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CARNAVAL 2026 E O ESPÍRITO CARNAVALESCO

O Carnaval já foi equiparado a orgia, a festa pecaminosa, a manifestação indecorosa de sexo invertido, com as fantasias, no amplo sentido da palavra, revelando a opção pelas quais clamavam e sofriam e, por isso mesmo, proibido pelas Igrejas, em épocas que a moral e os costumes prevaleciam sobre a felicidade.
Até ingressarmos no samba sucedendo ao choro, chamado posteriormente de partido alto, que viria a alimentar a floração das escolas de samba, do desfile e respectivos ensaios, das rodas de samba, dos blocos carnavalescos.
A moral da ditadura militar quase sufocou o Carnaval ao não suportar a sátira, a brincadeira inconsequente que poderia atingir o general de plantão. Mas a tradição carnavalesca do Rio de Janeiro, Salvador, do Nordeste e do Norte acabou por arregimentar outros centros até contaminar São Paulo, que hoje se orgulha de organizar o maior Carnaval brasileiro, medido em número de carnavalescos. Copiando em tudo e por tudo os cariocas – a velha rixa.
Abandonou-se as fantasias, categoria luxo, ao passo que as mulheres romperam os laços de casamentos mais ao feitio de seus pais e avós, inundando o mercado de trabalho, e partiram para a luta ao engrossar a folia sem medo de ser feliz.
Se os travestis já se faziam presentes no Carnaval, imagine quando se multiplicou a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero que não se encaixam na heterocisnormatividade, abrangendo Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros/Travestis, Queer, Intersexo, Assexuais/Arromânticos/Agêneros, Pan/Polissexuais, Não-binários e outros, com o símbolo “+” indicando a inclusão contínua de novas identidades.
Aí virou “zona”, uma confusão completa, bem ao caráter do Carnaval, que serviu para calar a boca de censores, moralistas de araque, retardados mentais, misóginos, homofóbicos e feminicidas. Qual não fora a música e a poesia nele embutidas, ecoando marchinhas, frevos, baiões, axés, maracatus, carimbós, uma diversidade de sons e estilos, o Carnaval veio para lavar a alma e nos anteparar com a inflexão do tipo “ser ou não ser, eis a questão”: “ou bem se brinca com alegria na alma ou recolha-se aos costumes” – vá para casa curtir sua depressão crônica e não encha meu saco!

Categories: Crônicas
Antonio Carlos Gaio:
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