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De Eduardo Coutinho, que morreu com o filme inacabado, posteriormente montado por Jordana Berg e terminado por João Moreira Salles. Eduardo Coutinho foi um cineasta inigualável por arrancar depoimentos sobre a vida pessoal de entrevistados que nenhum psicanalista jamais conseguiu – sempre ressaltando que podiam ser verdadeiros ou falsos, dependendo da veracidade dos fatos apresentados ou mesmo da interpretação conferida à entrevista, levando os depoentes a fazer revelações inacreditáveis. Desta vez, num universo de jovens cotistas sonhando em ingressar numa universidade, fato esse ainda negado pela nossa gloriosa elite. Reclamando do amor que não receberam dos pais ou valorizando o que lhes foi dado, não enfatizando muito as questões de sobrevivência, o que seria muito mais normal. Mas o que impressiona são os rapazes que não conseguem se adequar ao mundo e surtam. Ou vestem uma couraça para enfrentar a selvageria da vida. Mães homoafetivas, racismo entre irmãos, o desejo de fazer faculdade, carreira militar no foco das mulheres, nenhum homem orgulhoso de ser fuzileiro naval. Por incrível que pareça, Eduardo Coutinho não acreditou que esse filme pudesse ser editado. Sempre entre a cruz e a caldeirinha, sem saber se era um mero documentarista, um entrevistador de mão cheia, um pesquisador de almas humanas ou se era de verdade, não lhe restando outra alternativa senão filmar, filmar, filmar para não descobrir quem foi, pois viria a morrer pelas mãos de seu filho esquizofrênico. Mas conseguiu a magia de nos incorporar ao lamento de nunca ter entrevistado crianças com sua proverbial espontaneidade, como o grande erro de sua carreira, surpreendentemente corrigido fazendo ingressar em cena uma envolvente e desembaraçada menina de 6 anos, de família abastada, que não se furtou à insistência de Eduardo Coutinho em perguntar ou falar de Deus: “Deus é um homem que morreu”. E não adianta os críticos de cinema olharem torto para mim pois eu não contei nada do que havia de relevante no filme, a não ser que Eduardo Coutinho pressentiu a proximidade de sua morte como se estivesse acuado. Apenas retalhos e detalhes, já que a dimensão humana que ele projetou em suas realizações é muito maior do que se pode descrever ou expressar em palavras, tamanho o poder de alcance de sua alma com aquela voz rouquenha característica de fumante inveterado. Um gênio do documentário ou como garimpeiro de almas humanas, a exemplo do que Sebastião Salgado alcançou com suas fotos.

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Antonio Carlos Gaio
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