O politeísmo dos deuses gregos. Zeus não era Deus, mas o rei de todos os deuses, se encontrando à testa dos outros deuses, que lhe deviam obediência, embora houvesse espaço para negociar e sua ingerência não alcançasse as profundezas do mar e da terra. A imortalidade dos deuses gregos implicava em permanecerem atuantes pela eternidade da vida durante séculos e séculos, representando tanto as forças da Natureza, como o sol, a lua, o ar, o vento, os raios, os trovões, quanto os valores que faziam parte da vida dos mortais, como justiça, sabedoria, paz, beleza, amor, erotismo, agindo como os mortais ao incorrer nos mesmos erros. Sentiam inveja e ciúme, cobiçavam e disputavam o poder, mandavam matar, e aos injustiçados, transformavam em astros para brilharem no céu de estrelas do Universo, seja isolados como uma estrela ou numa constelação.
Os deuses dividiam seus poderes sobre a Terra com monstros, que se duvida que tenham existido, seja com várias cabeças e membros, expelindo fogo pelas ventas, descomunais como dinossauros, circulando apenas de noite para caracterizar o Mal personificado nas sombras. Os monstros primavam por abusar dos seres humanos comuns e faziam com eles o que bem entendiam. Muito embora os mortais também tremessem de medo dos deuses e, quando morriam, eram encaminhados ao reino do deus Hades nas profundezas da Terra, de onde nunca mais sairiam, condenados à pena eterna. Hades significa “o invisível” ou “o lugar não visto”. O termo é amplamente conhecido por representar as duas entidades principais: o deus Hades do submundo na mitologia grega e o próprio reino dos mortos, sendo também mencionado em contextos bíblicos. E que viria a ser ratificado pela imagem do inferno de Dante Alighieri em seu livro publicado por volta de 1314, impregnado da religião católica que cultivava o Céu e Inferno em sua frase-símbolo: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”.
Havia interatividade entre deuses e mortais quando a gravidade da situação exigia ou mesmo o mortal se tornava um semideus. Mas o dilema entre ser deus e repetir eternamente os mesmos erros dos humanos ou ser mortal e condenado ao inferno para sempre implicava em não haver divindade alguma no deus grego, nem muito menos justiça divina, ao condenar os pobres mortais à danação eterna. Nunca se encontrou qualquer vestígio de deuses como hoje se descobre restos de povos originários, a não ser fragmentos de templos e imagens reproduzindo a essência da mitologia grega. Pelo inusitado da grande fábula que a mitologia grega inspira, de caráter bíblico ou fantasioso, não pode ser comparada a uma mera história de carochinha ou a Peter Pan, na Terra do Nunca.
Os ensinamentos e filosofia da mitologia grega nortearam todas as civilizações em vias de formação no entorno das antigas Atenas e Esparta, estendendo-se pela Europa, pelo norte da África e pela terra dos faraós (Egito), pela Anatólia (Turquia), nas terras sagradas da Ásia Menor, seja em Jerusalém ou na Terra Prometida, antes e depois de Cristo. Cultura que se expandiu à semelhança da civilização cristã que foi se formando com a decadência e queda do império romano e assentando as bases da Igreja Católica. E à semelhança da civilização islâmica, quando o profeta Maomé, nos anos 600 d.C., unificou as tribos árabes sob a crença em um único Deus (Alá), estabelecendo suas bases políticas e religiosas. O monoteísmo em marcha sepultando o politeísmo da mitologia grega.
Mas não a filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles, que constitui um dos pilares fundamentais do pensamento ocidental, com cada um desses filósofos desempenhando um papel crucial no desenvolvimento da filosofia grega clássica e influenciando profundamente o modo como o mundo ocidental pensa sobre a ética, a política, a metafísica e o conhecimento.
Sócrates tinha uma visão mais racional e moral do sagrado. Ele acreditava em uma força ordenadora suprema (Deus ou uma inteligência divina) e frequentemente se guiava por uma voz ou intuição interior que ele considerava ser de origem divina ou um espírito protetor que orienta as decisões de uma pessoa. Para Sócrates, a alma (psyché) é a essência do ser humano, sua consciência e sede da moralidade. Ele defendia que o corpo é apenas um instrumento ou uma prisão da alma, e que a verdadeira missão do homem é purificá-la através da busca pela virtude e pela sabedoria, não acumulando riquezas.
No que se refere à origem do pensamento da imortalidade da alma, esta convicção vem da filosofia grega, admitida principalmente por dois filósofos gregos: Sócrates e Platão. Sócrates argumentava que a morte é apenas a separação do corpo material da alma imortal, libertando-a para habitar um mundo de verdades puras e eternas. A alma seria a essência do ser, indissolúvel e divina, representando a nossa razão e consciência. A teoria da imortalidade da alma é a crença filosófica e religiosa de que a essência não física do ser humano – sua consciência ou alma – sobrevive à morte do corpo físico. Ela transcende a mortalidade biológica, sugerindo que a vida humana tem origem espiritual e continuidade eterna.
Sócrates (470/469 a.C. – 399 a.C.) é amplamente considerado o pai da filosofia ocidental. Ele não deixou um registro sequer por escrito; todo o conhecimento que temos sobre Sócrates provém principalmente dos diálogos de seu discípulo Platão e do que Xenofonte e Aristófanes deixaram por escrito. Sócrates é famoso por sua metodologia, o método socrático, que consiste em uma forma de diálogo onde ele questionava as crenças dos interlocutores para levá-los à verdade por meio do raciocínio. Ele acreditava que a sabedoria verdadeira vinha do reconhecimento da própria ignorância e que o autoconhecimento era o caminho para a virtude. Para Sócrates, a moralidade estava ligada ao conhecimento: se alguém conhece o bem, agirá de acordo com ele; portanto, o mal é resultado da ignorância.
Platão (427/428 a.C. – 347 a.C.), discípulo de Sócrates, é um dos filósofos mais influentes da História. Ele fundou a Academia em Atenas, a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental, por volta de 387 a.C. Os alunos estudavam matemática, geometria, astronomia, física e ciências políticas. Platão desenvolveu e expandiu as ideias de Sócrates, particularmente através de seus diálogos, onde Sócrates muitas vezes aparece como o personagem principal. Platão também desenvolveu uma teoria da alma, propondo que ela é imortal e que a verdadeira felicidade é alcançada quando a alma é governada pela razão.
Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), aluno de Platão e tutor de Alexandre, o Grande, é um dos filósofos mais abrangentes da História, com contribuições significativas para quase todos os campos do conhecimento humano, como lógica, biologia, ética, política e metafísica. Diferentemente de seu mestre Platão, Aristóteles enfatizou a importância do mundo sensível e acreditava que o conhecimento começa com a observação do mundo natural e que o intelecto humano poderia abstrair princípios universais a partir dessa observação. Em ética, Aristóteles desenvolveu a teoria da virtude, afirmando que a felicidade é o objetivo final da vida humana e que ela é alcançada através da prática de virtudes. Ele acreditava que a vida virtuosa é uma vida de equilíbrio e que o ser humano floresce quando vive de acordo com sua natureza racional. A frase mais famosa atribuída a Aristóteles é: “Nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.”
Em resumo, Sócrates, Platão e Aristóteles não apenas moldaram a filosofia antiga, mas também estabeleceram fundamentos que continuariam a influenciar a filosofia, a ciência, a política e a ética por milênios, durável como se fosse uma religião. Há que também observar os pontos de tangência com o espiritismo na consciência da alma, no ser humano guiado pela intuição interior, na exaltação das virtudes, a alma (ou espírito) ser prisioneira do corpo, a morte como apenas a separação do corpo material da alma imortal, a consciência ou a alma transcender a mortalidade biológica, a vida humana ter origem espiritual e continuidade eterna.
As ideias de Sócrates, Platão e Aristóteles permanecem centrais no estudo da filosofia e continuam a ser debatidas e reinterpretadas na busca contínua pela compreensão do mundo e qual o lugar do ser humano nesse contexto. A tentar esmiuçar no que consiste a Gestação do Sentido da Vida. No que concerne à vida espiritual, e não a material. Na desencarnação ou na reencarnação. Se tudo na natureza surge do seu próprio oposto, haja vista o frio, que procede do quente. Se a vida e a morte são ciclos contínuos, logo, a vida deve retornar da morte. Se aprender é, na verdade, recordar, visto que a alma (o espírito) já habitou o mundo das Ideias Perfeitas (Plano Espiritual) antes de encarnar e, portanto, o espírito (a alma) já possui o conhecimento verdadeiro.
Em todos os tempos por onde nos debruçamos, os homens recebem essa missão. São os Espíritos Superiores encarnados com o objetivo de fazer a Humanidade avançar. Sócrates e Platão foram, com certeza, missionários do Alto que, nos séculos V e IV a.C., vieram preparar o terreno para o Cristianismo e, posteriormente, o Espiritismo.