\u00e3o v\u00ea que o tempo em que est\u00e1 digitando inutilidades, ridicularizando ou odiando algu\u00e9m, esse algu\u00e9m, o \u201cconcorrente\u201d, pode estar saindo na frente, realizando um trabalho melhor que o dele? E \u00e9 a\u00ed que mora o perigo&#8230;<br \/>Agora, acabo de descobrir que tamb\u00e9m se fazem entrevistas de emprego pelo chat. \u201cQue id\u00e9ia genial!\u201d, pensei, ao ser convidada para um processo de sele\u00e7\u00e3o online e a jato. Caiu como uma luva. Eu sa\u00ed do trabalho dizendo que ia almo\u00e7ar e fui teclar com o empregador no escrit\u00f3rio de uma amiga, ali pertinho. Mas, ao chegar l\u00e1, mudei de id\u00e9ia completamente. <br \/>Em primeiro lugar, por mais que tente, n\u00e3o consigo me acostumar com essa mania de conversar e botar as fofocas em dia por e-mail, orkut ou chat. Trabalho produzindo conte\u00fado para web, desde os prim\u00f3rdios da internet, mas sinto falta da privacidade do encontro, do calor da voz e das express\u00f5es faciais do interlocutor, do seu movimento corporal. As palavras nem sempre s\u00e3o os melhores ind\u00edcios de que a pessoa que as digita est\u00e1 sendo sensata, verdadeira, correta. Preciso analisar o conjunto para saber onde estou pisando. E n\u00e3o ser pisada.<br \/>Pois s\u00f3 n\u00e3o digo que me senti pisada, chateada e infeliz nesta entrevista por um motivo: me orgulho cada vez mais de ainda n\u00e3o ter pirado diante da conviv\u00eancia com tanta gente estressada, apressada, de mal com a vida. \u00c9, porque s\u00f3 mesmo um louco iria querer testar meus conhecimentos em ingl\u00eas me mandando traduzir pequenas frases, divididas em tr\u00eas peda\u00e7os cada. Quando hesitei para traduzir uma parte dessa loucura e perguntei o que era a tal montagem a que ele se referia naquele fragmento, ele n\u00e3o gostou e j\u00e1 foi mandando um \u201c\u00f3bvio que \u00e9 um show!\u201d Como assim, \u00f3bvio???!! A entrevista era para uma revista ferrovi\u00e1ria!!! E os peda\u00e7os de texto anteriores passavam longe da id\u00e9ia de show. Mas vamos l\u00e1: tentei contornar e n\u00e3o deu. Fiquei nervosa e, como o ingl\u00eas n\u00e3o \u00e9 minha l\u00edngua, n\u00e3o consegui concatenar os pensamentos com a tradu\u00e7\u00e3o depois disso. \u201cOk, bye\u201d, disse o cara. E eu s\u00f3 n\u00e3o mandei ele \u201ckiss my ass\u201d, \u201cmother fucker\u201d, \u201cbig asshole\u201d, porque queria me despedir de cabe\u00e7a erguida. Foi ent\u00e3o que eu disse: \u201cPara escrever em ingl\u00eas n\u00e3o se pode traduzir o portugu\u00eas literalmente, por partes, j\u00e1 que eles dizem muito mais com muito menos palavras\u201d, e enfim, mandei um \u201cobrigada pela oportunidade\u201d. <br \/>De noite, a caminho da faculdade, um \u00f4nibus grudou na minha traseira e piscou reclamando por eu ter deixado um carro entrar na fila \u00e0 minha frente. Depois, tornou a piscar porque na minha frente tinha outro cara lerdo. Eu estava na pista da direita, t\u00e1? E os malandrinhos acelerando pelo acostamento&#8230; Meu Deus do c\u00e9u! Quando \u00e9 que o mundo ficou t\u00e3o louco? Quando \u00e9 que o tempo diminuiu tanto a ponto de acelerar a pressa e fazer as pessoas se acharem no direito de passar na frente, de reclamar de uma gentileza, de buzinar para algu\u00e9m que anda sem avan\u00e7ar o cruzamento? S\u00f3 hoje, j\u00e1 li o jornal, arrumei a casa, sa\u00ed da Barra para trabalhar no Centro, assisti aula na faculdade, joguei futebol e passei a noite redigindo esse desabafo. E n\u00e3o agredi ningu\u00e9m porque estava com pressa para chegar at\u00e9 o fim do dia! Ser\u00e1 que eu sou um ET?<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos no mundo dos chatos. Daqueles que extrapolam os limites da chatice \u201cfalando\u201d no chat. Sim, porque as palavras, ou teclas abreviat\u00f3rias despejadas no branco da janelinha insistentemente piscante, s\u00f3 demonstram quanto tempo as pessoas t\u00eam perdido com coisas in\u00fateis. 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