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O SUICÍDIO DE SYLVIA PLATH, DE SEU FILHO E DE SUA RIVAL

Sylvia Plath foi uma dessas artistas multitalentosas que conquistou fama com a poesia confessional, ao enveredar pelo histórico de sua luta contra a depressão. Passando por contos, crônicas e um romance consagrado, “A redoma de vidro” (1963), além da escritora também manter correspondência e diários. Ela oscila do estilo mais realista à inspiração fantástica, da observação sarcástica do cotidiano à sondagem profunda da dor própria e alheia. Deixou dois filhos e um vasto material inédito, que ficou sob a curadoria do poeta inglês Ted Hughes, com quem teve um casamento tempestuoso. A tal ponto que, postumamente, se observou que o filão mais explorado se referia às revelações de sua autobiografia íntima e que, se ela fosse viva, reclamaria de muitos textos publicados contra a sua vontade, pois já os havia renegado. Sugerindo que a seleção obedeceu ao critério do suicídio mais do que o valor literário.
Menosprezando uma autora jovem e desconhecida que nasceu nos Estados Unidos, que tinha deixado de ser estudante para ocupar na Inglaterra uma posição subordinada à esposa de um poeta considerado promissor como Ted Hughes. Por isso, a luta incansável de Sylvia Plath, desde cedo, para escrever textos dignos de publicação e remuneração imediata como tentativas desesperadas para buscar autonomia e afirmação num mundo, segundo ela, “que até então tardava em reconhecê-la. É mais fácil do que encarar as pessoas, precisar parecer feliz, indestrutível, inteligente. Sem qualquer máscara, eu ando falando com a lua, com as forças impessoais e neutras que não escutam nada, e apenas aceitam o que eu sou. E não tentam me derrubar”. De uma espontaneidade rara, uma autora singular que se foi tão precocemente aos 30 anos de idade em pleno processo de ação e formação, cuja morte é mencionada para sempre lembrar o suicídio, quando o que ficou patente foi seu esforço para continuar a viver.
Em 1963, Nicholas Hughes com apenas 1 ano, dormia em seu berço, quando sua mãe selou o quarto todo para que ele e sua irmã, de 4 anos, não fossem afetados pelo gás com que Sylvia Plath viria a se suicidar. Em 11 de fevereiro, ela veda o quarto das crianças com toalhas molhadas e roupas, deixando leite e pão perto de suas camas, tendo o cuidado de abrir as janelas do quarto, ainda que em meio a uma forte nevasca. Em seguida, ingere uma grande quantidade de narcóticos, deitando a cabeça sobre uma toalha no interior do forno, com o gás ligado, morrendo passado pouco tempo.
O motivo do crime cometido contra si mesma foi o de enxergar no fundo dos olhos de seu marido, pai de Nicholas, que ele não mais a amava conforme a conquistou, com o talento de um dos maiores poetas da Inglaterra, fazendo-a comprar a certeza de que ele não era um mero vendedor de ilusões. Originando, em protesto, um vulcão de desapontamentos, decepções, frustrações, tormentos e a desesperança provocada por um cruel engano de personalidade.
Ainda mais quando Ted se tornou amante de Assia Wevill, enfeitiçado pela beleza exótica, de ascendência russa e germânica, e pelo amor incondicional que ela lhe oferecia. Mulher rodada no mundo, casada pela terceira vez, seu marido até aceitou o affaire, sua última carta na manga para que ela não o largasse. Contudo, em 1969, Assia também viria a inalar gás de cozinha, num revival macabro da morte de sua rival, só que optando por levar junto consigo a filha do casal, de 4 anos, ao invés de deixá-la para ser criada por Hughes.
O mesmo desenlace nas tragédias que fizeram duas mulheres sucumbirem em plena explosão do feminismo. Por causa de um homem? Que estranhos poderes Ted Hughes continha em suas entranhas para provocar dois suicídios em nome do amor? Que amor é esse que Assia não quis lhe deixar nem o gosto do fruto de sua paixão, sacrificando a filha para enterrar bem enterrada a memória de inigualáveis amores que não se sustentam, ficam bambos e se desfiguram?
À fama de Ted Hughes, seguia-o implacavelmente a sombra de “assassino”, gritado nas leituras e palestras do poeta, frequentemente interrompidas por mulheres possessas com o envolvimento de Hughes na publicação póstuma dos poemas mais impressionantes de Sylvia Plath, em que direcionou a excelência de sua arte, sensível e sofrida, para atingir Ted mediante um intenso bombardeio lançado de seus versos – vindo a compor o aclamado livro “Ariel”. As mulheres compraram essa briga como se Ted tivesse abusado da integridade de todas, enraivecidas por saberem que nenhuma está livre de padecer no paraíso com um amor que virou um inferno e sair ilesa.
O suicídio fez de Sylvia Plath um mito, em seus apenas 30 anos. Não entre os acadêmicos ou intelectuais, mas entre as feministas inglesas e americanas no final dos anos 1960. A sua poesia tornou-se secundária ao que foi a sua vida conjugal com o famoso poeta Ted Hughes. As traições, os maus-tratos, a solidão, os desencontros fizeram dela a bandeira perfeita da luta feminista: a bela, jovem e promissora poetisa mata-se devido à infidelidade conjugal. E, assim, Sylvia Plath começou a ser vista como uma vítima, relegando-se seu talento a um segundo plano. Sua morte entendida apenas como uma reação à infidelidade masculina ou a um amor não correspondido e vilipendiado.
A despeito da forte carga de perseguição que atraiu para sua existência, Ted Hughes lutou por todos os meios para ressaltar e reconhecer a força da construção poética que sua mulher desenvolveu pouco antes de cometer o suicídio. Não apenas in memoriam, mas por amor à arte. De tal forma que converte Assia Wevill à obsessão pela imagem de Sylvia Plath.
No entanto, Ted Hughes foi alvo de muitas críticas ao destruir a última parte dos diários de Plath, que continham escritos desde o inverno de 1962 até a sua morte. Ele se defendeu afirmando que a iniciativa visava proteger seus filhos para que não lessem revelações perturbadoras de sua mãe, e o melhor seria esquecer como parte essencial de sua sobrevivência e de sua família.
O filho Nicholas Hughes não conseguiu encontrar ânimo para construir sua própria história, até em razão de seu pai ter incinerado o início de sua jornada ao destruir os diários de sua mãe. Preferiu morrer soterrado por um enredo que transcende o Universo que pensamos poder explicar. Inabilitado para sentir amor pelos seus pais, ou optar por um deles e condenar o outro, ou mesmo negá-los. Resolveu encarnar o mal em seu pai, que morreu em 1998, e cortou seus vínculos com a Terra, suicidando-se, ao reproduzir o papel de vítima que sua mãe e a rival incorporaram.
Não logrou superar o estigma de a mãe ter se matado 46 anos atrás, marcando com ferro em brasa sua existência, imerso numa depressão que o levou a se isolar no Alaska, como biólogo marinho e professor de universidade, solteiro e sem filhos. A forca foi o meio escolhido para se despedir de nós em 2009.
Morreu tragado pela lenda que se criou a respeito de sua mãe. Será que se ela não tivesse morrido, teria alcançado a mesma consagração? Até que ponto se tornou afamada por razões transversas? Leram-na e a leem como um ato de afirmação feminista ou como autora? Ou melhor: leem-na por aquilo que foi ou através da trama que a fizeram representar? Será que, inadvertidamente, Sylvia deu o golpe de marketing perfeito?
Fragmentos de “Lady Lazarus” (1962), poema de Sylvia Plath:

Na primeira vez tinha dez anos.
Foi acidente.
Na segunda tentei
Acabar com tudo e nunca mais voltar.
Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.
Faço isso parecer infernal.
Faço isso parecer real.
Digamos que eu tenha vocação.
É fácil demais fazer isso na prisão.
É fácil demais fazer isso e ficar num canto.
É teatral.

Devemos sanear nossa mente dos pensamentos sombrios que crescem em silêncio, antes que seja tarde. Por ainda não ter encontrado solução para os seus problemas, não se deixe ficar sem opção. Cuide bem de si a fim de evitar chegar ao impasse: ou eu me aprumo ou vou-me embora dessa pra outra! Suas possibilidades de reagir num beco sem saída diminuem consideravelmente.

Fontes: PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. Rio de Janeiro: Record, 1999.
PLATH, Sylvia. Poemas. São Paulo: Iluminuras, 1994.
Filme “Sylvia – Paixão além das palavras”, produção britânica de 2003, dirigido por Christine Jeffs.

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