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AZEDINHA-DOCE

Ela sempre foi doce
E era como se fosse
Obrigatório continuar sendo.
O problema é que havia problemas
Enquanto ela ia vivendo,
Então azedava,
Dava um gosto ruim na boca.

Chamavam-na de louca,
Destemperada.
Olha que coisa engraçada:
Justo quando mais tinha tempero!
Pimenta-malagueta
Que ardia só com o cheiro.

Quem a provava assim
Tinha medo de engolir até o fim
E não entendia nada
Quando ressurgia adocicada.

Ela sempre foi doce.
Ele não sabia?

O fato é que os outros (des)gostos
Lhes faziam companhia.
Às vezes, se afundava no mar
E ficava tão salgada
Que era difícil de tragar.

Mas eles queriam mais
E terminavam sempre com sede
Quando caíam em sua rede.

Ela sempre foi doce.
Eles não sabiam?

Um dia ela ingeriu
Do próprio veneno.
Percebeu que o que vinha de fora
Era café pequeno.
Precisava se cuidar,
Prestar atenção ao que comia.

Ela sempre foi doce.
Ela não sabia?

Hoje, carrega uma horta inteira
Dentro de si
E continua a ouvir
Que só pode ter um sabor.
Ela não se importa
Seja com quem for.

Se eles têm paladar pobre,
Mal têm olfato
E carecem de tato,
Não é problema dela
Que sente o cheiro de longe,
Até do outro lado da tela.

A doce pimenta salgada
É todo dia regada
Com muito amor!
E esteja sozinha ou não
Nunca mais se azedou.

Antonio Carlos Gaio:
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