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A FRANÇA É O NOSSO MAIOR INIMIGO

Que tendência mais irritante a nossa de querer tapar o sol com a peneira! Só porque eliminamos a Argentina das Olimpíadas de Sidney. Eliminamos é pouco, a excluímos da elite dos ricos do futebol, em Londrina. Retirando o Chile da sepultura, ao seviciar a Colômbia, convertendo-a no lobisomem das províncias platinas. Todo mundo sabe que a Argentina pós-Maradona perdeu o brilho, a potência e a pureza da selvageria que impunham temor nos gramados que pisavam. Graças ao Menem, se civilizaram e finalmente alcançaram sua láurea máxima: ficaram iguais aos europeus. E o artista se evaporou junto com o ser primitivo.
A França é que é o nosso maior inimigo, depois de nos infligir a humilhante goleada de 3×0 e acrescentar ao nosso currículo a segunda final de Copa do Mundo desperdiçada. Não nos esqueçamos de que na primeira vez em que a medalha de ouro esteve mais próxima, nas Olimpíadas de 1984, a França nos surrupiou. Ela também transformou Zico no maior pé-frio do futebol brasileiro, ultrajando as glórias conquistadas pelo galinho – o vexame do pênalti perdido rubricou sua terceira e última chance de sagrar-se campeão do mundo.
E não adianta passar a mão na nossa cabeça nem invocar ridículas palavras de consolo, como “a França de Platini era superior à França de Zidane, e nem por isso deixou de ser eliminada pela Alemanha nas semifinais das Copas de 82 e 86; o futebol é uma caixinha de surpresas!”. Eles caçoam da gente quando tentamos justificar a apatia do time com a convulsão do Ronaldinho, ao oferecerem os préstimos de Casanova, Flaubert, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Edith Piaf, para entender os descaminhos e agruras na história do amor.
Se os levamos a sério e dizemos que a França é Zidane e o resto “todo mundo lá atrás”, os gauleses nos reservam a cidade de Pau – nome sugestivo – para nos derrotar, de novo, na Copa Davis/99, dançando o can-can e cantando sua música preferida: “Et un, et deux, et trois, zéro!”. Não funciona associar o sobrenome do seu tenista nº 1 ao famoso palhaço Piolim ou a piolhos, a torcida saúda Cédric Pioline pelo primeiro nome, que está mais para lorde inglês.
De pouco serviu devolver-lhes a derrota em Floripa, a terra do Guga, ao som da música “Fácil”, do Jota Quest. Parece que nada mudou desde que o alemão Hans Staden naufragou nessa mesma costa, há cerca de 450 anos. Como o filme de Luiz Alberto Pereira ilustra. Staden, capturado pelos tupinambás, aliados dos franceses, se investe do bom malandro, durante nove meses, para não virar carne do ensopado dominical dos índios. Não eram canibais, seres não-humanos, absolutamente. Comer o inimigo significava dizer que era mais forte e que não se submeteria ao seu poder. Hans havia sido confundido com os portugueses, aliados dos tupiniquins, figadal inimigo dos tupinambás. Complicado convencê-los de que franceses e alemães eram a mesma coisa.
O que causa mais embaraço é pôr-se a explicar o alargamento do conceito “comer o seu próximo” nos estertores do século XX. Como a estranha fixação do ex-deputado Sérgio Naya em comer a mãe de todos que ameacem flagrá-lo no deleite de sua ruína moral. Ou a insistência desabrida do senador Gilvan Borges (PMDB-Amapá) ao defender o nepotismo por cotas no Congresso, o verdadeiro protetor solar das rasteiras políticas: “Minha mãe me pariu e minha mulher dorme comigo”.
Tais sutilezas de elefante estenderam o conceito de tupiniquim ao ser brasileiro, tornando-as congênitas, adquiridas dos nativos, padrão genuinamente nacional em terra de índio. Não se tem notícia da presença de tupinambás na árvore genealógica dos franceses.

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