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CARIDADE MORAL

Allan Kardec retirou a caridade do campo político do discurso demagógico e vazio e a colocou diante da conduta e do comportamento. Para ele, a religião que discrimina, humilha ou exige submissão se desvincula dos bons propósitos que preceitua. O valor espiritual de uma crença aparece no trato com o vizinho criador de casos, com o empregado repudiado, com o doente que exagera sobre dores que frequentemente o açoitam e notadamente com quem pensa de modo contrário.
Chico Xavier converteu horas e horas de trabalho em páginas e páginas de psicografia, sem transformar a própria mediunidade num pedestal.
Ninguém evolui sem passar por provas. Sem aprender a esperar, sem aprender a ceder, sem aprender a confiar. Porque é naquilo que Deus mais te desafia, que Deus mais te transforma. A vida não te fere, te ensina. O Doutor Bezerra de Menezes levou essa convicção ao consultório e às ruas.
O Espírito Emmanuel (por meio das psicografias de Chico Xavier) esclareceu que o progresso da alma não carece de feitos grandiosos, mas sim da execução correta das tarefas simples de cada dia e na atenção às pessoas que convivem diretamente conosco, sem ignorar suas necessidades e se exercendo com paciência e tolerância.
Para Léon Denis, o destino do espírito é num crescer caminhando, marcado pela responsabilidade. Engana-se quem se norteia pela busca exclusiva por prazeres, quando o aperfeiçoamento contínuo pelo estudo, pelo dever e pela dedicação ao bem pô-lo-á na rota de uma ascensão sem fim.
Todos apontam para o mesmo sentido e em igual medida: o bem precisa ser estimulado sob todos os prismas para encorpar mais e prevalecer na ótica de todos os seres humanos, inspirados pelo otimismo, fé e esperança.
Caridade significa também respeitar a liberdade de consciência, inclusive dos ateus. Ninguém é fiel a Jesus Cristo através da coerção, que se manifesta por meio de intolerância, rigidez dogmática, apego a aparência e imposição de crenças sob o pretexto de defender a verdade divina. Kardec preferiu a razão ao fanatismo e vinculou a convicção espírita ao exame, à tolerância e à benevolência.
A caridade material compra alimento, remédio e abrigo. A caridade moral freia a inveja, recusa o disse-me-disse, evita o comentário alusivo ao mal, qualquer que seja ele. A caridade moral corrige sem esmagar o aprendiz e escuta sem usar a fragilidade alheia como alvo para deboche. Uma exige recursos; a outra exige vigilância sobre o próprio ego.
Mas se a caridade moral se debruçar sobre o sentido, o modo e a direção com que se usa as palavras, antes de pronunciá-las, haveria que também calar a explosão da cólera, preferir o silêncio em momentos de irritação, renunciar aos palpites levianos nas menores controvérsias, fugir a reclamações de qualquer natureza.
Sobraria tempo e espaço para observar o pão nosso de cada dia do mendigo. Antes de iniciar o dia de trabalho, há quem traga o sanduíche pronto de casa para o café da manhã do mendigo na rua. Mas também há os que condenam alimentá-lo, pois só agrava o problema social. À inação de uns, a caridade em outros.

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Antonio Carlos Gaio
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