Quando Xi Jinping recebeu Trump e evocou a necessidade de superar a Armadilha de Tucídides, surpreendeu meio-mundo: o representante máximo da China fazer menção a um conceito da Grécia Antiga. Estava dado o tom político de toda a conversa que se seguiria para anunciar ao mundo que a China já não se apresentava diante dos Estados Unidos numa posição de subalternidade estratégica. Tucídides foi um historiador e general ateniense (460 a.C. – 400 a.C.), reconhecido como o pai da história científica por ter sido o primeiro a basear-se em coleta de evidências e análise de causa e efeito em seus relatos, sem apelar para intervenções divinas. Autor de “História da Guerra do Peloponeso”, um relato detalhado sobre o conflito de quase três décadas entre Atenas e Esparta pelo domínio do mundo grego antigo, foi quem criou o conceito de “Armadilha de Tucídides”, na qual descreve uma situação em que uma potência em ascensão ameaça destronar uma potência dominante ou estabelecida, o que, historicamente, gera um grande risco de confronto ou guerra inevitável (frequentemente citado em análises sobre a ascensão da China em relação aos Estados Unidos). Tucídides escrevera que foi o crescimento de Atenas que provocou o temor em Esparta da guerra inevitável e Xi recuperou essa ideia para afirmar que a História não precisava repetir-se. Ao invocar Tucídides, Xi Jinping fazia algo muito mais profundo: colocava os Estados Unidos e a China no mesmo plano histórico. Não como mestre e discípulo. Mas como duas grandes civilizações e centros de poder obrigados a negociar um novo equilíbrio. A partir da 2ª Guerra Mundial, transcorridos 80 anos, Washington habituou-se a falar com o mundo a partir de uma posição de supremacia quase incontestável – militar, financeira, tecnológica e cultural. A China, por sua vez, cresceu dentro dessa ordem internacional, beneficiando-se dela enquanto se preparava para o momento em que pudesse alterar o próprio eixo da balança global. A referência à Armadilha de Tucídides é, portanto, simultaneamente um gesto com diplomacia e uma declaração de soberania estratégica. O que Xi não disse a Trump: “Podemos evitar o conflito. Mas apenas se os Estados Unidos aceitarem que o mundo deixou de ser unipolar”. Já que a verdadeira questão nunca foi apenas comercial. Muito se falou de tarifas e da tecnologia. Mas quem controlará as cadeias energéticas, os semicondutores, as rotas marítimas, as moedas de reserva, as infraestruturas digitais e os corredores comerciais que ligam continentes inteiros? A China percebeu há muito tempo que o confronto moderno já não depende apenas de exércitos. Um bloqueio tecnológico pode ser tão destrutivo quanto um bloqueio naval. Uma sanção financeira pode ter o mesmo efeito de um míssil. E uma guerra prolongada no Oriente Médio pode provocar inflação global e travar o crescimento das economias dependentes da estabilidade comercial. A China não parece disposta a assistir passivamente a uma sucessão interminável de confrontos, sanções e intervenções que desestabilizem regiões fundamentais para o seu crescimento econômico. E menos ainda a aceitar que crises internacionais sejam conduzidas exclusivamente segundo os interesses geopolíticos de Washington. É a ideia de que o sistema internacional não pode continuar eternamente subordinado à lógica da guerra permanente ou da pressão estratégica unilateral. Tudo isso ameaça diretamente a estabilidade para a China continuar a crescer, exportar, investir e consolidar a sua influência. A China não aceitará ser empurrada para uma posição defensiva dentro de uma ordem internacional desenhada exclusivamente pelos Estados Unidos. Ela segue a estratégia de, a cada passo dado para garantir segurança, acaba por aumentar a insegurança do adversário. Foi exatamente isso que Tucídides descreveu há mais de dois mil anos. Talvez por isso a frase de Xi Jinping sobre a Armadilha de Tucídides tenha ecoado tão fortemente. Porque nela existia simultaneamente prudência e desafio. Prudência, ao reconhecer que uma colisão entre grandes potências seria desastrosa para o planeta. Desafio, ao afirmar que a China já não aceita um lugar secundário na hierarquia global. No fundo, a Armadilha de Tucídides não é apenas uma teoria sobre guerras e sim o medo de ver surgir uma nova ordem. O medo de que o futuro pertença a outro. Esparta sobrepujou Atenas em vários enfrentamentos, mas a memória puxa Atenas para o pódio. Tanto é assim que Xi Jinping disse, olhando para Trump, que deveríamos ser parceiros e não rivais.