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MARCHA FÚNEBRE

A música de Chopin é extremamente sedutora para os ouvidos, pois cria imediatamente um ambiente de devaneio e encantamento. Faz o piano cantar, num estilo muito suave, quase celestial, uma melodia imortal mais afeta a pequenos salões do que grandes auditórios. Mozart, como seu modelo insuperável de perfeição.
As polonaises são peças de origem patriótica, baseadas em danças e ritmos da Polônia, onde Chopin nasceu em 1810. De uma tensão e vigor que refletem a angústia e desespero de sua terra natal esmagada pelos russos, que saquearam e incendiaram Varsóvia. Sofrendo por estar longe, em Paris. Seu gênio precisava aparecer para o mundo.
Em 1837, Chopin conheceu aquela que seria sua companheira por quase dez anos. A escritora Aurore Dupin, mais conhecida pelo pseudônimo masculino que usava para assinar seus livros: George Sand. Tímido e reservado, de maneiras aristocráticas, Chopin não gostou nem um pouco dela: “Será mesmo uma mulher?”. Sand, além do nome, vestia-se e fumava charutos como um homem. Era ela quem fazia a corte com bilhetes e convites para inseri-lo na elite culta da cidade. Chopin entregou-se ao romance quando ela o convenceu a entrarem numa redoma e se isolarem em Maiorca:
– Como um artista pode servir a uma causa e esquecer de si? Antes há que confiar no faro do melhor talento e o seguir acima de tudo. Qual é o seu trabalho? Tocar? Dar concertos? Muitos podem fazer isso. Seu gênio é criar música, para homens menores tocarem. Persiga esse gênio, senão está perdido. Trabalhe, desligue-se do mundo. É o que os artistas querem há séculos. Um lugar separado, longe das lutas de homens que não têm talento. Seja egoísta com esse gênio. Componha, componha muito.
Chopin produziu parte substancial de sua obra na ilha. O supra-sumo do romantismo, ele ao piano e ela com a pena, a regê-lo. Não há quem resista a tanta felicidade. De tanto ela isolá-lo para preservá-lo em nome da arte, o clima muda. Chopin acaba refém de sua própria arte. À mercê de um tutor que não era homem nem mulher. Esfria o ímpeto e aumenta a dependência. Do amor. O tempo, sensível, entra em comoção e se fecha, provocando chuvas constantes que agravaram suas crises de hemoptise. Uma separação em que os amantes não voltam a se ver. Para desgosto do compositor, que ainda a amava. Assim como nunca mais voltaria para casa.
Aos 39 anos falece Chopin. O corpo, enterrado em Paris. O coração, enviado para Varsóvia. O caixão, coberto por terra polonesa. Ao som da “Marcha Fúnebre” que compôs.

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