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FILHO DE MÃE INCESTUOSA

A mãe resolveu casar com o filho quando o pai não quis assumir a paternidade e o casamento, fugindo. Criou o filho, sozinha, com ele a lhe fazer companhia, sendo o seu companheiro nos passeios dominicais. Ao seu lado, juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na dor, a mãe controla a hora que ele chega, por onde esteve, se dormiu bem e a lista de namoradas. Para examinar no troca-troca o perfil de cada uma, como se diante de um terminal de computador. Indigna-se com a rotatividade e o pouco tempo dedicado a conhecer as profundezas do terreno em que pisa. Troca que nem a lâmpada queimada ou pneu de carro velho – o que mulher nenhuma admite. Imagine ele sair com outras e deixar sua namorada, fiel, em casa, a roer as unhas. Mas se é a mãe, o que ela tem a ver com isso?
É uma afronta o filho ficar com tantas garotas perante a mãe, sozinha, sem homem, marido, amante, ou seja lá o que for. Se ele foi produto de uma relação sem nome, acidental, proporcionada pela noite mais enluarada de que se teve notícia: a que engravida. A que faz nascer o autêntico varão, aquele que dignifica a raça e a torna plena como mãe e rainha, a ponto de presenteá-lo com uma moto nos seus 18 aninhos.
Portanto, a mãe tem direitos sobre seu filho, herdeiro do que representa uma mulher que se sacrificou por ele, a ponto de não permitir que sua vida devassa com outras mocinhas o desencaminhasse, sob os acordes da viola enluarada.
A zeladora do lar prefere ser fiel a seu filho, garantindo a continuidade de seu amor legítimo através da futura nora, que deverá seguir o mesmo código de conduta para ser feliz, pondo para correr as vagabundas, rameiras e oportunistas que tentam se aproximar de seu querido filho e marido, já que não se pode confiar nos homens.
O filho da mãe incestuosa não se liberta da chave de cadeia da mãe, que o aproxima perigosamente da gaiola das loucas, de uma cópia fiel que a assegurará do caminho que escolheu: os homens não prestam ou não a levam a sério como esposa, ou simplesmente não a querem.
Mesmo que o incesto não se efetive, o que vale é o seu caráter refletido na posse e exclusividade da mãe, que descarrega no jovem, supondo que ele veio ao mundo com estrutura para agüentar tamanha tragédia descoberta pelos gregos. O ideal seria exigir dele que não cabe traição, se traição é o que a mãe só vê no homem, desde a fisionomia até as entranhas.
Mas é seu filho, não seu homem. Preferível cedê-lo à nora e mantê-lo em seu poder. Restando ao filho fingir que não vê, tal como Édipo vazou seus olhos diante da mãe e esposa Jocasta, que jazia depois do suicídio.
Como sentir desejo por uma mulher tão castradora? Se ela perdeu o fio da meada quando se entregou a parceiros, lá atrás, no frescor da atração. Pois não estabeleceu condições, limites, reciprocidade e sofreu um processo de retardamento. À procura do orgasmo, só lhe vinha à mente o neném ao abandono no berço e a justiça de Salomão abrir-lhe a cabeça em dois, para que a profecia de se amarrar ao filho em imolação não se cumprisse.
Por mais que o filho de mãe incestuosa seja bem equipado para a ronda das gatinhas, não há tatu que agüente uma mãe frustrada que elege seu filho como o salvador da pátria.

Antonio Carlos Gaio:
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