﻿{"id":4434,"date":"2011-05-30T00:00:02","date_gmt":"2011-05-30T03:00:02","guid":{"rendered":""},"modified":"2023-05-17T14:54:14","modified_gmt":"2023-05-17T17:54:14","slug":"o-orfismo-de-mallarme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldugaio.com.br\/index.php\/o-orfismo-de-mallarme\/","title":{"rendered":"O ORFISMO DE MALLARM&#201;"},"content":{"rendered":"<div class=\"fsc_text\"><p>St\u00e9phane Mallarm\u00e9 destacou-se por uma literatura que se mostrava ao mesmo tempo l\u00facida e obscura. Por isso considerado um poeta dif\u00edcil e herm\u00e9tico. Seus coment\u00e1rios cr\u00edticos nas famosas tert\u00falias liter\u00e1rias realizadas em sua casa, em Paris, estimularam enormemente os escritores franceses a partir de uma vis\u00e3o simb\u00f3lica e espiritual que se opunha \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o fiel da realidade e \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da forma, assim como aos artistas da escola impressionista que, com efeitos fugazes de luz e movimento, come\u00e7aram a vencer as primeiras barreiras do formalismo com enquadramentos originais. <br \/>Apesar de desempenhar um papel fundamental na evolu\u00e7\u00e3o da literatura no s\u00e9culo XX, especialmente nas tend\u00eancias futuristas, Mallarm\u00e9 morreu em 1898 sem ter chegado a concluir a grande obra de sua vida. Um projeto que ele s\u00f3 revelou em cartas a amigos, que seria a explica\u00e7\u00e3o \u00f3rfica da Terra, submetendo ao dom\u00ednio do esp\u00edrito humano, ao seu livre-arb\u00edtrio, o acaso, o que vier surgindo, como s\u00edmbolo da imperfei\u00e7\u00e3o de sua incompletude. \u00d3rfica por dizer respeito aos dogmas e mist\u00e9rios atribu\u00eddos ao poeta Orfeu, personagem mitol\u00f3gico, em sua seita filos\u00f3fico-religiosa originada na Gr\u00e9cia do s\u00e9culo VII a.C., cuja doutrina pregava a reencarna\u00e7\u00e3o da alma humana ap\u00f3s a morte corporal.<br \/>Orfeu era o m\u00fasico mais talentoso de que j\u00e1 se teve not\u00edcia. Quando tocava sua lira, os p\u00e1ssaros paravam de voar para escutar e as \u00e1rvores se esticavam para alcan\u00e7ar os sons que se esva\u00edam no vento. Silenciava as sereias que, com seu canto, surtavam os navegantes fazendo com que suas embarca\u00e7\u00f5es fossem de encontro aos rochedos. At\u00e9 se deparar com Eur\u00eddice e apaixonar-se perdidamente por seu encanto e beleza. O que a levava a fugir de seus pretendentes ao n\u00e3o acreditar que falassem a verdade. Eis que uma serpente interrompe sua fuga sem fim e tira sua vida, deixando Orfeu transtornado. A ponto de ir busc\u00e1-la na Terra dos Mortos para tentar traz\u00ea-la de volta. A emo\u00e7\u00e3o na can\u00e7\u00e3o tirada por sua lira convenceu o barqueiro Caronte a lev\u00e1-lo vivo pelo rio Estige. Adormeceu C\u00e9rbero, o c\u00e3o de tr\u00eas cabe\u00e7as que vigiava o portal de entrada. Aliviou o tormento na alma de pessoas mortas que se julgam condenadas e a presen\u00e7a de entidades mal\u00e9volas n\u00e3o o perturbou. Embora irritado por ver que um vivo penetrou em seus dom\u00ednios, a agonia na m\u00fasica de Orfeu comoveu Hades, o rei dos mortos, que permitiu o retorno de Eur\u00eddice pelas m\u00e3os de Orfeu ao mundo dos vivos. Mas com uma condi\u00e7\u00e3o: que ele n\u00e3o pusesse os olhos nela at\u00e9 que a luz do sol a banhasse por inteiro. Orfeu tocou ent\u00e3o m\u00fasicas de alegria e celebra\u00e7\u00e3o trilha afora do obscuro reino da morte, guiando a sombra de Eur\u00eddice de volta \u00e0 vida. Bastou o sol se pronunciar atrav\u00e9s de t\u00edmidos raios,&nbsp; a ansiedade o levou a virar-se para se certificar de que Eur\u00eddice o estava seguindo. Por um momento ele pensou que a tivesse visto, mas logo ela se tornou de novo num fino fantasma, t\u00e3o perto de sair da escurid\u00e3o e viver outra vez, pairando apenas no ar um grito lancinante de final de amor. Era Orfeu, imerso em desespero total; havia perdido Eur\u00eddice para sempre. O que deu origem ao Orfismo, um dos diversos canais pelos quais a espiritualidade vem se manifestando e procurando abrir nossos esp\u00edritos para nos comungar com a divindade. Orfeu, um arauto da espiritualidade. Afinal de contas, ele entrara no Plano Espiritual e voltara. No desencarne, ele encontraria a paz e se reuniria \u00e0 sua amada Eur\u00eddice que, dessa vez, n\u00e3o teria mais raz\u00f5es para fugir.<br \/>Tr\u00eas anos antes de sua morte, Mallarm\u00e9 declara num poema o sonho de construir uma \u201cGrande Obra\u201d, com letra mai\u00fascula. A pedra filosofal que iria remediar os males do esp\u00edrito ao feitio de uma obra arquitet\u00f4nica em sintonia com o Universo. Um livro em v\u00e1rios volumes que discorresse sobre o mist\u00e9rio \u00f3rfico da Terra, que n\u00e3o conseguiu escrever. <br \/>Quando Mallarm\u00e9 pressentiu a chegada da morte, angustiado por n\u00e3o atingir seu objetivo, pediu \u00e0 mulher e \u00e0 filha, um dia antes, que queimassem seus escritos &#8211; repetindo o poeta Virg\u00edlio e o que Franz Kafka viria a fazer. Sobreveio a morte por asfixia; faltou-lhe ar por sua genialidade n\u00e3o ter evacuado e se expressado na \u201cGrande Obra\u201d, embora sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria continue a ser reeditada, transcorridos mais de 100 anos do seu desaparecimento. Ou bem se realiza a grande obra que consagraria o seu ego ou, no papel de Nero, que mande p\u00f4r fogo em Roma, incendiando ideias, conceitos, versos, a prosa, palavra por palavra, ponto e v\u00edrgula. A mesma frustra\u00e7\u00e3o que levou Orfeu a invadir o Mundo dos Mortos para resgatar Eur\u00eddice, inconformado com a Morte, desafiando-a.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>St\u00e9phane Mallarm\u00e9 destacou-se por uma literatura que se mostrava ao mesmo tempo l\u00facida e obscura. Por isso considerado um poeta dif\u00edcil e herm\u00e9tico. 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