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“AQUARIUS” VIROU O GRITO DE GUERRA “FORA, TEMER!”

Aquarius

Trata-se do segundo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho que, em 2012, surpreendeu o mundo do cinema brasileiro com o também cultuado “O Som ao redor” – é o diretor mais promissor dos últimos anos. O mote principal de “Aquarius” é o novo glorificado e o velho deixado de lado por muitos. A batalha de uma formiguinha contra um gigante narrada pelo pernambucano, que recorre, mais uma vez, à tensão social que regula as relações entre o povo e a burguesia, marcadas por conflitos duríssimos e encarniçados. “Aquarius” expõe às vísceras a queda de braço travada entre a obstinada personagem de Sonia Braga e uma construtora que quer levantar um empreendimento de luxo no lugar do prédio em que a protagonista vive há décadas e construiu uma vida – o último representante de estilo antigo na praia de Boa Viagem. A imobiliária adquiriu todos os apartamentos do prédio, faltava o de Sonia Braga, que se recusa a vendê-lo. Ela persiste cercada por discos, livros e memórias, não abrindo mão do apartamento onde criou os filhos e viveu com o marido já falecido. Numa Recife já submersa por edifícios e violência urbana, até com tubarões atacando na orla praieira de Boa Viagem, resultado das modificações ambientais trazidas pela especulação imobiliária e pelo lucro fácil, facilitado pela corrupção de valores morais, retratada por Kleber desde o filme anterior. Quando a equipe de Aquarius exibiu a obra em Cannes, usou o tapete vermelho do festival francês para protestar contra o impeachment da hoje ex-presidente Dilma, referindo-se ao golpe em marcha e mostrando placas com “Fora, Temer!” à imprensa mundial, presente na cobertura. Por isso o filme vem sendo considerado como o maior símbolo contra o golpe que levou Temer ao poder e em favor da democracia, roubada pela classe política que cassou os votos de Dilma sem consulta popular. O protesto gerou enorme repercussão, os elogios vieram torrencialmente e a distribuição foi vendida para mais de 50 países após o alvoroço. Os métodos usados pela construtora para desalojar Sonia Braga escandalizam a plateia e são comparados aos utilizados no golpe desfechado por Temer, numa interessante parábola que, para desmentir, agora ficou tarde.

Antonio Carlos Gaio:
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