Em junho de 1943, aos 18 anos, Oona O’Neill se casou com Charlie Chaplin de 54 anos, 36 anos mais velho. À época, foi um escândalo. Para o pai dela, uma traição imperdoável, pois nela enxergava um futuro aberto e promissor diante de sua beleza e inteligência. Oona era filha de Eugene O’Neill, o dramaturgo vencedor do Nobel que redefiniu o teatro americano com histórias de famílias despedaçadas.
Charlie Chaplin, o ícone do cinema mudo como o eterno vagabundo, a lenda viva de Hollywood. Já havia se casado três vezes, sempre com mulheres muito mais jovens. Tinha filhos adolescentes, uma carreira em declínio e escândalos que colocavam na sua conta.
Para o público, a narrativa parecia óbvia: um astro envelhecido se aproveitando da juventude casando-se com uma jovem em busca de uma figura paterna. O fato de Chaplin ser apenas seis meses mais velho que o pai dela tornou tudo ainda mais chocante.
Eugene O’Neill reagiu com fúria. Já contrariado com o desejo da filha em querer seguir a carreira artística, viu no casamento o golpe final. Ele a deserdou imediatamente – à época, gesto comum de pais autoritários em retaliação a filhos que não os obedeciam. E nunca mais dirigiu a palavra à Oona. Até sua morte, em 1953, recusou qualquer tentativa de reconciliação.
Oona, porém, não recuou. Casou-se com Chaplin em uma cerimônia civil discreta, na Califórnia. Apenas duas testemunhas estavam presentes. Ela abandonou completamente o sonho de atuar – não por falta de talento, mas por escolha. Preferiu construir algo íntimo em um mundo que tudo transformava em espetáculo. Contrariando todas as previsões, o casamento não ruiu. O amor durou 34 anos. Juntos, tiveram oito filhos.
Mas amar Chaplin significava compartilhar seu exílio. Em 1952, durante o auge do macarthismo, o governo americano revogou o visto de retorno de Chaplin, quando ele se recusou a ser interrogado sobre suas posições políticas e aspectos de sua vida pessoal. Oona fez sua escolha – mais uma vez. Voltou sozinha aos Estados Unidos, empacotou toda a vida que haviam construído em Beverly Hills, renunciou à cidadania americana e seguiu o marido para se estabelecerem na Suíça – no Manoir de Ban, em Corsier-sur-Vevey, numa mansão do século XVIII às margens do Lago Léman. Ali criaram um mundo fechado, quase isolado. Raramente se separavam. Chaplin dependia de Oona, do ponto de vista prático, emocional e artístico. Ela cuidava de tudo: da rotina, dos negócios, da memória dele. Os últimos quatro filhos nasceram no lar suíço, com Chaplin tornando-se pai novamente já na casa dos setenta anos.
Em 1972, os Estados Unidos finalmente o convidaram de volta para receber um Oscar honorário, em noite de redenção. Um acerto de contas com o passado, regado a fartos aplausos. Oona estava ao seu lado, como sempre. Ele viria a morrer no Natal de 1977, aos 88 anos, deixando-a viúva aos 52 anos. Uma convivência de 34 anos, na qual Oona construiu sua identidade em torno de um único papel: ser a esposa de Charlie Chaplin. Quando ele morreu, o mundo que ela sustentara com tanta devoção desmoronou. Tentou dar sequência à sua vida, dividindo-se entre a Suíça e Nova York. Mas não conseguiu se reencontrar. Aos poucos, caiu no mesmo abismo que destruíra o pai e o irmão: o alcoolismo. Tornou-se reclusa, voltando definitivamente à mansão onde vivera os anos de exílio. Embora tivesse escrito diários e cartas por toda a vida, deixou instruções claras em seu testamento: tudo deveria ser destruído.
A ducentésima quinquagésima sétima intervenção espiritual, em 9 de janeiro, se iniciou com cânticos no intuito de abrir caminho para os espíritos curadores, prosseguindo com a leitura de “Vinha de Luz”, 165 (“Assim como”), de Chico Xavier pelo Espírito Emmanuel, e estudo preliminar do capítulo 11 (“Amar ao próximo como a si mesmo”), itens 5, 6 e 7 (“Dai a César o que é de César”) do livro de Allan Kardec, “O Evangelho segundo o Espiritismo”.
Para que nos furtar o registro dos segredos de seu grande amor, ou mesmo suas dúvidas, dores ou sacrifícios, se decidiu ser enterrada ao lado de Charles Chaplin? Não seria nenhum motivo de vergonha, ao contrário, e nos permitiria aprofundar no caráter humano de um amor dessa proporção, que envolveu personagens de tamanha fama e importância. Teríamos muito a aprender com Oona O’Neill Chaplin, que morreu de câncer aos 66 anos, em 1991, quatorze anos depois de perder o homem que fora seu eixo.
Seu pai, Eugene O’Neill, o homem que escreveu algumas das maiores tragédias familiares do século XX, mas que não conseguiu perdoar a própria filha por ela manter-se fiel ao amor, desencarnando com ressentimento por ela ter criado sua própria história. Charles Chaplin desafiou Hitler ao satirizá-lo no filme “O grande ditador”, em 1940, e a paranoia anticomunista que vigorava nos Estados Unidos no pós-2ª Guerra Mundial, que fechou as portas para o maior ator do mundo de todos os tempos, obrigando-o a se exilar na Suíça. Apesar de todo o seu prestígio, foi duramente humilhado e desprezado, como se estivessem arrancando sua pele a sangue-frio.
Quantas provas tiveram de vencer, injustiças sofridas e tentativas para se rebaixar quem pensasse em contrário! Quanta velhacaria com aparência de honesto para se obter com trapaças o que se deseja! E a que todos nós estamos sujeitos em cada encarnação para resgatar o carma.
Dura a nossa existência, embora pautada pelo amor.
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