“O Agente Secreto”, como melhor filme, disputa o Oscar com “Hamnet” de Chloé Zhao e “Uma batalha após a outra” de Paul Thomas Anderson. O único filho homem de William Shakespeare, que morreu aos 11 anos em 1596, é amplamente associado ao luto que inspirou a peça “Hamlet”, propiciando o tema central do livro “Hamnet”, de Maggie O’Farrell, e do filme de mesmo nome. O que chama mais a atenção são as cenas de desmaterialização do garoto e o seu ingresso na vida espiritual, fenomenologia nunca observada pela crítica de cinema, mesmo quando o Espírito transita por entre os encarnados. Próprio da tremenda visão da chinesa Chloé Zhao, que ganhou o Oscar de 2020 com “Nomadland”. Kleber Mendonça Filho é o seu adversário, o diretor de “O Agente Secreto”, “Bacurau”, “Aquarius” e “Som ao redor”, sempre obcecado em imergir seu público num ambiente tenso e que provoca medo, sem chegar a ser um filme de terror. Não é sobre a ditadura militar, institucionalmente falando, mas sobre os escalados para dar fim (esquadrão da morte tupiniquim) em quem luta contra ou sabota os princípios elevados da ditadura no sentido de assegurar os direitos de exploração das riquezas brasileiras em favor de estrangeiros alienígenas. Filmado em clima bolsonarista que invadiu o país e permeou o filme, com Bolsonaro apoiando a céu aberto a tortura e a execução de bandidos (esquecendo-se dele) e comunistas. É sobre a pinta braba e a estupidez completa dos assassinos da ditadura, que vieram a ser substituídos pelos milicianos. O filme também versa sobre a falta de memória que assola o país, quando tendemos a esquecer regimes autoritários, nos deixar levar por golpes e acreditar em autoridades que primam por se declararem honestas. Wagner Moura disputa com Timothée Chalamet o Oscar de melhor ator: páreo duro. Menos mal que “O Agente Secreto” levará o Oscar de melhor filme internacional, enquanto Gabriel Domingues, como diretor de melhor elenco, enfrentará produções internacionais do nível de “Hamnet”, “Marty Supreme”, “Uma batalha após a outra” e “Pecadores”. No fim de tudo, Kleber terá de se ver com Shakespeare: “O amor não vê com os olhos, vê com a mente; por isso é alado, é cego e tão potente”.