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BECO COM SAÍDA

  de

Antonio Carlos Gaio

 

PERSONAGENS:

Elói
Doutor Domício Reis
Hiroshi
Esposa de Hiroshi
Nyoka
Eva
Chico Ferraz
Áurea
Traficante
Policirente
Jesus
Deus

CENA 1

Som e imagem da eclosão da bomba atômica.

Hiroshi e esposa no cais do porto,bebendo saquê e comendo sushi de pauzinho. Ao redor, fumaça e ambiente de destruição.

Música: Puccini, cena do 2º ato de Madame Butterfly, “Un Bel Divedremo”.

 

ESPOSA – Você tem certeza do que está fazendo?

 

HIROSHI – O Japão não é mais o meu país! Foi contaminado pela poeira atômica de Hiroshima e Nagasaki. Olha só em volta, que vergonha! Não ficou pedra sobre pedra. Não quero estar aqui para ver a reconstrução desse país acabar com as nossas raízes.

 

ESPOSA – Meu marido, eu sempre o admirei. Você é querido por toda a família e considerado um homem de visão. Mas por que escolheu o Brasil? É tão longe!

 

HIROSHI – Eu rompi, me antipatizei, criei uma aversão a qualquer onda de ufanismo. Entrar nessa guerra nos custou caro. Fomos kamikaze, perdidos na multidão, quando nos curvávamos aos pés do Imperador, sem que ao menos pudéssemos ver a sua face.

 

ESPOSA – Hiroshi, que heresia, não fale assim! Não vai me dizer que também irás abandonar Buda? Meus olhos se enchem de água quando o vejo se jogar ao chão, várias vezes, em sinal de respeito e reverência a Buda, em agradecimento pelas graças concedidas à nossa família.

 

HIROSHI – Eu não sou filho ingrato. Estou seguro de que a capacidade de trabalho do japonês, sua disciplina e fidelidade, reverterão essa situação dramática. O rolo compressor vai voltar e encostar o mundo na parede. Só que não quero estar presente para assistir a esse espetáculo.

 

ESPOSA – Mas os costumes são tão diferentes no Brasil, eles nunca irão comer peixe cru de pauzinho. Chá e café não se combinam. Eles põem açúcar em tudo, faz mal ao organismo.

 

HIROSHI – Deixa de besteira, mulher! Por outro lado, todo bom oriental é desconfiado. Se não fosse assim, teria guardado meus ienes nos bancos e perdido tudo nessa maldita guerra. Guerra que, além de dizimar parentes e amigos, tornaria meu crédito podre. O nosso futuro eu vou investir no Brasil!

 

ESPOSA – Cautela, Hiroshi! Que é que você sabe a respeito da política no Brasil? Que apenas recebe o imigrante de braços abertos? O povo que imigra sofre. Se é pobre tratam-no como lixo. Se é rico, tem que encher os bolsos dos políticos para que preservem a democracia, livre dos fascistas. Tem que dar sua contribuição para que a democracia continue firme e forte, a fim de que o mais simples dos mortais não desconfie que a sua opinião e nada são a mesma coisa.

 

HIROSHI – Mentira por mentira, eu optei pela esperança. No Brasil. Já estou até falando português! Repare só nessas fotos, como os brasileiros são parecidos conosco.

 

ESPOSA – Venerável marido, ficou maluco?!

 

HIROSHI – Quis me referir ao sorriso no rosto ingênuo. É um povo alegre, que se intitula de profissão-esperança. Quero criar raízes na verdadeira Terra Prometida. Livre da ameaça do desemprego, da falta de trabalho. Quero poder erguer os olhos e ver a família crescer. Em segurança.

 

Som de apito de navio.

 

ESPOSA – Hiroshi Yamanoue, será que eu vou voltar a vê-lo?

 

HIROSHI – Eu vou mandar buscá-la em breve. Junto com nossos filhos. Confie em mim. Sonhe para que seu espírito esteja sempre abraçando minha alma.

 

 

CENA 2

Domício e Nyoka no interior de um carro sem capota, no esqueleto, de frente para a platéia.

Domício fumando e bebendo uísque numa garrafinha.

 

NYOKA – Você já reparou na sua mão?

 

DOMÍCIO – Que é que ela tem?

 

NYOKA – Está trêmula já há algum tempo.

 

DOMÍCIO – O que é que você quer dizer com isso? Que eu estou com mal de Parkinson? Que eu estou começando a ficar esclerosado?

 

NYOKA – Pelo amor de Deus, Domício, você está muito nervoso!

 

DOMÍCIO – Quem, eu, nervoso? Estou tremendo é de ódio para não ficar com cara de pateta. Vai demorar muito para eu perder minha capacidade de indignação. Eu não parto do pressuposto de que na vida tudo vai dar errado porque nada acontece do jeito que se planeja. Basta não naufragar e chegar à outra margem do rio. Tenho mais de sessenta anos, perdi a trava na língua. Descobri que o melhor antídoto contra todas as limitações é não ter medo de expô-las. Não deixo nada para depois.

 

NYOKA – Seus nervos estão à flor da pele desde que subiu no mesmo palanque com seus inimigos políticos.

 

DOMÍCIO – O Doutor Domício Reis não pode se dar ao luxo, na sua idade, de ter inimigos. Me acusam de traidor e canalha por haver renegado as idéias políticas de esquerda. Logo eu, que preguei a luta armada e o paredón para os burgueses reacionários. Esses infames dizem que estou dando o troco, ao tirar vantagem dos políticos que se aproveitam da bandeira da moralidade e fingem combater a corrupção, desde os tempos da ditadura militar. Só porque construí uma rede de clínicas de reabilitação física e mental, administrando os recursos do governo com eficiência.

 

NYOKA – Deixa isso pra lá! Você está investindo, empregando pessoas necessitadas, pagando impostos. É natural que esse pessoal de esquerda o acuse de nepotismo porque emprega parentes e amigos de políticos. Eles lá querem saber se são médicos e enfermeiras qualificados!

 

DOMÍCIO – Mas não tem ninguém debaixo da minha asa. É preciso que essa gente me respeite, não podem sair por aí achincalhando o meu passado político. Sou um médico com brilhante folha de serviços prestados à nação. A saúde é coisa muito séria para ficar nas mãos do governo. Tem que terceirizar, privatizar tudo, deixar na mão de quem entende. Senão a miséria continuará a ser explorada por demagogos que só sabem falar em resgate da cidadania e solidariedade social. De miséria eu entendo!

 

NYOKA – Meu bem, você não entende só de miséria. É um mestre na arte da sedução. Ah… Mimi Gonzaga… era tudo o que eu queria ser! Nunca te disse isso antes, mas me apaixonei por você quando te vi com ela, há mais de dez anos… Mimi constrangeu a opinião pública, falando palavrões e trocando de namorados quando dava na telha. Pouco se importando em ser rotulada de vagabunda. Uma mulher que nasceu à frente de seu tempo, para dar vez a todas nós.

 

DOMÍCIO – É, Mimi Gonzaga me abriu a cabeça e me fez ver o mundo com outros olhos, justamente no momento em que a vontade de lutar morria precoce em meu espírito. Foi nessa época que iniciei a montagem de uma equipe jovem e competente para tocar os projetos de expansão da clínica. Imagine, alguns invejosos disseram que era para sugar ao máximo sua juventude, me apropriando de sua criatividade, e que eu não tinha a menor vontade em desenvolvê-los. Apenas de inaugurá-los.

 

NYOKA – Me orgulho em fazer parte dessa equipe e não me sinto nem um pouco explorada. Se hoje me firmei como neuropsiquiatra, agradeço a confiança que você depositou em mim. É um gesto de carinho essa sua obsessão em segredar-me as experiências que acumulou ao longo de sua vida. Eu não me limito ao papel de sua esposa.

 

DOMÍCIO – Vou te revelar outro segredo. Sempre fui ateu por convicções políticas. Quando te conheci, vivia uma crise de fé e descrédito em tudo que havia aprendido. Descobri que fingia, que mentia o tempo todo para mim. Teu rosto de nisei, puro e risonho, lavou minha alma. Resgatei o respeito por mim mesmo.

 

NYOKA – Domício, você sempre me cercou de atenções e cuidados, me fez viver coisas com as quais eu nunca sonhei. Ao contrário de meu pai que jamais me perdoou por eu não ter dado continuidade ao perfil da mulher oriental. O grande Hiroshi Yamanoue me achava presunçosa e, em represália, virou as costas para mim. O mutismo dele me torturava.

 

Domício abre o jornal.

 

DOMÍCIO – Você já leu as manchetes do jornal? Que estranha coincidência enterrarmos o seu pai em plena debacle financeira no Japão. Se alguém fizesse essa previsão há alguns anos seria taxado de louco. Confirmou-se tudo o que o velho Hiroshi previra.

 

NYOKA – Meu pai era um homem de hábitos simples, trabalhador, reservado, não gostava de chamar a atenção para si. Cedo ganhou a confiança dos donos do Banco Rural Oeste, conseguindo embarcar a família não muito tempo depois.

 

DOMÍCIO – Eu me lembro como esse banco começou a engolir seus concorrentes. A ditadura militar detonou uma onda de patriotismo que fez os empresários acreditarem que o Brasil iria se transformar em um gigante. De princípio, funcionava numa agência fuleira que emprestava a agricultores. Ao comprar outros bancos, financiou latifundiários que, em vez de produzir alimentos para matar a fome dos brasileiros, “plantavam” gado em pastos vazios e férteis.

 

NYOKA – Com vinte anos de casa, meu pai tornou-se um dos executivos mais discretos do banco, a ponto de cuidar pessoalmente das aplicações dos melhores clientes.

 

Domício folheia o jornal. Impaciente, dobra-o de qualquer jeito.

 

NYOKA Queria me reconciliar com meu pai em pensamento, para ter boas lembranças e poder chorar. Será que não irei sentir saudades? Gostava de vê-lo fumando cachimbo, bebendo cerveja, acrescentando bacalhau ao sushi. De pés descalços.

 

 

CENA 3

 

Velório de Hiroshi.

Mulher de Hiroshi, Nyoka e Domício Reis.

Música: Beethoven, Sinfonia nº 3, 2º movimento.

 

VOZES (em off) – Hiroshi cuidava pessoalmente de clientes caixa-alta, aplicando no paraíso fiscal de Cayman. Espalhou o dinheiro pelo mundo, apostou nas bolsas e fez empréstimos a empresas que o banco ignorava.

 

VOZES (em off) – É verdade que ele era especialista em mascarar balanços, acobertando perdas do banco?

 

VOZES (em off) – Pior! Transferia de cliente para cliente até pousar em alguma conta bancária da Suíça.

 

VOZES (em off) – Agora é que eu entendi porque meu tio pedira a assinatura de uns bóias-frias que colhiam laranjas. São as tais contas-correntes fantasmas.

 

VOZES (em off) – Lavagem de dinheiro constava também do cardápio?

 

VOZES (em off) – Além de não cumprir contratos…

 

NYOKA – O bode expiatório desse escândalo emprestava credibilidade ao banco. Ninguém duvidaria da integridade de um oriental.

 

VOZES (em off) – Por que Hiroshi terminou seus dias assim? Por que fraudou o sistema financeiro? Foi para isso que saiu do Japão?

 

NYOKA – Os orientais são mestres em preservar a memória de seus antepassados. Meu pai não queria perder a família de novo. E a sua preocupação era de que ela permanecesse unida. Ao se mudar para o Brasil, ficou obcecado pela idéia de nos proporcionar uma vida confortável, atraído pelas perspectivas de enriquecimento que o Brasil oferece aos estrangeiros.

 

DOMÍCIO – O fato, Nyoka, é que os japoneses imigraram com receio de serem excluídos do progresso material que os reaproximaria dos Estados Unidos. No entanto, seus espíritos lá permaneceram. Não quiseram se adaptar aos costumes brasileiros e pensam que ainda possuem um exército de fetiches a serviço da tradição japonesa, pronto para exercer um controle férreo nos destinos da família e manter o casamento indissolúvel. Concentram-se em somar; não dividem para reinar. A bomba de Hiroshima destruiu esse mito.

 

VOZES (em off) – Hiroshi Yamanoue nunca havia sido réu. Vinha sendo interrogado e teria admitido que aplicou sem autorização, porém sempre em nome do Rural Oeste. No Brasil, abusa-se do crime de perjúrio. Sua consciência, no entanto, não o deixava em paz, permanecia fiel às suas origens. Todo santo dia ingeria veneno em porções parcimoniosas, de modo que não levantasse suspeitas. Um verdadeiro haraquiri.

 

DOMÍCIO – Todo velório que se preza tem que ser pontuado por comentários maledicentes de parentes e amigos, de forma a atestar a autópsia moral do falecido, no afã de limpar os respingos de lama que cobrem de vergonha a família.

 

NYOKA – O sonho de família de Hiroshi virou cinzas.

 

VOZES (em off) – Dêem início à cremação do corpo. Parem de rogar praga. Tratemos de esquecê-lo o mais rápido possível. Joguem as cinzas ao vento.

 

 

CENA 4

 

Restaurante japonês com tatame e almofadas no chão.

Elói cantando para Eva.

 

ELÓI – “Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida.”

 

EVA – Ai, eu morro de vergonha com essas coisas! Tá todo mundo olhando pra gente.

 

ELÓI – Não é muito melhor um barco de sushi e sashimi ao invés de um bolo de aniversário? Gostou da idéia das velinhas em cima da raiz forte?

 

EVA – Ficou linda a decoração com pétalas de gengibre.

 

ELÓI – Está vendo aquele sushi, o maior de todos? Prove.

 

EVA – Humm, tá gostoso… ué, que é isso? Não, não acredito, um brinco de pérola incrustado num sushi? Elói, você é demais!

 

ELÓI – E repare que o outro brinco está nas minhas mãos. Fiquei com medo de você engasgar.

 

EVA – Eu fico sem jeito com tantos galanteios, com esse seu cavalheirismo romanesco de jantares à luz de velas.

 

ELÓI – Vai dizer que você não gosta?

 

EVA – Qual a mulher que não gosta? O que eu temo é presente de grego. O problema é ter que fazer vista grossa ao cavalo de Tróia, que se embrenha, de mansinho, em nosso território.

 

ELÓI – Eu gosto do requinte. Não vi nada de mais em te presentear com uma cesta de café da manhã no Dia das Mães. Arranjo de orquídeas, toalha bordada, porcelana chinesa e guardanapos com monograma, para bem comer geléia de rosas no croissant com chá branco da China, chocolate trufado com água mineral extraída dos Alpes.

 

EVA – Tenho a ligeira impressão de que você está indo rápido demais!

 

ELÓI – Que é que tem ensinar à sogrinha como se prepara um cherne no papel laminado? Aliás, sua mãe me autorizou a dar uma mão de tinta no seu apartamento, as paredes já estão descascando.

 

EVA – Eu gosto de decidir as coisas com calma. Por isso é que não quis aprender a nadar. Tenho pavor de entrar no mar, medo de que a correnteza me arraste para o fundo.

 

ELÓI – Eva, se tem uma coisa que eu amo é ajudar os outros. Uma mão lava a outra. Pra mim, é natural dar presentes, se oferecer para fazer compras no supermercado para sua mãe, levar o carro para a oficina.

 

EVA – Eu não quero ser indelicada…

 

ELÓI – Meu bem, ouça-me com atenção. Há tempos que sinto algo querendo brotar de dentro de mim, queimando minhas entranhas. Estou sempre prevendo o que irá acontecer. De princípio, fiquei assustado. Depois, alguém me deu a mão… me conduzindo… eu desejo ser médium. Claro que não de um centro espírita qualquer. Procuro um de alto nível, que congregue diversas filosofias espirituais. Quero incorporar entidades, cuja sabedoria oriente as ovelhas necessitadas a encontrar uma saída para as enrascadas em que se meteram. Trazer uma palavra de conforto em vez da surrada compaixão.

 

EVA – Às vezes eu sinto que o ambiente lá em casa também fica carregado, sem um motivo aparente. Mas tenho receio de procurar alguém que se meta a dizer o que fazer da minha vida, e comece a pregar a pastoral dos bons costumes.

 

ELÓI – Prever o futuro é eternamente possível. O xis da questão é descobrir o seu hemisfério, onde o irracional predomina e os impulsos instintivos convergem para orgias… não debocha, eu estou falando sério.

 

EVA – Teu apetite é mesmo de um touro. Associar orgia a visões só confirma a previsão que todo paranormal é um tarado sexual em potencial.

 

ELÓI – …criar o ambiente propício para estabelecer a correlação entre os astros e os fenômenos, interpretando corretamente a simbologia que daí decorre. Acreditar que é mole entrar em transe, é a via mais rápida para se acomodar, vulgarizando a devassa nos destinos do homem. Os céticos estão de plantão para eliminarem os charlatães em duelo, por ultrajarem a honra da razão.

 

EVA – Ooô, pai-de-santo, será que se esqueceu de que faço 25 aninhos hoje? Vamos embora que o melhor presente ainda não foi dado.

 

Eva fecha a porta de seu quarto à chave. Tira a roupa de supetão, desmancha a trança de Rapunzel e admira-se diante do espelho adulando as melenas.

Elói se excita com o cabelo louro que cai como uma cortina sem esconder a bunda. Agarra-a por trás, empina o seio esquerdo, enquanto sua mão direita no umbigo escorrega de mansinho. Interrompendo o cantarolar de Eva.

 

ELÓI – Por que você gosta tanto de me provocar? Parece que sua mãe escolheu o teu nome a dedo.

 

EVA – Esqueceu que eu saí da tua costela?

 

ELÓI – Para me enfeitiçar?

 

EVA – Duvido que um homem da tua experiência vá se deixar seduzir pelo canto de qualquer sereia.

 

ELÓI – Você não é uma qualquer. Quero entrar no seu paraíso.

 

EVA – E por acaso irá esquecer os outros paraísos?

 

ELÓI – Que outros? Só tenho você!

 

EVA – “Só tenho você” é o que a mulher mais deseja ouvir de um homem. Mas também é o que mais tem medo de ouvir.

 

ELÓI – Que mania irritante de achar que os homens não são sinceros. Só porque confessam que finalmente encontraram a mulher que tanto queriam.

 

EVA – É que no fundo eu não confio no seu amor.

 

ELÓI – Quero vê-la todo dia. Sinto falta de seu corpo quente ao deitar-me sozinho. Que tal morarmos juntos? Já completamos seis meses de namoro.

 

EVA – Nesse quartinho?

 

ELÓI – O que é que tem?

 

EVA – Eu, você e minha mãe?

 

ELÓI – Qual é o problema? Me dou muito bem com a sua mãe.

 

EVA – Mas você não mora com a sua irmã?

 

ELÓI – Moro, mas não sou casado com ela.

 

EVA – E a sua irmã, não vai ficar chateada comigo? Afinal de contas, você deve ajudá-la muito em casa.

 

ELÓI – Se você quiser, mudo hoje mesmo. Com a condição que aposente essa ridícula cama de solteira do tempo das bonecas.

 

Elói beija Eva e a pega no colo como se fosse sua noiva. Rodopia. Pousa seu corpo suavemente na cama. Apaga a luz.

Eva acende a luz, recostada na cama. Acende um cigarro.

Elói deitado de bruços.

 

EVA – Ontem me ligou um agiota querendo saber quando você vai pagar.

 

Elói finge que dorme.

Eva cutuca seu ombro.

 

EVA – Tá me ouvindo?!

 

ELÓI – Huum…

 

EVA – Fiquei assustada. Soou como uma ameaça.

 

ELÓI – Tô morto, não dá pra discutir isso amanhã?

 

EVA – Elói, que é que você anda armando?

 

ELÓI – Esse é um dinheiro que eu precisei para pagar uns negócios aí.

 

EVA – Por acaso seriam os quadros e esculturas que andou arrematando em leilões e vernissages? Você coleciona arte para expor as obras na minha casa? Você está pensando em cobrar ingresso para entrar nesse museu?

 

ELÓI – Um dia teremos a nossa casa…

 

EVA – Olha, eu andei conversando com a sua irmã…

 

ELÓI – Você não devia botar fé em tudo que minha irmã diz.

 

EVA – Pô, Elói, ela me disse que você tem mais de cem camisas, oitenta pares de sapatos, mais de mil CDs, uma coleção de perfumes e de jaquetas de couro. Óculos para praia, montanha, chuva, neve, jantar esporte fino, show de rock e sei lá mais o quê. Isso sem contar a moto.

 

ELÓI – Você não pode imaginar como eu me sinto quando me visto bem. Sou outra pessoa. Diferente do Elói.

 

EVA – Você sempre gostou de apontar dentre os seus amigos quem era 171. Cantava em verso e prosa suas proezas, os mil e um truques usados para tirar partido, a lábia e a conversa ao pé do ouvido. Por trás de cada façanha havia uma conquista amorosa, se lembra? Mas nenhum deles quis ser médium! E você ainda quer me fazer de palhaça, colocando-me para orientar e encaminhar os perdidos no centro espírita, enquanto dá passes?

 

ELÓI – Dá passe coisa nenhuma, eu sou vidente. O trabalho fundamental é salvar a vida das pessoas.

 

EVA – Eu sou uma mulher que não sabe sair de cima do muro. É a primeira vez que um homem entra em minha casa para dormir comigo, aqui no meu quarto, do lado da minha mãe. Não sei o que é que deu em mim para deixar isso acontecer. Até hoje, nenhum homem havia me tratado tão bem e com tanta consideração. Agora, suma da minha frente!

 

 

CENA 5

 

Quarto de hospital. Gemidos de lamúria.

 

DOMÍCIO (espanando o jaleco) – Parece que as cinzas do velho samurai não querem se desgrudar de mim. (Olha para cima) Não precisa se preocupar Hiroshi, sua filha está a salvo comigo. Hum, de onde vêm esses gemidos, quem será que está pedindo para morrer?

 

Domício se aproxima do leito de Elói.

 

ELÓI – Não agüento mais ser esquecido por Deus!

 

DOMÍCIO – Que é que Ele te fez dessa vez?

 

ELÓI (em prantos) – O senhor não vai entender minha história. Vai pensar que é o drama de um desempregado que pirou. Mais uma história dentre as milhões que rolam todos os dias.

 

DOMÍCIO – Trate-me por você. Se não me ajudar, eu não posso te ajudar. Todo dia dão entrada aqui pacientes desorientados, confusos e desmemoriados. A minha clínica se especializou em diagnosticar se o doente padece de dores físicas ou morais. Abra seu coração, meu filho.

 

ELÓI – O agiota não dormiu no ponto. Uma conjuntivite matinal quase me impediu de ler mais um telegrama de demissão. Recordo-me que na noite passada havia caído num sono profundo, embalado pelo alarme antiaéreo de um filme de guerra, enquanto as pessoas corriam em busca de abrigo e os aviões nazistas deixavam cair bombas. Que saco, a ronda por um novo emprego vai recomeçar! Recorta jornal, retoca o currículo e envia pela caixa postal quem você foi e o que deseja ser. Nada de contatos pessoais, a fim de evitar maiores constrangimentos, como o de ver seu próximo padecer da humilhação de não ter dinheiro para pagar suas contas… de se sentir inútil. O momento exige frieza e que cada um procure zelar pelo que é seu.

 

DOMÍCIO – É, todos perdemos os escrúpulos, a mediocridade é nossa companheira inseparável.

 

ELÓI – Pelo menos não preciso fazer barba todo dia. Mas é melhor pingar colírio no olho, para dar uma espiada no tamanho da fila do auxílio-desemprego. A cada mudança de emprego, a expectativa do ter-de-viver-bem marca sua presença, espalhando a dor da insatisfação de um ponto a outro. Pescoço duro, dores na coluna, rigidez na junta das mãos, rinite alérgica, enxaqueca, gastrite, labirintite.

 

DOMÍCIO – As estatísticas oficiais asseguram que somos portadores, em média, de sete enfermidades que nos afligem ao mesmo tempo. Mas quem é que está conspirando por trás disso tudo, mexendo os pauzinhos para desencadear essa perseguição implacável? Com que objetivo?

 

Elói aponta para a capa de uma revista.

 

DOMÍCIO – É, ele (ênfase) exige eficiência e capacidade para poder conversar com ele. Senão, ele te engole. Dá medo e fascina ao mesmo tempo. Mas você sabe lidar com…

 

ELÓI – Claro, sabia que mais cedo ou mais tarde ele (ênfase) iria abocanhar nossos lugares e pôr na rua uma legião imensa de infelizes. Miseráveis e também gente graduada. A ordem é excluir aqueles que não se adaptam. Inclusive os especialistas.

 

DOMÍCIO – Bem, pelo menos, a primeira onda de extermínio não cortou sua cabeça.

 

ELÓI – Estou percebendo que o doutor está captando bem minhas palavras. Mas não me livrei de outras ondas, que exigiam cada vez mais, caso contrário seria taxado de burro e fora da realidade. Condenado à extinção. Teria que ignorar meu colega de trabalho porque competia com ele. Senão como iria pagar minhas dívidas? Tinha que pensar em mim, e ninguém está aqui de passagem para fazer mais ou menos, é para fazer o melhor, pensar grande.

 

DOMÍCIO – E aí vieram as dores, o castigo por não se submeter…

 

ELÓI – Pior, muito pior… alucinações! Perante meus olhos, cresceu um Minotauro de olhar esbugalhado, argola nas fuças, garganta profunda, espumando, a querer engolir-me, vociferando: “Difícil, muito difícil conseguir emprego”. O monstro expelia mouses, teclados, monitores, que se arrastavam pelo chão do hospital. A voz metálica ironizava: “Talvez um emprego agora não seja uma boa idéia”. A fiação que emaranha o computador foi me enlaçando. Acordei do pesadelo no instante em que uma porta se fechou no meu nariz, ao atrasar o pagamento do plano de saúde.

 

DOMÍCIO – Calma, calma, esses sintomas desaparecerão. Um dia você irá dar risadas, quando descobrir que essas alucinações só existem para dar a impressão que são de verdade, apenas para sacudir o turrão e tirá-lo da inércia e da apatia. Eu vou tirá-lo daqui.

 

ELÓI – De acordo com as novas práticas em saúde mental, o politicamente correto é devolver às ruas o desajustado, para que não sobrecarregue o hospital e dê vaga a outro.

 

DOMÍCIO – Eu quis dizer que vou tirá-lo da posição incômoda de inútil.

 

ELÓI – Pronto para levar uma vida medíocre como o resto do povo. Olhe no fundo de meus olhos e me desminta se puder: no seu íntimo, sabe que não poderei mais me ajustar dentro dessa sociedade moderna que vocês estão construindo.

 

DOMÍCIO – Garanto que isso tudo é produto de sua imaginação. Em breve, terá alta.

 

ELÓI – Só não quero levar choque!

 

Apaga a luz.Um grito desesperado de dor.

 

Acende a luz. Domício com olhar fixo na janela, de costas para Elói, ajeitando o aro dos óculos e limpando as lentes.

Elói sentado no chão, apoiado na parede, ora medindo a porta, ora abaixando a cabeça para refugiar-se entre os joelhos.

Música: Rachmaninov, “Rapsódia sobre um Tema de Paganini”.

 

ELÓI – Como provar ao patrão que sou a pessoa indicada para ocupar aquele posto? Que eu estou à altura do que ele procura? Que pode confiar em mim? Afinal de contas, não sou advogado de porta de cadeia.

 

DOMÍCIO – Sou um Deus que pode realizar eutanásias, desligando os tubos de quem está em coma, apressando a morte. Só eu posso sentenciar que o morto jamais irá recuperar a consciência.

 

ELÓI – Não suporto ver a cara de quem me despreza e humilha quando gaguejo ou deixo escapar “pelmanecer” e “balbitúrico”. Ou quando confundo Benedita da Silva com Zezé Mota. Ou quando me embaralho todo com o amor do Woody Allen pela coreana. Pra mim aquilo é incesto. Será que o filho deles também será rejeitado?

 

DOMÍCIO – Jurei solenemente alongar a vida de meus pacientes, bombardeando o câncer com quimioterapia.

 

ELÓI – Estão sempre exigindo de mim, querendo que eu faça mais. Não sei nem quem é meu pai. Minha mãe se virou para pagar meus estudos, minhas duas esposas reclamavam que eu não dava duro para dar conforto a meus filhos, e os políticos só se lembram de mim nas eleições, como símbolo do desemprego.

 

DOMÍCIO – Sou também uma parteira que posso dar à luz e fazer abortos.

 

ELÓI – Porque me maltratam tanto assim se nem preto eu sou? Não tenho culpa se nasci com a pele morena. Políticos filhos da puta, que só falam em emprego e trabalho. Depois que se elegem é que a gente vê a importância que dão à família. À família deles.

 

DOMÍCIO – Cara ou coroa?

 

ELÓI – Vida ou morte?

 

DOMÍCIO – Vamos negociar a sua alta. Estou confiante na sua reintegração na sociedade. A clínica irá debutar em seus quinze anos de relevantes serviços prestados à saúde pública. Vou oferecer um festão ao som da inigualável banda que rege seus mil CDs, realçada por uma parafernália eletrônica digna de um estúdio. Sob o seu comando. O DJ da festa.

 

ELÓI – Não brinca com coisa séria. Tá tirando onda com a minha cara? Minha estréia como disc-jóquei! (Canta) “Eu vou tomar um porre de felicidade / Vou sacudir / E vou zoar toda cidade.”

 

DOMÍCIO – Não exagera.

 

ELÓI – Você é quem exagerou, foi além da conta. Realizou o meu sonho dourado. Vou tomar um porre de coquetel de letras. Adeus, gagueira!

 

DOMÍCIO – O salão de baile está sendo organizado para não dar vontade de sair, a não ser em nome de uma boa causa. Serviço de bar nos quatro cantos. Iluminação difusa para cegar os cristãos que ainda não sabem o que estão fazendo neste mundo. Todos sozinhos, todos juntos nessa parada. Nada de agarrões, só conversa ao pé do ouvido.

 

ELÓI – E a sua esposa, Doutor Domício?

 

DOMÍCIO – Não confunda casamento com manifestações incontroláveis da minha libido. O Doutor Domício Reis tem esse direito. É a oportunidade para me deleitar e observar médicas, enfermeiras e amigas na caça, suas preferências e a maneira como se entregam, sem notarem que estou de olho nelas. (Pausa) Pensando bem, o médico precisa viver bem para bem exercer seu sacerdócio. Necessita dormir a sono solto para recuperar suas energias.

 

ELÓI – Ora no confortável leito conjugal, ora na cama do hospital…

 

Elói sai desembestado de alegria.

 

 

CENA 6

 

Na corrida, Elói tropeça nas muletas de Chico Ferraz, projetando-o ao chão.

 

ELÓI (envergonhado) – Mil desculpas! Que é que eu fiz? Você se machucou?

 

CHICO FERRAZ – Tudo bem. Isso acontece. Não se preocupe.

 

Chico Ferraz tem uma aparência que parece-que-saiu-do-banho, brilhantina no cabelo e camisa de manga comprida que acabou de sair do cabide. Elói olha-o de cima a baixo.

 

ELÓI – Ué, como é que você veio parar aqui?

 

CHICO FERRAZ – Estou sendo atropelado pela segunda vez em uma semana. Bati com a minha moto na traseira de um carro que parou subitamente no sinal vermelho. Fui cair sobre a copa de uma árvore. Estava distraído pensando em como fugir de amigos que só dizem “presente!” se a maré estiver a favor. Caí do cavalo, ou melhor, da árvore!

 

ELÓI – Você parece estar inteiro. Por que está de muletas?

 

CHICO FERRAZ – Estive inconsciente por dois dias. O Doutor Domício achou melhor me internar para que ficasse em observação por algum tempo.

 

ELÓI – Santo homem! Ele me salvou! Foi o pai que nunca tive.

 

CHICO FERRAZ – Ele é um grande amigo da minha família. E a sua família, é daqui?

 

Elói nega com a cabeça.

 

ELÓI – E você?

 

CHICO FERRAZ – Sou filho único. Moro sozinho, numa casa grande demais para mim.

 

ELÓI – Não é casado?

 

CHICO FERRAZ – Estou muito desiludido com as mulheres. São muito autoritárias e de uma soberba sem tamanho. Elas estão sempre querendo dar um rumo à vida do homem, dizendo o que ele deve fazer, tratando-nos como se fôssemos um bando de tontos.

 

ELÓI – Pois eu quero distância da mulher que não segura minha onda. Fico possesso quando elas fingem interessar-se por mim e depois me dão as costas.

 

CHICO FERRAZ – Elas só estão preocupadas em como corrigir o homem de forma que se torne adequado a ela. Para que não fique tão evidente, disfarçam palpitando sobre como devemos nos vestir.

 

ELÓI – Não esquento com mulher frágil, neurótica, hipo…hipocondríaca, que fica exigindo garantias para provar que você tá a fim dela. Depois que eu belisco, caio fora.

 

CHICO FERRAZ – Desde que perdi meu pai, acabou minha tranqüilidade. Perdi aquela voz segura, a quem eu podia recorrer à hora que quisesse. Só ele mesmo para suportar a histérica da minha mãe. Ela sempre o tratou como se ele nunca estivesse à sua altura, uma eterna insatisfeita.

 

ELÓI – Deixa isso pra lá. Saia com uma hoje, namore outra amanhã, durma com quem quiser. Afinal de contas, elas também estão usando a gente.

 

CHICO FERRAZ – Não me sinto à vontade para abordar esse mulherio. Sou um homem às antigas, faço questão de abrir a porta do carro para a mulher entrar, não gosto de dançar separado, beber é brindar. Jóia rara é aquela que não te atropela quando você procura expressar seu pensamento. Estas meninas estão muito aflitas!

 

ELÓI – Dê um jeito nelas, Chico!

 

CHICO FERRAZ – Positivamente, você é um limpa-trilho! Passa o rodo em tudo. Não livra a cara de ninguém.

 

ELÓI – Um dia você ainda vai encontrar a mulher de seus sonhos. Tem muita mulher dando sopa, não é possível que não apareça uma. Uma que você possa namorar tal como antigamente.

 

CHICO FERRAZ – Quem dera que eu pudesse reprogramar minha cabeça para lidar com a mulher de hoje.

 

ELÓI – Foi por isso que raspei a cabeça e abandonei esse mundo piolhento de cabeludos. Esse pessoal já morreu e não sabe. Eles estão completamente ultrapassados. Igualdade, fraternidade e solidariedade, isso nunca existiu. Quebra-quebra, saques, luta armada, tudo é pretexto para se fazer arruaça. Querem impor suas idéias na base da força.

 

CHICO FERRAZ – Mas por que você estava com tanta pressa?

 

ELÓI – Você já esteve numa festa de verdade? Então, venha comigo.

 

Ambiente de cabine de som. Elói não pára um minuto sequer no ritmo de sua escolha. De lápis na orelha, manuseava os CDs com habilidade, analisando, em fração de segundos, as duas ou três melhores faixas de cada disco.

 

CHICO FERRAZ – Parece que você conhece as músicas de cor e salteado! Estou impressionado com a sua destreza em manusear os CDs. Você tem um dom natural para selecionar as músicas adequadas…

 

ELÓI – Chico, eu aqui sou o próprio maestro. Que prazer que eu tenho em ver as pessoas dançando com as minhas músicas! Repare como elas me admiram de longe, agradecidas. Como se liberam da tensão.

 

CHICO FERRAZ – Estou embevecido com o seu ouvido, revela uma rara sensibilidade. Santo remédio para acalmar meu pessimismo crônico.

 

ELÓI – Amargura não tá com nada! Olha só a farra a que se entregam médicas, cirurgiões, psiquiatras, enfermeiras e caronas.

 

Nyoka aparece tensa no salão procurando por Domício, andando de um lado para o outro. Elói sobe num banco fingindo orquestrar a música. Nyoka o localiza e se dirige até ele.

 

NYOKA Viu o Domício por aí?

 

ELÓI – Toda vez que eu penso que o vi é ilusão de ótica.

 

NYOKA – Eu já vasculhei essa clínica de cabo a rabo e nada!

 

ELÓI – É comum o Doutor sumir na poeira das festas?

 

Nyoka larga um sorriso, descontraindo. Recupera a tensão.

 

NYOKA – Falta o banheiro dos homens.

 

Elói vira-se para Chico Ferraz.

 

ELÓI – Estou apertado, toma conta do som.

 

CHICO FERRAZ – Mas eu não sei mexer nisso!

 

Elói diante de Nyoka.

 

ELÓI – Não adianta procurar o seu médico pois ele está na enfermaria do 3º andar com a Piedade.

 

NYOKA – Como é que você sabe?

 

ELÓI – Da cabine de som eu vejo tudo!

 

Nyoka abre a camisa de Elói, botão por botão.

 

NYOKA – Bico calado e não faça o menor movimento.

 

Nyoka risca o peito de Elói com a unha, desde o pescoço até o bico do peito esquerdo. Elói encolhe o corpo.

 

ELÓI – Não faz isso comigo! Fico todo arrepiado!

 

NYOKA – Fecha os olhos!

 

Nyoka sorve os lábios de Elói.

Nyoka sai de cena.

 

ELÓI – Ai, que dilema! Corro atrás dela ou finjo que nada aconteceu? Nyoka, Nyoka, para onde você foi?

 

Cabine de som. Chico Ferraz e Elói.

 

CHICO FERRAZ – Estou precisando de alguém que me oriente na substituição da minha coleção de LPs por CDs. É um trabalho que vai levar tempo, estou tendo dificuldades em me desfazer de algumas raridades.

 

ELÓI – Perfeitamente, você deve ter discos que eu não conheço.

 

CHICO FERRAZ – Você entende de motos? Tenho que verificar preços e modelos.

 

ELÓI – Claro, eu já tive algumas.

 

CHICO FERRAZ – Não me leve a mal, preciso de alguém para organizar a minha casa. Chamar um carpinteiro para construir estantes no rastro dos livros que se amontoam. Livros que li e esqueci, sobretudo os que não deveria. Não consigo dar continuidade às tarefas triviais do dia-a-dia. Será que dá para ajeitar a bagunça do quarto de dormir, que se transformou num depósito de coisas velhas? A minha casa definha e assume a pose de um cortiço.

 

ELÓI – Já sei, você quer pôr o seu mundo nos eixos. Não conseguir jogar nada fora, meu caro, é abrir a porta para a decadência entrar.

 

CHICO FERRAZ – Eu me sinto entediado e sem a menor vontade de me dedicar seja ao que for, a não ser cultivar minha depressão. Na verdade, preciso de uma companhia que me compreenda e me ouça.

 

 

CENA 7

 

Casa de Chico Ferraz. Janela com vista para o mar e a floresta. Elói e Chico Ferraz.

 

ELÓI – Chico, meu irmãozinho! Você é o irmão que eu sempre quis ter!

 

Chico Ferraz observa Elói com indiferença.

 

ELÓI – Como eu gosto de andar com os pés descalços nesse piso! A arquiteta que projetou a sua casa merecia um prêmio! Coincidência ou não, depois que me conheceu, o casamento dela não vai bem das pernas.

 

Elói arrasta os pés descalços no piso.

 

ELÓI – Com uma vista dessa não dá nem vontade de ir à praia.

 

Elói abre a janela e respira fundo. Chico Ferraz olha com frieza.

 

ELÓI – Estou seco por uma cervejinha. E você, vai beber o quê? Quer que eu prepare uma caipirinha de kiwi?

 

CHICO FERRAZ – Com vodca russa.

 

ELÓI – Coquetéis flambados e coloridos só existem a partir da qualidade do bar. Você tem de tudo aqui, sem falar na adega. Eu não canso de admirar o cristal desse copo comprado em Paris pelo seu bisavô francês.

 

CHICO FERRAZ – Têm sido agradáveis as reuniões en petit comité que você organiza aos sábados. Com pouca gente a conversa flui melhor. Esse serviço de disque-bufê que você contratou funciona direitinho. O garçom já toca a campainha com salgadinhos, calzone fumegando da lenha e chacoalhando a coqueteleira.

 

ELÓI – Você vê que nós não precisamos nos preocupar com nada. Tudo corre bem quando o anfitrião se mistura aos convidados.

 

CHICO FERRAZ – Só não sei se quero continuar com isso todos os sábados.

 

ELÓI – Chico, não está na hora de arrumarmos uma namorada pra você?

 

CHICO FERRAZ – Vamos com calma. As coisas comigo não funcionam bem assim…

 

ELÓI – Se você me liberar o caderno de telefones eu organizo um festão, com mulheres que só aparecem em bando. E alguns poucos casais que ainda insistem em viver juntos, embora nada mais tenham a dizer um para o outro.

 

CHICO FERRAZ – E você? Aonde entrará nesse grande espetáculo?

 

ELÓI – Entrarei como um simples coadjuvante. Concentrado em investir nas amigas das amigas das amigas, que habitualmente se apresentam como ovelhas desgarradas, estranhas ao rebanho. Ajustando o meu radar para saber qual eu devo atacar. Procurando descobrir o que mais sobressai nelas. Aí, eu engato minha voz de tenor e exalto uma qualidade que os outros ainda não enxergaram.

 

CHICO FERRAZ – Falando desse jeito, parece que estamos numa tourada. Você é a personificação do toureiro que enfia bandarilhas no cachaço dos touros para fazê-los sangrar, a fim de cravar a espada, o golpe final.

 

ELÓI – Por falar em tourada, o casamento da arquiteta acabou. Vou passar o feriadão com ela.

 

Elói se aproxima e faz menção de dar um beijo no rosto de Chico Ferraz. Chico Ferraz afasta o rosto. Elói procura o abraço. Chico Ferraz se afasta, só permitindo um tapinha nas costas.

 

 

CENA 8

 

Casa de Chico Ferraz. Elói de frente para a janela, falando sozinho. Chico Ferraz escondido atrás do biombo, pensando em voz alta.

 

ELÓI – Cinema em casa é o máximo! Telão grande pra ver novela com aquelas modelos gostosas de 15 aninhos, uuhmm…

 

CHICO FERRAZ – Prefiro assistir filme preto-e-branco porque o olho não é iludido pelas cores e efeitos especiais. Sinto asco pelo banal e pelo vulgar. Não me saem da cabeça os diálogos inteligentes de ‘A Malvada’.

 

ELÓI – …aaah, sensacional assistir corrida de caminhão! E o vale-tudo? Eles sempre arrumam um jeito diferente de porrar, vale a pena aprender. Dá vontade de fazer o mesmo com o próximo pivete que me assaltar no ônibus. Mas de que adianta, se sou incapaz de dar um murro em alguém?

 

CHICO FERRAZ (cantarola) – Covarde, sei que me podem chamar.

 

ELÓI – Duvido que ele tenha coragem de entrar no macio do carro importado, enfiar 200 numa reta e deixar os otários comendo poeira.

 

CHICO FERRAZ – Que ande o quanto quiser no Mercedes, na Kawasaki… não faz a menor diferença pra mim.

 

ELÓI – Taí uma coisa que eu não havia pensado. Ter na minha casa uma árvore para pendurar a coleção de óculos.

 

CHICO FERRAZ – Preciso de óculos, e muito. Para que deixem de saber o que está acontecendo comigo.

 

ELÓI – Por que ele se desliga por completo quando vai tomar banho de hidromassagem? A ponto de largar o laptop no banheiro…sempre ligado…na palavra ressentimento…

 

CHICO FERRAZ – Esse é o mal dos que não possuem quilômetros rodados. Desconhecem as músicas românticas de Antonio Maria. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor. Cansaço da vida, cansaço de mim.

 

ELÓI – Lá quero saber de dor-de-cotovelo, fossa e o meu mundo caiu!

 

CHICO FERRAZ – Na idade dele, o mais indicado é brincar de videogame no meu computador. Vê-se que não teve infância.

 

ELÓI – Não é possível que um homem da experiência de Chico Ferraz não saiba mexer num videocassete, com medo de que aqueles botões o mordam.

 

CHICO FERRAZ – Não sou eu que fui bater no hospital com stress, crises nervosas e convulsões, por não estar adaptado a toda esta tecnologia idiota que nos comanda.

 

ELÓI – Ele quase não sai de casa, passa o dia inteiro trancado dentro de si. Lê muito, é verdade, mas isso não lhe dá boas idéias. Ao inferno com esses homens que acumulam cultura e viajam pelo mundo afora, sem produzir um pingo de sabedoria que ajude a matar a nossa sede.

 

CHICO FERRAZ – Não pára um minuto sequer. Engraçado, parece até que faz alguma coisa de útil. Elói simplesmente não se apercebe quando não está agradando, e nos impinge a sua presença. Esse entra-e-sai dele traz recordações desagradáveis de meu pai, que não cansava de repetir que o ser humano não foi feito para ficar à toa. Para ele, o importante era estar sempre ocupado; para mim, o importante é fazer o que eu gosto.

 

ELÓI – Eu não entendo como as pessoas não gostam de ir à praia. Chico é um desses…branco azedo. Detesta se queimar no sol e quer se manter branco. Para quê?

 

CHICO FERRAZ – Será que essa gente pensa que se bronzear é ficar mais bonito e gostoso? É de uma rematada burrice. Mais saudável aonde? Em contato com a natureza poluída de fezes e de gente? Já sei: torrar os miolos refresca a cuca. E tome de caipirinha secando a poesia do mar. Só pode resultar em cérebro de lagartixa.

 

ELÓI – Branco, a cor imaculada. Para que manter a raça pura? Que raça superior é essa se não querem mais ter filhos? Se for para aproveitar as delícias da vida, tratem de eliminar primeiro os pivetes, os mendigos, os sem-terra, os desabrigados, os encarcerados, e… os desempregados.

 

CHICO FERRAZ – Não sei quem você é. Se médium a caminho de salvar a vida dos outros, ou vidente que devassa e se intromete no destino do homem. Megalomaníaco, compulsivo, consumista? Eterno devedor, de si mesmo. Desempregado, enfermo de uma dor de origem desconhecida, que se arrasta pelo corpo igual a uma gélida serpente. Paranóico, delirante, você alucina e esfacela a personalidade. Alienado, sonha em conseguir emprego às custas de político, quando és apenas um mero joguete em suas mãos. Desajustado, a um pé do cadafalso. Enjeitado…ga-gago. Troca-letras, quem é que vai te querer? Dissimulado, acende uma vela para Deus e outra para o Diabo. Promotor de festas e de casais, com que talento junta e amasia pessoas cujo êxtase é esgrimar e competir. Conselheiro sentimental? Piegas!! Possuis a postura estudada e a presunção de um toureiro, todavia no pasas de um dom juan ordinario. Tens o encanto de um deus para a música, no entanto, oferece a cabeça na bandeja para ser consumido como objeto sexual. Assessor de luxo, segurança, valete-de-pau-para-toda-obra: zé-ninguém é o que tu és!

 

ELÓI – Não consigo entender por que não dá mais festas e aproveita essa linda casa que tem. Anfitrião e gentleman da sua categoria, não existe. Mude de amigos e convide outras mulheres. A fila é de dobrar a esquina à procura de homens com seu perfil. Elas se tornaram mais exigentes, é bem verdade, porém, em compensação, os nossos queridos irmãos, com a graça de Deus, estão falhando. O que de pior pode acontecer é elas se enraivecerem diante de seu estilo especial de ser: de não sair da tua. Absolutamente te diz respeito essa insatisfação das mulheres. Afinal, foram elas mesmas que conceberam, construíram e continuam a alargar o fosso para segregar o machismo. Aleluia!

 

Elói desdobra um robe vinho de veludo e sacode a poeira. Veste o robe, estufa o peito e abre os braços de frente para a janela. Rodopia diversas vezes, observando o esvoaçar da cauda. Se dirige ao banheiro para se contemplar no salão de espelhos.

 

ELÓI – Basta de servir aos outros. Chega de mandar recados. Agora sou eu quem dá as ordens.

 

Música: Elgar, “Pompa e Circunstância nº 1”, a partir do rufar dos tambores.

 

ELÓI – Se encontrar os jornais amarfanhados, dobre-os bem dobrados. Se forem antigos, jogue fora, não quero nada velho aqui. Me faz mal ver planta murcha. Arranque-as pois têm olho grande. Não merecem estar ao lado das que ainda vivem. Não deixa acumular louça suja na pia, a sujeira entranha. Não esquece de apertar a descarga toda vez que usar a privada. Ponha menos sal nas carnes e sirva-me chá de boldo, senão a pressão sobe. E lembre-se: que o assado venha fumegando à mesa. Apresentação é tudo na comida. Deixa que eu atendo a todos os telefonemas. Abra as janelas para deixar o ar entrar. Feche-as se vier o vento e a chuva. Na hora de procurar o talher ou travessa adequada, não faça barulho na cozinha. Não bata as portas, atrapalha a inspiração para selecionar a música que eu preciso ouvir no momento.

 

Elói tira o robe e admira seu corpo. Aperta o bíceps, alisa o peito e deixa escorrer a mão até o púbis. Mergulha na espuma, olha para cima e borrifa seu rosto com bolhas de sabão. Levanta-se da banheira e livra-se de alguns flocos que o aborrecem. Acaricia a toalha felpuda e se enxuga. Passa água de colônia em todo o corpo.

 

ELÓI – Que injustiça! Eu deveria ter nascido no lugar do Chico.

 

CHICO FERRAZ – Demorou mas, finalmente, o safado se revelou.

 

ELÓI – Chico Ferraz é um parasita. Sei aproveitar a vida melhor do que esses brancos ricos. Se o panaca, com essa casa toda, perdeu o tesão e não fatura ninguém por probleminhas existenciais, não quero nem saber, encaçapo elas todas!

 

Elói aproxima-se do espelho, arreganha os dentes e cruza os braços nas costas.

Música: Paul Dukas, “O Aprendiz de Feiticeiro” (final).

 

ELÓI – É isso que elas querem, né não? Sei que elas não vão abrir isso nunca, não têm coragem de confessar nem pra melhor amiga. As mulheres não agüentam mais a impotência dos homens que só têm fachada para oferecer e que fingem que tudo está funcionando a contento. Eles se engalfinham por prestígio, sem se dar conta de que são capazes de vender sua própria mãe. Apenas retocam o verniz da cultura, sem se aperceber que o brilho já se foi. Coitados, ainda inflam o peito de pombo, só que ninguém mais ouve o que eles têm a dizer. É um tal de barata-voa, cada qual corre atrás de seu torrão de açúcar. E assim caminha a humanidade. Falta homem nestes homens.

 

Elói abre um sorriso sarcástico, de frente para a platéia.

.

ELÓI – Além do mais, se vacilarem, meus caros e queridos companheiros de infortúnio, ela continuará a percorrer a fila e fará a escolha, queira você ou não. O escolhido pode ser o cara que está exatamente atrás de você. Ou do seu lado, caso o bafo na nuca te incomode.

 

Chico Ferraz de frente para a platéia.

 

CHICO FERRAZ – É sempre assim. O solteirão convicto sempre desperta comentários sobre o que ele faz do seu sexo. Pula de mulher em mulher, mas só é visto em festas, na praia, nas ruas, sozinho. Solitário. É bem verdade que perdi a empolgação, não consigo mais me apaixonar, acabei por me distanciar delas. Eu me afastei tanto das mulheres que já surgiram rumores que virei homossexual. Logo eu que detesto quando começam a soltar plumas e paetês no carnaval, loucas para serem o destaque na frente de escolas. Logo eu que me incomodo com a discrição dos gays que, numa manobra inteligentíssima, se misturaram à massa, tornando impossível saber quem é e quem não é. Ficaram tão “normais” que se transformaram em um enigma para mim. Casar ou ser pai não significa tirar atestado. Eu preciso das mulheres, só que me recuso a ser tratado como reprodutor sexual, e por isso sou obrigado a usar camisinha sempre. Não me submeto à vontade delas, de quererem ter filhos como e quando lhes convêm. Detesto vê-las de chicote na mão a dizer que nós, homens, não queremos assumir nada, relação nenhuma, como se fôssemos vagabundos. Eu não sou um vagabundo!

 

ELÓI – Eu quero é poder viver bem nesse mundo, ouviram bem? Repito, no melhor dos mundos! Não adianta vir com papo de intelectualóide, pois vocês não irão me convencer! Deixa eu ter minhas opiniões! Viver do jeito que eu quero! Vê-se pelas suas fisionomias que vocês não estão nada satisfeitos com a vida que levam! Portanto, olhem-se no espelho, seus branquelas! De que adianta o mundo ter sido feito para vocês, se não sabem nem aproveitar a grana que têm? As mulheres estão tripudiando de sua impotência. Sei aproveitar a vida melhor que vocês, cambada de incompetentes! Eu tenho cabeça, viu? Eu sou fodão!

 

Chico Ferraz liga o som e aumenta o volume da música Máscara Negra, cantada por Zé Keti.

 

“TANTO RISO, OH! QUANTA ALEGRIA, MAIS DE MIL PALHAÇOS NO SALÃO…”

 

Chico Ferraz sai de trás do biombo e aparece na frente de Elói.

 

 

CENA 9

 

Elói assiste a um jogo de futebol na TV da birosca. Traficante se levanta da cadeira.

 

TRAFICANTE (possesso) – É golaço! Esse cara tá arrebentando! Tamos ganhando todas por causa dele. Não tem pra ninguém!

 

ELÓI – Também sou vascaíno. De carteirinha!

 

TRAFICANTE – Você mora aqui?

 

ELÓI – Passei a morar não faz muito tempo.

 

TRAFICANTE – O que é que você faz?

 

ELÓI – Sou DJ e vou animar o som dos bailes funk.

 

TRAFICANTE – Quem te contratou?

 

ELÓI – O Maninho da Associação.

 

TRAFICANTE – Ah, é? Eu tava por fora. O que mais você sabe fazer?

 

ELÓI – Bem, eu andei no meio da alta roda e conheci muita gente boa. Organizava festas, contratava bufês, promovia encontros, casais se formavam e cuidava de algumas ovelhas desgarradas.

 

TRAFICANTE – Quer dizer que rolava de tudo nessas festas?

 

ELÓI – De tudo! Me dei bem, como nunca na minha vida.

 

TRAFICANTE – E você também ia nas coisas?

 

ELÓI – Olha, provavelmente você vai me achar um tremendo babaca, mas procuro manter um certo equilíbrio e não misturar as coisas. Se bem que os ricos costumavam me encarregar para que nada faltasse.

 

TRAFICANTE – Ah é? Tá a fim de entrar no ramo?

 

ELÓI – A gente pode conversar.

 

TRAFICANTE – Tá interessado em trabalhar pra mim como avião, com direito a táxi de luxo e roupas finas?

 

ELÓI – Tô, mas tenho umas idéias diferentes.

 

TRAFICANTE – Mas como diferentes? É compra e venda, um negócio como outro qualquer.

 

ELÓI – Eu não quero ser um mero avião. Dá um tempo pra eu explicar a modernização do sistema de atendimento. Que tal implantar um negócio de encomenda de doces e bolos de casamento como fachada? A gente podia acondicionar as drogas no fundo falso das bandejas ou dentro dos brigadeiros, conforme o volume da encomenda. Bem compactadas. Para impressionar bem o freguês, pois no momento em que o invólucro é retirado, tudo o que se encolheu, incha, dando a impressão de que veio a mais. Tal como a pizza, que, quando se remove a embalagem, dá vontade de meter a mão, se lambuzar e devorá-la compulsivamente até o cu fazer bico.

 

TRAFICANTE – Já vi que você é chegado numa historinha.

 

ELÓI – Os pedidos dos clientes seriam enviados através de e-mail para a casa do meu chapinha, o Gilson Ricardo. Ele vai funcionar como meu olheiro, reportando o comportamento da clientela quando alguém estacionar em local proibido. Usando meu conhecimento em informática, posso vasculhar o computador, à cata de qualquer indício que venha a comprometer o bom funcionamento da empresa. Propondo, se for o caso, o desligamento do sócio. O mercado carece de meu olho clínico, para banir consumidores debilóides que cospem no próprio prato que comem, ou melhor, cheiram. Não dá mais pra ficar ouvindo: “Veio pouco, tá misturado, não pago!”.

 

TRAFICANTE – Taí, até que você não é burro não! Mas antes vou ver qualé do Gilson Ricardo, se é pilantra ou não.

 

ELÓI – Faz isso. Tô indo nessa, o funk vai começar.

 

 

CENA 10

 

Ambiente de baile funk.

Elói escolhe CDs.

Áurea dança à sua frente.

 

ELÓI – Por que você não está dançando com os outros? Você descarta todo mundo que chega em cima.

 

ÁUREA – Você manipula com tanta habilidade os seus CDs que eu reparei nas suas unhas bem cuidadas.

 

ELÓI – Para mim, unha é uma questão de limpeza. Você me entende?

 

ÁUREA – Claro que te entendo! Sou manicure.

 

Elói corresponde com um sorriso e oferece uma bicada na lata de cerveja.

Áurea dá um gole e devolve a lata. Solta os cabelos, retoca o batom e oferece um cigarro.

Elói dá uma tragada.

 

ELÓI – O que é que você quer ouvir?

 

ÁUREA – Quero uma música especial para eu dançar.

 

ELÓI – Deixa comigo!

 

Áurea rebola ao som da música, gira a cabeça e balança os cabelos.

Elói apenas olha a bunda de Áurea.

 

ELÓI – Você mexe gostoso, hein?

 

ÁUREA – Aprendi a rebolar subindo essas escadarias com uma lata d’água na cabeça.

 

ELÓI – Pode-se saber o que você vai fazer depois do baile?

 

ÁUREA – Vou pra casa dormir. Só quero evitar a zoeira dessa galera. Os gritos de guerra me assustam.

 

ELÓI – São jovens sem emprego, descrentes do estudo, sem qualquer perspectiva.

 

ÁUREA – Ah, não, Elói, eles brigam muito entre si e assustam os seus pais que precisam acordar cedo para arrumar emprego.

 

ELÓI – É, nessa hora os pais devem pensar: “Aonde foi que eu errei?”

 

ÁUREA – Não quero confusão, procuro me dar bem com todos. Não meto o nariz onde não sou chamada. E não gosto que se metam na minha vida. Detesto gente enxerida. Não reclamo do trabalho, nem mesmo quando sofro assédio desses atletas vaidosos que exigem serviço a domicílio.

 

ELÓI – Você me espera pra gente sair junto?

 

ÁUREA – Ué, o que é que você acha que eu tô fazendo?

 

 

CENA 11

 

Elói atrás de Áurea puxa seu braço, defronte a um carro depenado embaixo de um poste apagado.

Áurea pula no cangote de Elói e beija-o.

Elói acaricia o lábio ferido.

 

ELÓI – Poxa, você mordeu pra valer, hein!

 

ÁUREA – É para deixar minha marca em você. E se lembrar de mim amanhã.

 

Áurea joga Elói de encontro ao banco de trás do carro. Desaperta o cinto e abaixa a calça de Elói. Áurea vem por cima de Elói e o esconde sob a saia rodada. Contorce o ventre lentamente observando as reações de Elói. Gira a cabeça e balança os cabelos. Áurea esmurra o peito de Elói e morde seu mamilo.

 

ELÓI – Não morde assim, que aí não dá pra segurar, meu amorzinho. Estou apaixonado! Desejo viver com você, Áurea.

 

ÁUREA – Espera mais um pouco. Não goza agora, não.

 

Áurea lambe a orelha de Elói.

 

ELÓI – Não me torture assim…

 

Áurea tapa a sua boca com as mãos e tem um orgasmo.

 

ÁUREA – Ai, ai, aii, aii, aiii… Tuca, meu amor.

 

ELÓI – Ei, meu nome é Elói, quem é esse Tuca?

 

ÁUREA – Espera aí… deixa eu me ajeitar. Desculpe, não faça mal juízo de mim. É, acho que terei de explicar agora…

 

ELÓI – Explicar o quê?

 

ÁUREA – Meu marido, o Tuca, morreu não tem nem três meses.

 

ELÓI – Poxa!

 

ÁUREA – Me desculpa ter trocado seu nome, mas acontece que o Tuca se foi…assim…de repente…

 

ELÓI – De repente, como? Morreu de quê?

 

ÁUREA – Foi assassinado pela polícia!

 

ELÓI – Vocês tinham filhos?

 

ÁUREA – Tenho quatro, mas já estão todos criados, não moram mais comigo nem vivem às minhas custas. São todos homens.

 

ELÓI – Sofreram muito com a morte do pai?

 

ÁUREA – Não muito… é que são filhos do meu primeiro marido.

 

ELÓI – Quantos maridos você já teve?

 

ÁUREA – Três, viúva três vezes…

 

ELÓI – Viúva três vezes!?

 

ÁUREA – Não fique assim, tão apreensivo. Eu sou uma mulher honesta, teria que te contar mais cedo ou mais tarde. Não deixemos que isso estrague nosso romance.

 

ELÓI – Convenhamos que… ah, eles faziam o quê? Qual era sua ocupação?

 

ÁUREA – Dedicavam horário integral às suas atividades aqui mesmo na favela. Eram muito benquistos pela comunidade que reconhecia seus esforços em prol de obras de saneamento, abastecimento d’água, quadras de samba, cultos.

 

ELÓI – Mas e os outros maridos, morreram de quê?

 

ÁUREA – Vamos combinar assim. Prometo contar tudo tintim por tintim. Outro dia. Agora já é tarde. Venha dormir lá em casa.

 

ELÓI – Huum, tô com sono, mas vou logo avisando que você me deixou um gosto de quero mais.

 

ÁUREA – Já sei, já te conheço. Vamos passar na padaria para comprar uma bisnaga bem fresquinha. Quero que prove do meu café, bem preto, igual nóis! Se a gente se der bem, venha morar comigo. Cuido com muito carinho do que é meu.

 

ELÓI – Você mora lá há muito tempo?

 

ÁUREA – Eu comprei essa casa não tem nem três anos.

 

ELÓI – Iiih, então ainda falta é tempo pra acabar de pagar.

 

ÁUREA – Elói, se tem uma coisa de que me orgulho, é de não possuir dívidas. Meu pai me ensinou a não gastar mais do que eu tenho. Não foi à toa que escolhi ser manicure. Trabalho não me falta. Ainda mais agora que os homens também morderam a isca da vaidade, querem melhorar a aparência, mostrar-se mais asseados. Inclusive porque ajuda a esconder defeitos de caráter… tão duro de reconhecer!

 

 

CENA 12

 

Elói na mesa de uma birosca, bebendo conhaque e comendo torresmos. Tira um maço de dinheiro do bolso e começa a contar nota por nota.

 

ELÓI – Agora sim, tá tudo dando certo! Estou muito satisfeito por ter me acertado na vida. Não preciso mais correr atrás de emprego. Os hômi me pagam na bucha. Já estou com um novo lote de mercadorias para colocar à venda e ainda estou com dinheiro do bom no bolso. Eu não vou mais pisar na bola.

 

Elói bebe o conhaque de um gole só.

 

ELÓI – Que coisa estranha, não sei por que estão me vindo algumas imagens do passado. Um gosto na boca de um tempo em que assaltava a geladeira e me lambuzava com geléia de goiaba, enquanto minha mãe roncava na cadeira de balanço. De um tempo em que extraía o mel das abelhas no apiário, escorregava na pedra musgosa do rio, fazia feijão no fogo à lenha, tinha piriri no meio do mato, enfiava a bota na bosta da vaca.

 

Elói finge que a caneta escapa das suas mãos e procura embaixo da mesa. Senta debaixo da mesa, de frente para a platéia, tira a carga da caneta, abre o papelote e cheira.

Música: acordes dissonantes em metais.

 

ELÓI – Às vezes, me cansa manter as aparências. Me mostrar equilibrado. Sei lá, sinto necessidade de respirar outros ares. O problema é que não tenho muita resistência, fico tonto na hora. Sou hipertenso, as batidas cardíacas logo se aceleram. O nariz fica entupido. Vem na boca um gosto de uma experiência química que acontece no fígado… ou será nos rins? Não, acho que é nos intestinos.

 

Elói seca o suor da testa e passa o lenço pelo rosto. Respira fundo.

 

ELÓI – Tenho que calar essa voz que me persegue, relembrando que nunca irei encontrar alguém que queira ficar comigo. O Gilson Ricardo não cansa de me dar esporro para botar uma aliança no dedo da Áurea, afinal de contas mulher se amarra em compromisso. Para botar um ponto final a esse “disse-me-disse” e provar que não estou entregue às baratas. Vou comprar logo um solitário, um bem grandão! Apesar dela ser tudo o que eu nunca quis pra mim.

 

Música: Philip Glass, Koyaanisqatsi, “Vessels”.

Elói tenta atravessar a rua, olha para um lado e para o outro. Olha para o sinal de contramão. Abre um sorriso de lado a lado. Atravessa a rua. Apaga a luz. Som de freio estridente e baque de um corpo ao chão.

 

Policial disfarçado de crente: camisa de manga comprida abotoada até o pescoço, calça vincada, sapato de cadarço, meias brancas, cabelo penteado e repartido, com a Bíblia nas mãos.

 

CRENTE – Afastem-se todos! Ele precisa de espaço para respirar. Não mexam nele enquanto a ambulância não chegar.

 

O crente se agacha e encosta a boca no ouvido de Elói, que está caído ao chão.

 

CRENTE – De tanto seguir seus passos já te conheço bem. Você já foi trabalhador como eu! Peguei no pesado anos como estivador. Vi e participei de tanta podridão no cais do porto que resolvi mudar de lado e entrar para a polícia. Para proteger minha alma. Agora você, não. Preferiu o caminho das más companhias e meteu-se numa enrascada braba. Só por causa de dinheiro. Pensando bem, tua ambição não é dinheiro, é querer que gostem de você, falem de você, é ser conhecido por onde passa, e até admirado. Elói, o bambambã! Será que você não se olha no espelho todo dia? Não vê que seu rosto ainda é marcado pela sua natureza, ingênua e sonhadora? Esperteza não é o seu forte, boi de piranha! Tu não tens vocação para malandro. Não devia ter saído do mato para se chafurdar na bosta da cidade grande. Garanto que na roça você aprendeu o que havia de melhor: mecânico, pedreiro, bombeiro, carpinteiro, queijeiro, até ordenhar vacas. Mas que aqui não te trouxe proveito nenhum. Claro, sua preocupação sempre foi não ser um zero à esquerda. A vida inteira você perseguiu isso e acabou sendo alcançado pelo zero.

 

ELÓI – Quer dizer que eu vou morrer?

 

CRENTE – Deus mandou avisá-lo que quer ter uma conversinha contigo. Anos a fio você puxou conversa com Ele e fez pedidos. Depois O esqueceu.

 

Crente põe a mão de Elói entre as suas.

 

CRENTE – Meu filho, todo homem que renega suas origens, suas raízes, merece que ponham fogo em suas vestes para que sinta na pele o desprezo devotado a seus ancestrais. Devemos ousar sempre, pois quem não ousa já morreu e não sabe. Contudo, crer-se em estado de transe permanente e pregar o autocontrole no comer, beber e amar, devassando o futuro dos incrédulos, é charlatanismo. Viver enfiado na casa dos outros, sem lutar para construir a sua, é não ter vida própria, é não querer mostrar quem você é através dos seus objetos pessoais. É afastar Deus, para bem longe. Ele se entristece com quem, falso, testemunha. Mesmo distante, Ele nos presenteia quando nos enlouquece, oferecendo infinitas chances para descobrirmos o sentido da Vida. Delírios e visões não existem para que acreditemos em monstros. No entanto, você não soube crescer e acabou se transformando num monstro. Com corpo de toureiro e cabeça de touro. A querer ferir a mulher com seus chifres e pisotear as flores de seu jardim.

 

ELÓI – Qual é o homem que presenteia uma mulher com um brinco de pérola incrustado num sushi? Sempre cerquei minhas mulheres de todas as atenções. Presentes, declarações de amor, satisfação sexual. Eva nunca foi amada do jeito que eu a amei. Ela mesma me confessou isso. Será que só eu é que sou consumista? Preciso de música para respirar, é por isso que tenho mais de mil CDs. Desde quando é pecado se vestir bem? Pra mim, é uma questão de higiene. Afinal de contas, não vivemos mais nos tempos de Jesus Cristo em que o cidadão se enrolava em trapos. Que satisfação saber que estou sintonizado com as novidades do Primeiro Mundo, ao acompanhar o avanço da tecnologia. Sou filho de Deus, por que não posso comprar meu disc-laser e laptop? Chico Ferraz era solitário, um eterno insatisfeito e desiludido com as mulheres. Fiz-lhe companhia, procurei desembaraçá-lo dos seus amigos interesseiros, pus lenha na sua fogueira. Ser humilde não é virtude, sei o que represento para Áurea. Eu até comprei um solitário pra ela. Um pouco de ambição não faz mal a ninguém.

 

Crente larga a mão de Elói.

 

CRENTE – Pare de encontrar uma desculpa para tudo o que você fez, seu infeliz! Será que você já não está sentindo o calor das labaredas, na prisão do inferno?

 

O crente mostra a carteira de polícia para Elói.

 

CRENTE – Exijo que me dê os nomes dos miseráveis que o levaram para o caminho da perdição. E não se preocupe com o solitário. Vou fazê-lo chegar às mãos da sua barba azul de saias.

 

ELÓI – Os nomes… dos que me pousaram no berço… me ninando para dormir… e entrar no melhor dos mundos. Sempre pensei que a Dindinha tivesse sido a minha mãe. Não consigo me esquecer das inúmeras vezes que ela me pôs no colo para enxugar minhas lágrimas. Eu era um verdadeiro capeta. Pra que ela foi me contar que não era minha mãe verdadeira? Que eu havia sido deixado na soleira da porta? Se não fosse o doutor Domício Reis recuperar minha consciência, estaria levando choque até hoje. Foi a minha sensibilidade para música que levou Áurea a cuidar de mim com muito carinho.

 

Som e imagem de guerra. Alarme antiaéreo, pessoas correndo e gritando. Choro de crianças. Metralhadoras. Som e imagem da eclosão da bomba atômica.

 

 

CENA 13

 

Crente tira o distintivo do bolso e joga fora. Entra na birosca e se dirige à mesa do traficante.

Música: ritmo de samba em percussão, tocada em surdina.

 

CRENTE – Eu sou o pastor…

 

TRAFICANTE – Já sei. Que que você quer de mim?

 

CRENTE – Cheguei atrasado porque estava salvando uma ovelha que se desgarrou do meu rebanho.

 

TRAFICANTE – Tá bem. Anda logo, desembucha.

 

CRENTE – Pretendo construir um templo no terreno ao lado da Associação dos Moradores.

 

TRAFICANTE – E eu com isso?

 

CRENTE – Queremos fazer uma parceria com vocês.

 

TRAFICANTE – Quê? Eu não tenho tempo pra perder com babaquice.

 

CRENTE – Estou falando sério. Tenha um pouco de paciência, se você deixar lhe explico tudo. Não será um templo como os outros. Ar-condicionado, água gelada e cafezinho, mas nada de mármore. Criaremos bandas e corais que entoem hinos religiosos e músicas de Roberto Carlos. Uma igreja voltada para ensinar um ofício à garotada, preparando os jovens para uma profissão. Por exemplo, os computadores estão na moda, não é verdade?

 

TRAFICANTE – Não precisa gastar o seu verbo com computadores, isso não é novidade pra mim. Se eu precisar, compro qualquer desses meninos. Pago melhor mesmo!

 

CRENTE – Pois é. Também pretendo organizar um serviço de fornecimento de sopão no inverno, e macarrão no verão, para alimentar os mais carentes.

 

TRAFICANTE – Não quero saber de fila pra matar fome nos becos da minha favela. Não vou permitir que vocês façam a cabeça desse povo às custas dos famintos.

 

CRENTE – Mas o projeto do templo é seu também.

 

TRAFICANTE – Quem foi que disse que estou interessado em ser sócio da Igreja? Tá maluco?! Ô meu irmão, diria que você tá começando a correr risco… (ajeita os óculos espelhados)

 

CRENTE – Já que vocês vão cortar o meu pescoço mesmo, deixa eu me apresentar primeiro. Sou um ex-policial que será promovido a pastor.

 

TRAFICANTE – Você tá brincando com a verdade…

 

CRENTE – O negócio é o seguinte: fui designado pelo Quartel-General para desbaratar a sua quadrilha. Já tenho todos os nomes, pontos de observação, o serviço de pronta-entrega, tudo mapeado. Inclusive o reduto de Gilson Ricardo. Sabemos até dos aparelhos de escuta que vocês instalaram lá para vigiar Elói.

 

TRAFICANTE – Cara, tô besta com a tua coragem! (levanta a aba do boné que esconde o rosto)

 

CRENTE – Elói me deu todas as dicas sobre a rede de tráfico ao seguir seus passos. Mas veja bem, ele não é um reles delator, não deu com a língua nos dentes.

 

TRAFICANTE – Que importa isso? Filho da puta! Puta que pariu ele! Vou arrancar unha por unha com alicate especial para esse tipo de servicinho. Com que prazer vou vê-lo berrar de dor, quando machucar aquelas unhas tão bem cuidadas pela Áurea! Vou dizer na sua cara que Áurea é minha comida, como ela desde o primeiro marido. “Aviõezinhos” iguais a ele. Faço questão de tacar fogo nele pessoalmente.

 

CRENTE – Pera aí, calma, não seja injusto com Elói. Ele não podia adivinhar que eu estava na sua pista. Você sabia que ele foi atropelado e está nas últimas, pela bola sete? Só abriu a boca porque lhe aplicaram uma injeção na veia.

 

TRAFICANTE – Então, vai sobrar pra você! Que audácia a sua vir aqui e me extorquir! E o pior é que não sei se é o policial ou o pastor que quer me chantagear. (levanta da cadeira a fim de tomar uma atitude)

 

CRENTE – Eu não vim aqui com a missão de prendê-los e entregá-los à polícia. Já disse e repito: eu não sou mais cana, não tô mais nessa de dar dura em ninguém.

 

TRAFICANTE – Que é que eu vou ganhar se entrar nessa sociedade?

 

CRENTE – Apoio irrestrito da comunidade. Por exemplo, esse serviço de kombi para transportar os moradores é muito barato, graças a vocês que subsidiam o preço. Imagine os empregos que vocês irão gerar com a construção do templo. Certamente irá angariar a simpatia do povo que retribuirá avisando qualquer movimento suspeito, seja da polícia ou de rivais, na organização de barricadas, nas informações truncadas aos agentes infiltrados, em suma, calando o bico de quem queira ameaçar o acordo. E não pense que é só, tenho outros empreendimentos em vista para liquidar de vez a política de erradicação das favelas. Obras de infra-estrutura social, água, esgoto, creches, quadras de esporte, contenção de encostas, pavimentação, e até piscinas! Estender a rede de iluminação e telefone a todos os recantos da favela, esse pessoal que privatizou tem a cabeça muito arejada e aceita negociar com quer que seja, sem discriminação. Ao contrário dos políticos que dizem não à favelização.

 

TRAFICANTE – Você tá me deixando confuso. Agora não é mais o pastor que tá falando, é o político atrás de votos.

 

CRENTE – Confuso, ô campeão? Usa tua esperteza para entender que mais dia menos dia virá o voto distrital, e eu poderei me tornar o representante dessa comunidade. Os marginais precisam se compenetrar da importância de se construir templos na favela, e de que a Igreja só pode subsistir à base de doações espontâneas, de forma que todos, em ambiente de confraternização, possam se dedicar à missão que Deus destina a cada um de nós, mortais.

 

TRAFICANTE – Ô bispo, sua santidade está tentando me catequizar, mas vamos parando com esse papo de marginal. Não esquece de avisar aos políticos que deixei de ser vagabundo. Será que você vai convencer a sociedade de que não sou mais fora-da-lei?

 

CRENTE – Olha, nas horas vagas também sou profeta. Anota o que vou lhe dizer. Em breve, os homens públicos os convocarão a participar de uma grande roda de negociações sobre a legalização das drogas. Prepare-se. Vai acabar essa história de que “Bandido bom é bandido morto”. Se tiver fé, poderá se converter num grande comerciante e respeitável empresário. Se não levar fé, presta atenção nas raposas que irão tomar conta do seu galinheiro.

 

TRAFICANTE – Você não acha que está indo longe demais?

 

CRENTE – Se o momento não fosse sério, daria uma gostosa gargalhada. Logo você é que vem me falar de ir longe? Ah, sim, a única recomendação que meus futuros fiéis deverão fazer é que vocês se comprometam a observar uma conduta que não choque e ofenda a comunidade: cheirar sem ninguém ver. No Brasil é preciso manter as aparências, custe o que custar, doa a quem doer. Gostamos da festa, do carnaval, mas queremos distância da balbúrdia, tudo tem que ser mantido na santa paz. Além do mais, fazer vista grossa ao consumo de drogas… mais uma ou menos uma hipocrisia, qual é a diferença?

 

TRAFICANTE – Reverendo, você se aplicou antes de subir o morro? Isso é papo de doidão! Experimenta uma carreira ali das boas, vai clarear tua cabeça. Como é que eu vou controlar esses malucos? Nós só vendemos, ninguém aqui é babá de zé-mané. É cada um por si, Deus por todos.

 

CRENTE – Manda cheirar em casa. Limpe os becos. Monte sua própria polícia. O importante é que ninguém veja. Ninguém agüenta mais viciados aos berros, que não estão nem aí pro que os outros têm a dizer, gozando a cara do trabalhador só porque tem uma rotina a cumprir.

 

TRAFICANTE – Negócio fechado! Vamos comemorar ao meu modo.

 

Traficante abre a pochete, saca uma 45 e atira para o alto.

Som de AR-15, pistolas, morteiros e fogos de artifício.

 

 

 

CENA 14

 

O estampido dos fogos chama a atenção do menino Jesus.

 

JESUS – Que barulheira é essa lá embaixo? Estão comemorando o quê, pode-se saber?

 

Deus de pijama listrado, com olheiras profundas e deitado na rede, debaixo de um ventilador que emaranha seus cabelos.

Música: Beethoven, Sinfonia nº 4, 2º movimento.

 

DEUS – Não é nada que interesse a você!

 

JESUS – Ah, Pai! Deixa eu descer um instantinho pra brincar com os hômi. E aproveita para tirar essas rodelas de batata da testa! Deixa de ser ridículo! Já existe remédio para enxaqueca.

 

DEUS – Já disse que não, seu pirralho teimoso!

 

JESUS – Pai, larga do meu pé! Já sou grandinho pra namorar Afrodite e chegar em casa a hora que eu bem entender, sacou? Pô, que caretice a tua! Zeus, que é Zeus, já liberou geral faz tempo! Me solta, me solta, eu vou descer. Não agüento mais, você não pára de dizer que eu preciso amadurecer um pouquinho mais. Já esperei demais. Há mesmo quem diga que eu nunca vim à Terra.

 

DEUS – Fala direito. Vim, não. Fui.

 

JESUS – Vim. Morri, ressuscitei e nunca saí de lá.

 

DEUS – São os pobres de espírito que procuram entender, através da mente, os mistérios pelos quais Deus se manifesta. Com medo de que sejam devorados pelo absurdo, tentam me decifrar, pouco adiantando ser claro e insofismável que estou sempre presente no âmago do ser humano. No bem e no mal. A dificuldade reside na má interpretação que é dada ao livre-arbítrio, associando os descaminhos e suas conseqüências aos desígnios de Deus, que tudo Vê e nada Faz. Como se a liberdade de nada valesse e o melhor fosse viver tal qual cordeirinhos. Eles não aceitam que estão na Terra para aprender a se desenvolver.

 

JESUS – O que há com o ser humano que pouco faz em torno do útil, por conta do fútil, pondo a culpa no passado, nos pais, no azar, no destino, no vudu? Por que não fez o que sempre sonhou? Por ter tido medo? Eles se sentem desamparados, querem que Deus fale com eles.

 

DEUS – Eles é que não me ouvem! O individualista só ouve a sua própria voz. Usam o Meu nome a torto e a direito para prometer o céu e a terra, manipulando o amor, as eleições e a fé. Perdi a paciência, parece que se tornaram mais limitados, estúpidos. Estou cansado de tantas súplicas desesperadas para que Eu entre na vida deles, embora a porta permaneça fechada. De que adianta Ser Tudo, se Eu quero crer em algo diferente de Mim e estou impedido? O Deus que os mortais adoram não consigo mais Ser. É uma prisão da qual não posso escapar, de ter que conviver com essas criaturas que teimam em…

 

JESUS – Pai, eles procuram novos vínculos com seus pares e diversas formas de relacionamento. Muitos duvidam da palavra de Deus, não têm religião, nem professam credo, sequer querem falar sobre Deus. No entanto, podem ser profundamente espiritualizados.

 

DEUS – Enquanto outros comemoram a execução de um criminoso condenado à morte, dando graças a Mim porque Eu os livrei de mais um.

 

JESUS – Você não está se referindo à pena de morte e sim “ao aqui se faz, aqui se paga”. É isso que me intriga, porque eles já sabem o que irá acontecer na vida deles e nada fazem para mudar. Mesmo sabendo que o peso de tal omissão irá recair sobre suas cabeças.

 

DEUS – Você já ouviu falar de karma? Do Maktub, do “está escrito há 6.000 anos”? No destino? Ah, quer saber de uma coisa, eu não estou mais interessado na metafísica.

 

JESUS – Tenho vontade de voltar, Pai. Não para castigar os crentes por terem deturpado criminosamente o sentido das Suas palavras. Absurdo invocar o nome do Senhor de forma abusiva, caso contrário não conseguem livrar-se do vício. Vício da bebida, da droga, compulsão sexual, viver em função do trabalho, a disciplina estúpida, mentir para si mesmo, não fazer o que inveja no outro… achar que é dono da vida do outro.

 

DEUS – Vai, continua… a lista é longa.

 

JESUS – Jogar todas as fichas no sexo, pensando que isso irá mudar seu destino, transformando o amor nessa Torre de Babel, onde ninguém se entende.

 

DEUS – Torre de Babel? É, ouço o clamor dos que aguardam ansiosamente o Apocalipse. Perdeu-se a confiança no amor que regenera, o amor deixou de ser a tábua da salvação. Perdeu terreno.

 

JESUS – Confesso não saber qual o caminho que devo trilhar no meu retorno. A tônica predominante deve ser a da paz, mas o povo exige heróis. Recuso-me a vestir a bata do Salvador que traz apenas uma palavra de esperança. Os beatos loucos, em vez de esclarecerem os mistérios divinos, propagam a lenda. O reino da terra se estreitou e se afunilou. Os que têm de menos não reconhecem mais o seu lugar. Desceram o morro e estancaram seus passos diante dos que têm de mais. Face a face, sem baixar os olhos.

 

DEUS – Meu filho, você só vai descobrir seu rumo quando puser os pés na terra.

 

JESUS – Pai, ninguém quer mudar sua própria essência, com medo de ser algo que nunca sonhara em ser. Preferem ficar atrelados a idéias antigas onde se julgam donos da verdade, sacando fórmulas miraculosas para tirar os outros do buraco. Não se dão conta de que é preciso ceder. Permitir que o seu terreno seja semeado para novas colheitas. Acreditar mais em si. Pois crer no Senhor, meu Pai, não significa que sejamos mulas tangidas pelo cajado do pastor.

 

DEUS – Desde Moisés, se perde muito tempo em discussões estéreis sobre o que é pecado, não se dando o justo valor à libertação da alma. Devido ao pavor de morrer e ao temor em se submeter ao Juízo Final. A preocupação dominante era viver obediente aos mandamentos da Lei de Deus, afugentando as tentações e se arvorando em controlar a conduta moral do próximo. Parece que eu condicionei os mortais a pensarem que a vida é finita, sendo Eu, Infinito. A libertação do espírito tem que ser praticada desde que o filho sai do útero do pai e da mãe, aceitando que ele não nasceu à sua imagem e semelhança. O filho que cresce e pensa não deve ameaçar o pai e a mãe. Nem mesmo quando mãe e pai precisam amar, juntos ou separados, e o filho, enciumado, bate com os pés no chão e derruba o copo de leite. Porque quer sentir o amor. Para poder cruzar a rua e mudar de calçada sem medo de ser atropelado. Sem interromper o curso do rio para evitar que desfigure a beleza de sua natureza, ao se juntar com as águas do mar.

 

JESUS – Pai, está na hora de me separar de Ti, de me desvincular de Ti. Nos tempos do Novo Testamento, eu vim em carne e osso para tornar a Sua mensagem compreensível a todos. Eu fui Você. Agora quero ser eu. Quero me libertar. É forçoso eu crescer e levar a minha mensagem. Propagar uma energia cósmica que aproxime o sagrado e o profano. Ninguém cresce sozinho. Temos que agir por nós mesmos se quisermos ser um povo livre. Tenho que aprender a morrer para que outros possam viver melhor. Seria ridículo reclamar, de novo, porque Tu me abandonaste, Pai. O homem é quem sempre se abandona ao desistir da luta. Basta de valorizar o martírio, ninguém mais morre na cruz.

 

DEUS – Entendo, almejas ser um Cristo homem, ombro a ombro com seus irmãos, solidário na evolução que o retire da condição de senhor feudal, de só querer proteger os seus e manter a situação herdada. Liquidar as panelinhas e igrejinhas.

 

JESUS – Quebrar a espinha dorsal da sociedade que ainda me coloca como objeto e vítima de uma conspiração. Ou então me ascende ao pódio, investindo-me de super-homem, por ter ressuscitado Lázaro. Os policiais que me cravaram não podem continuar a prender as pessoas desse jeito, apenas porque são guardiães da ordem. Sob o pretexto de se defenderem das balas a esmo disparadas pelos bandidos, devolvem na mesma moeda, assassinando os inocentes que se escondem debaixo da cama.

 

DEUS – Meu filho, não pregues a violência contra os inimigos. A violência acaba se voltando contra você, está mais do que provado. Depois, é tarde para se arrepender. Aprofunde o amor e combata essa terrível epidemia: o medo de amar. Estenda-o a essa gente que nunca foi objeto de Meu amor. Cuide-se e procure não excluir ninguém, pois esses serão os primeiros a querer plantar.

 

 

CENA 15

 

Velório de Elói.

Música: Mozart, Requiem, “Lacrimosa”.

 

Elói estendido no chão, cercado de flores e velas.

Áurea chora, amparada pelo Doutor Domício Reis, Nyoka e Eva, vestida de enfermeira; pelo Crente, de terno e óculos escuros; e pelo Traficante, com a camisa do Vasco da Gama. Todos perfilados em sinal de respeito ao toque de silêncio.

 

Hiroshi, de quimono, executa o toque de silêncio no violino.

 

Jesus cruza o palco e pára diante de Elói.

 

ELÓI – Deus…

 

JESUS – Eu deixei de ser Deus. Voltei, principiando pela morte para começar a mudar a vida.

 

ELÓI – Não zombe de mim numa hora como essa. O Senhor é meu deus e sempre será.

 

JESUS – Elói, companheiro, seus amigos já estão encomendando sua alma.

 

ELÓI – Não quero olhar para trás, não quero ver ninguém chorando por mim, não quero ouvir hinos nem salmos. Não permita que isso aconteça, intervenha Deus misericordioso. Por favor, perdoe-me, acho que me perdi e meti os pés pelas mãos. Me dê mais uma chance! Afinal de contas, me senti desamparado a vida inteira. Todos estamos desamparados. Que ilusão a minha pensar que podia melhorar de vida! Por que não aceitei humildemente o destino que Tu me deste? Deixa eu ficar aqui, mesmo vestido de palhaço, alegrando o povo:

 

Música: “Máscara Negra”, cantada em coro (off).

 

“TANTO RISO, OH! QUANTA ALEGRIA, MAIS DE MIL PALHAÇOS NO SALÃO…”

 

 

FIM

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