Eu me recordo, como se ainda fosse hoje, quando você resolveu me crivar de perguntas a título de desemaranhar os laços que a mantinham enredada em dilemas, que poder-se-ia sintetizar: o que fazer entre escrever, minha paixão, e dar conta do meu sustento? Dilema de todo escritor que não ficou famoso ou que não conseguiu se valer do ramo de forma apreciável ou de qualquer outra atividade pecuniária.
Eis que veio à tona, pela enésima vez e aparentando não ter o menor nexo com o seu dilema, o tema da escritora Clarice (53 anos) ser, na verdade, a mãe de Gertrudes (80 anos) – para o Espiritismo, a despeito de, na vida real, os papéis serem invertidos. Premonição há muito aventada e não assimilada. Transparecendo talvez algum presságio não muito promissor. Embora, de princípio, ela parecesse absurda, só a espiritualidade para abrir a nossa mente. E no tempo necessário para aceitarmos a transição. Com Clarice se valendo de um poderoso instrumento da tecnologia que passa por cima de uma população que foi adestrada no instrumental analógico e apanha sem dó do digital: o celular. Como se não bastasse o adiantado na idade diminuir consideravelmente os recursos à disposição do idoso, seja de que ordem for, para enfrentar cada desafio que aparece em nossa encarnação.
Assim sendo, a preocupação que não nos deixa dormir é, e será sempre, não conseguir fechar a conta no final do mês. Gestão era uma palavra a que Clarice tinha horror. Pois bem, com a habilidade que lhe é peculiar, não só no celular, ela assume a sua mãe, corta gastos, racionaliza a utilização da TV a cabo e mergulha no pântano dos planos de saúde para escolher um que não explorasse sua mãe, mas desde que com a sua assistência. Só falta agora Clarice inserir sua mãe querida numa de suas artes, já que tamanho empenho acabou repercutindo na própria poetisa, e disso resultará, certamente, em mais poesia, música, teatro e literatura! Quebrando lanças, ganhará mais inspiração, pois surgirão novos temas e cumulará livros, um após o outro. Além de deixar sua mãe mais sossegada e feliz pelo amparo.
O que não foi apercebido (ou não compreendido?), ao longo do tempo em que a premonição fluiu, é que Deus obrou esse tempo todo para ela se realizar. A missão teria sido mais facilitada se houvesse maior fé na previsão e crença em Deus por parte da mãe, egressa de um violento câncer no pulmão que abalou suas convicções na vida. A fé dá sustentação e ajuda a encurtar os caminhos que temos por percorrer, mesmo que o desfecho não mais seja aquele com que sempre sonhamos. Pelo fato da fé contribuir para fechar essa conta e abrir uma outra mais plausível, não mais insistindo em buscar um culpado no passado para justificar o que não se pôde fazer no curso da encarnação.
Mas temos que aprender a decifrar o aparente silêncio de Deus. Quando Ele está a nos ouvir, a todos, presente em qualquer lugar a que nos dirigimos. Você não está sozinho! A filha no papel de mãe para encorajá-la a seguir em frente e isso levá-la a crescer como mãe da mãe biológica, levando o tempo necessário para Clarice se tornar adulta de verdade depois de abandonar o papel de menina, que reinou por anos. Clarice não pode desistir, nem igualmente sua mãe, embora desalentada com o seu futuro e com o que resta por fazer na vida. Basta Dona Gertrudes subir na garupa da moto de Clarice.
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