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ANTONIO CARLOS GAIO cortou o primeiro cordão umbilical aos 31 de dezembro de 1945 na cidade do Rio de Janeiro. Aprendeu a pegar jacaré nas ondas do Arpoador e a jogar pelada nas areias do Castelinho nos anos gloriosos do futebol-arte de Pelé e Garrincha.
Como bom capricorniano, nunca se apoiou no acaso para optar por que caminho seguir, por crer no Destino que governa o mundo. Afinal de contas, coincidências não são acidentais. Subordinam-se à necessidade imperiosa de cruzarmos uns com os outros para nos ajudar a encontrar o que tanto buscamos. Está tudo bem guardado na gaveta. Como o futuro ainda não existe, cabe nele qualquer possibilidade, mesmo a mais remota ou excêntrica.
Comecei escrevendo e dirigindo peças de teatro com primos e amiguinhos para a família ver que nós éramos umas gracinhas. Entediado com o sermão reacionário do padre católico, preferi conversar sobre outras questões com o amigo de fé, o que me custou a expulsão da igreja e o rompimento com a orientação cristã materna. No que descobri a reencarnação, abalando minhas referências de tempo e espaço, meu pai que abraçava Kardec não me abraçou e eu tampouco a eles. Tornei-me ateu ao ler “Porque não sou cristão”, de Bertrand Russell. No apogeu do desvario e autossuficiência que caracteriza a fase da adolescência, principiei a gozar da intimidade com os deuses da mitologia grega, graças ao prazer da promiscuidade entre poder ser deus e ser humano. Premido pela necessidade de pensar livremente e conquistar independência, me vi excluído do processo criativo por longos 20 anos, ao não saber conciliar trabalho e inspiração naquilo para o qual me formei.
Só retomei a minha veia após a morte de meus pais, ao escrever Lirismo e Truculência durante os quatro meses de uma viagem solitária em torno de mim mesmo, quando percorri a França, seguida de países ibéricos, muçulmanos e comunistas. Nesse momento, começaram a acontecer coisas estranhas. A um capítulo de 50 páginas que escrevia, sobrepunha-se outro de igual tamanho. Redigi o livro compulsivamente, psicografando, sem parar para pensar. O que me assustou. Paralisando-me.
Não estava preparado ainda para entrar em contato com minha alma. O que abriu espaço para a evolução da espiritualidade em mim, dada a necessidade de provar que sou parte integrante do cosmos e que posso interferir no Universo. No entanto, criar aproxima o perigo de desfazer alguns nódulos de ilusão, levando a pensar que sua alma está empobrecendo, adentrando num nível de consciência demasiadamente realista, distante do lúdico, do ridículo e do risco que delineia a paixão.
Fui obrigado a respirar fundo como antes de uma maratona, para iniciar a escrever crônicas no raiar do sol do século XXI, dissecando a natureza humana ao extrair do cotidiano tudo que evidencie a fogueira das vaidades, contradições e atos falhos políticos, a dança das cadeiras entre os sexos, os descaminhos da genética, mitos que decaem e se apagam, e como o afeto dança no mundo globalizado, deixando-nos sem saber para onde o amor vai.
Sou obcecado pelo amor, sentimento que pode vir a desbaratar todos os planos, aniquilar certezas, atacar os nervos e até obrigá-lo a entregar os pontos. Observo o homem em queda livre na sua curva existencial, ao reagir mal à evolução sofrida pela mulher, a ponto de interferir na qualidade dos relacionamentos. Através de papéis multifacetados que interpreta, resiste o quanto pode para manter privilégios e poder perdidos de quando era o provedor. Eu o associo a Maquiavel, para não falar de misógino. É o fim do donjuanismo. Os costumes mudaram, a construção de um novo homem é o carma a ser resgatado, senão o amor é que vai sofrer as consequências. Assim nasceu Desconstruindo o Homem, em crônicas.
A viagem que realizei à China e Tailândia inaugurou um novo tempo em que os sinos do Oriente me ensinaram a saber esperar e captar os sinais que as badaladas anunciam, em forma de parábola. A espiritualidade está presente para nos orientar e observar a atitude responsável por nossas ações, compartilhando o seu conhecimento, incentivando-nos a ir a um lugar onde nunca estivemos antes. É quando se vai em busca de e resolve contar ao mundo a sua história, ao afrouxar a camisa de força que mantinha a consciência no cercado e não mais pensando no que ficou para trás: o verdadeiro fim é mudar o destino com a nossa prática. Assim nasceu Espiritualidade, em crônicas.
Para o escritor Antonio Carlos Gaio, criação é o despudor e a inconsequência que deliram nos limites estreitos do formato do papel para ali pousar e depositar suas larvas, de onde brotarão novas libélulas a seduzir outros colecionadores. Daí ver-me compelido a confessar o vício que ulcera minha mente todo santo dia: o de curvar-me, em postura de reverência, como que reconhecendo a graça que Deus me concede em desvelar os estranhos contornos da alma humana.

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