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CRIADAGEM

O Brasil é considerado o paraíso de gente rica, uma criadagem à sua disposição para elevar o seu bem-estar e proporcionar um upgrade no padrão de vida. Objeto de inveja de estrangeiros, exceto quando aqui residem. Também pudera, no Primeiro Mundo as lavanderias é que dão conta das roupas; passar a ferro, nem pensar. Amarrotado é um luxo só.
Esse espírito crítico associa criadagem a servidão, emergente a aristocrata. Se pensar mais alto, alcança a escravidão e vincula aos abastados do colonialismo. A que se reportam com nostalgia do tempo em que eles nos colonizavam. Como era bom o meu francês, do inglês nem se fala, ah, a rica terrinha de Portugal, que saudades do olho clínico da Espanha para queimar santos de pau oco! Basta uma doméstica de coxas volumosas e seios fartos preparar uma deliciosa bacalhoada que eles lambem os beiços e se fartam, esquecendo-se de seu senso de justiça politicamente correto.
Contudo, nossa realidade é outra. Os traficantes zés-manés já atiram do alto do morro em direção aos prédios dos enricados e atiçam a fúria da sociedade, ao atingirem no meio do caminho, indistintamente, babás, operários, crianças, professores e policiais. A pretexto da guerra do tráfico que fatura 10 milhões por semana só na Rocinha. Arranhando a credibilidade de favelas de imensos contingentes da classe operária que, ao contrário dos homens-bomba, não aposta que vai para o paraíso. Obrigando-os a se retirarem para locais mais seguros. Pondo em efervescência uma luta de classes que se acreditava latente. Como uma gripe incubada desde que o comunismo fora posto ao chão. As diferenças são gritantes e só não enxerga quem deseja manter seus privilégios no tropicalismo mais conservador de que se tem notícia, onde ninguém experimenta nada – tudo é falso rebate de propaganda enganosa.
Não é outra a razão de assassinatos cuja motivação é menos latrocínio e mais de tirar dos que têm pros que não têm, a sociologia da miséria, o marxismo de araque. Com que prazer Garotinho, o governador de fato, procura as câmeras e exibe o produto de seu marketing no quesito segurança! O pecado mora ao lado, o malfeitor seria o caseiro do vizinho que pulou o muro e fez justiça com as próprias mãos. Inconformado com seu analfabetismo.
O caseiro de hoje é o mordomo da Agatha Christie, havendo que investigar a criadagem desses endinheirados que não cansam de surgir. Despertando a cobiça de choferes, diaristas, faxineiras, passadeiras, jardineiros e, por último, os seguranças. Essa é a tese do filme “Assassinato em Gosford Park” de Robert Altman, explorando a relação entre os nobres e seus criados na Inglaterra do período entre as duas guerras mundiais: uma convivência de servidão com toda pompa e circunstância, em que os empregados pareciam ter mais orgulho de sua posição social do que seus empregadores. Sendo tratados pelo sobrenome de seus patrões ao invés de seus nomes reais, o título de nobreza é que determinava o lugar do pajem ou aia à mesa de jantar da criadagem. Os esnobes ingleses discutiam seus problemas na frente dos criados como se eles fossem parte da mobília.
Não precisa ser nenhuma sumidade para descobrir que alguém de dentro abriu as portas para o inferno.

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