Na Odisseia de Homero, as sereias são criaturas perigosas que habitavam uma ilha e usavam um canto mágico para atrair navegantes rumo à morte. O canto das sereias os enfeitiçava para que jogassem suas embarcações contra os recifes e aí morressem. O canto que você mais gostaria de ouvir em sua vida, muito embora não imagine o que dali irá ecoar. Quando o que nós mais desejamos pode ser justamente o que não teremos. E o que não mais podemos ter pode ser algo que já tivemos, mas perdemos. Lenda originária da mitologia grega, simbolizando situações em que somos atraídos por vantagens ilusórias ou prazeres imediatos que, se não forem evitados, levam à ruína ou ao fracasso.
Para os gregos, o canto das sereias era a tentação. A vontade de ver e ouvir algo que não podemos. Quando o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que nele se operou. Um conjunto de sensações e sentimentos invadem o corpo humano e o faz se sentir mais vivo como nunca antes foi. Mais se lhe aumenta a ilusão, mais sua natureza etérea o eleva, em contraste a quando se julgava sólido e consistente, beliscando-se todo para constatar que não é um desses sonâmbulos, que negam estar dormindo enquanto andam.
A ilusão de fechar os olhos para o que não quer ver. Como a invisibilidade dos espíritos. Um paradoxo pois contrasta com a presença nítida e certa dos espíritos entre nós. Só não vê quem não sente. Ou exige que uma visão surja do nada para começar a acreditar. Embora capaz de amar, de se apaixonar, de ser movido para estabelecer uma relação, mas tudo ser uma ilusão. De tanto assistir a louça quebrar, acaba se desiludindo ao enxergar o outro não como ele é na realidade, mas sim de acordo com os próprios desejos, carências ou expectativas irreais. Pautado pela necessidade angustiante de ser preenchido com um vínculo afetivo sólido. De tanto eriçar a vela para ir de encontro ao mar bravio, naufragou e foi parar numa ilha como Robinson Crusoé. Preferiu ser ermitão do que ficar como a água do mar batendo nos rochedos, indo e voltando sem sentido. Resguardando-se no sono, apenas como sinônimo de suspensão de suas faculdades.
A ducentésima septuagésima segunda intervenção espiritual, em 4 de setembro, se iniciou com cânticos no intuito de abrir caminho para os espíritos curadores, prosseguindo com a leitura de “Vinha de Luz”, 180 (“Depois…”), de Chico Xavier pelo Espírito Emmanuel, e estudo preliminar do capítulo 12 (“Amai os vossos inimigos”), item 10 (“O ódio”) do livro de Allan Kardec, “O Evangelho segundo o Espiritismo”.
Para Allan Kardec, a ilusão consiste num atributo exclusivo do mundo terreno e material, pois no Plano Espiritual prima a consciência elevada na análise da nossa jornada através das encarnações. Quem foca apenas na vida física, supervaloriza os prazeres passageiros, as fantasias fugazes, os encantos que torpedeiam as nossas fracas mentes como o canto das sereias, bem como as posses efêmeras dos que se julgam senhores da situação. E quando nos afundamos nas areias movediças das ilusões, parecemos uma criança que chora por um brinquedo perdido. A verdadeira realidade é a espiritual.