Reunião de condomínio em Ipanema. Eis que mais um paulista dos seus quarenta anos se apaixona pelo Rio de Janeiro e resolve comprar uma cobertura em meu prédio. Apesar de declarações de amor pela Cidade Maravilhosa e de tê-la escolhido para criar sua filha de 3 anos, além de ser dono de muitos imóveis na Pauliceia desvairada, optou inicialmente por alugar a cobertura pelo famigerado sistema Airbnb.
O sistema de locação que dá abertura a contratos em regime de temporada, o que garante um bom retorno do capital investido. Mas, por outro lado, o rodízio semanal preferido pelos estrangeiros abre as portas para todo tipo de gente, seja explorar a prostituição, o tráfico de drogas, o exibicionismo gratuito das partes pudendas, grandes porres que atraem homéricos bacanais. Longe das vistas do rico locador em São Paulo e de sua filha de 3 anos.
O caso foi parar na polícia e transformou-se num ruidoso processo. O paulista quis voltar atrás e se arrependeu de ter explorado Airbnb, o dinheiro fácil que manchou sua reputação e o fez lembrar de sua filha de 3 anos. Anexando ao processo uma declaração em que repudiava a desfiguração de sua moradia.
Mas a síndica já tinha agido para dele exigir identificação de quem se dirigisse a seu apartamento, monitorado pelo sistema de porteiro eletrônico. O paulista se defendeu ao declarar que possui uma verdadeira corte de amigos, considerados por ele os maiores prejudicados no monitoramento. Talvez amparado por Roberto Carlos em sua música “Eu quero ter um milhão de amigos”, quando lembrou-se agora de sua família e, claro, de sua filha de 3 anos.
Mas um detalhe chamou a atenção na reunião do condomínio. A insistência do paulista em agora reiteradamente renegar o sistema Airbnb, provavelmente lembrando-se de sua filha de 3 anos. Como se tivesse sido um crime que havia cometido, tamanha a culpa visível em suas alegações.
Foi o que me veio à mente, repetido em voz baixa, mas o suficiente para o paulista me ouvir, pois a tecnologia de Google meeting (reuniões digitais) capta tudo que é som. Ele ouviu de mim e reproduziu: “Confessou o crime!”. Identificando o autor.
Descaradamente, o paulista ainda tentou se eleger síndico diante do olhar assombrado dos moradores, na maioria idosos, que resolveram surrá-lo nas urnas. Não sem antes procurar fazer propaganda eleitoral durante a reunião dos condôminos, com apresentação de currículo e gráficos a demonstrar sua eficiência. Faltou-lhe tino político, consideração com os novos vizinhos e até mesmo noção do que gira ao seu redor.
Sem sequer notar que sua filha o admira de longe, como parâmetro de sua vida futura.